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CulturaImprimirDicionário critico

Repetição

Jacinto Godinho

Retenha-se esta ideia de um provérbio chinês: “O homem tem o gato para poder afagar o tigre”. Num dos primeiros ensinamentos da Poética, Aristóteles diz-nos que a mimesis é, sobretudo, fundamental para a experiência da proximidade; “distanciar para aproximar”. O gato repetição do tigre garante apenas uma experiência de substituição, a única possível dado o risco. As formas miméticas visuais são das mais eficazes em garantir o efeito de substituição, não por serem as únicas ou as mais perfeitas, mas sim as mais rápidas.

Palavras chave: risco, olhar, cultura, modernidade.

Retenha-se esta ideia de um provérbio chinês: “O homem tem o gato para poder afagar o tigre”. Num dos primeiros ensinamentos da Poética, Aristóteles diz-nos que a mimesis é, sobretudo, fundamental para a experiência da proximidade; “distanciar para aproximar”. O gato repetição do tigre garante apenas uma experiência de substituição, a única possível dado o risco. As formas miméticas visuais são das mais eficazes em garantir o efeito de substituição, não por serem as únicas ou as mais perfeitas, mas sim as mais rápidas. Esta “distanciada proximidade” também não se deve entender como privilégio do olhar. Por exemplo, a busca da interactividade, nos tempos modernos, através do computador e da robótica (como o exemplifica a exploração de Marte com robôs tipo Pathfinder ou Mars Explorer) tentam garantir o “toque à distância”. Não é por acaso que o “tocar à distância”, sendo a ligação mais difícil de garantir, foi também das mais fantasiadas em lendas de bruxas e feiticeiras (boneco das agulhas)[1]. Como o toque arrisca o contágio o olhar tem sido prioritário na condução do efeito mimético.

Terão as imagens mesmo as mais infantes, como as rupestres, iniciado este caminho da experiência mimética? Elas assinalam um lançamento para a acção (caçar, narrar, cantar) asseguraria Aristóteles. Platão responderia negativamente. Em Aristóteles, o homem é lançado para a acção primeiramente pela mimesis, não porque a mimesis reúna o mundo, dê uma imagem e o explique, mas porque a mimesis é a primeira a desligar, a operar a separação que é libertação. A mimesis cria o sujeito-espectador (a uma distância securizante), afasta-o e aproxima-o depois, a coberto das ligações mais perigosas. Quando algo é reflectido, mimado, o que muda não é o que se mima, mas a perspectiva de quem recebe a “reflexão”. A mimesis coloca a possibilidade primeira do espectador e o espectador origina-se, na distância, na separação e na perspectiva que isso lhe traz.

Aristóteles voltaria portanto a colocar a mimesis no centro da actividade artística já que no pensar platónico as formas ideais só estariam presentes nas coisas como imitação[2]. Ao imitarem as formas das coisas os artistas estariam, sustentou Platão, a promover eikásia (sensações) através da mimesis (imitações das imitações) e não a desenvolver noesis o conhecimento puro das formas ideias.

Apesar da elaborada resposta de Aristóteles a demonização platónica da repetição nunca foi totalmente superada na cultura ocidental. Será que Platão pôs em marcha uma figura tão forte, uma máquina desejante que ainda não parou de se reificar? O século XIX Baudelaire foi dos que voltaram a colocar a fuga à repetição como central para a arte moderna. A “mimesis”, tida como fonte de experiências empobrecidas, foi no séc. XX marcada sobretudo pela recusa dos pintores, desde o impressionismo, em “imitar” a realidade e pela deficiente interpretação do texto de Benjamin, A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica transformado num panfleto contra a mimesis.

A repressão da mimesis, mais que a sua interpretação, parece ser aliás um dos motores fundamentais da modernidade. Vai neste sentido a inovadora noção de “figura realista” de Auerbach que nos dá outra visão da mimesis. Uma visão inspirada no modo de funcionamento da metáfora, já que pressupõe que dois acontecimentos, desligados no tempo, só quando mimeticamente ligados pela arte ganham sentido: “A interpretação figural [mimética] estabelece uma conexão entre dois eventos ou pessoas, de tal forma que o primeiro significa-se a si próprio mas também o segundo, enquanto o segundo envolve ou preenche o primeiro.”[3]

Lukács encontra traços da mimesis não só na arte representativa (como o romance e o cinema), mas também na pintura abstracta, na arquitectura e até na jardinagem. Neste caso, trata-se de uma “mimesis dupla” ou “indirecta”, já que o que é mimado não é o mundo exterior mas a vida interior do artista.[4] Gadamer, na sua visão da realidade como “horizonte de possibilidades ainda não decididas”, tem que inverter a tradicional visão platónica da mimesis como cópia da realidade. Para ele, a arte é uma peça: “A acção de um drama (…) não permite nenhuma comparação com a realidade como a secreta medida de toda a similitude copiável.”[5] Assim, “a imitação e a representação não são meramente uma segunda versão, uma cópia, mas um reconhecimento da essência. Porque não são meramente repetição, mas uma instalação, e o espectador é envolvido com elas” (Gadamer, 1960:55). A mimesis, segundo Gadamer, é um sistema de reconhecimento da verdade das ideias através da arte, embora realizado no espectador. Trata-se de uma curiosa mistura de Platão e Aristóteles.




[1] O “boneco de agulhas” do ritual voodoo é talvez um dos melhores exemplos deste mecanismo desejo/receio do toque à distância. Quando alguém desejava fazer mal a outrem bastava fazer uma imagem, na forma de boneco de trapos, espetar-lhes sucessivamente agulhas, e a pessoa em causa, onde quer que estivesse, sentiria a dor da agulha como se estivesse realmente a ser espetada.

[2] O conceito de mimesis que aparece nos Livros III e X de sua obra famosa, República, é considerado o conceito central da concepção platónica de poesia e talvez de sua “estética”.

[3] Auerbach, Eric - Mimesis: la Representation de la realité dans la littérature ocidentale. S.l. : 1997, p.73.

[4] Sobre Lukács e a mimesis deve-se consultar a sua monumental obra Die Eigenart des Asthetischen.

[5] Gadamer, Hans Georg (1960) - Verdad y Método. S.l.: 1977.

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