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CulturaImprimirDicionário critico

Cultura Material

Cláudia Álvares

A cultura material designa os objectos que registam as normas e regras distintivas do ‘modo de vida’ de uma determinada comunidade. Alvo de enfoque por parte do culturalismo, a perspectiva materialista da cultura procura abstrair-se de juízos estéticos valorativos da produção cultural, incidindo antes na análise das linguagens através das quais os grupos sociais reavivam as referências que lhes conferem identidade. Sendo a ideologia definida pelos culturalistas como uma rede conceptual através da qual se processa a experiência vivida, a observação das práticas, instituições e textos produzidos numa sociedade correspondem às formas materiais que permitem reconstituir os ‘modos de vida’ de qualquer época. No entanto, como toda a tradição cultural está sujeita a uma selecção em função dos interesses de momento, qualquer reconstituição do passado implica o reconhecimento de uma distinção entre a ‘estrutura de sentimento’ que caracteriza a época documentada e a forma como esse texto cultural tem vindo a ser utilizado no presente.

Palavras chave: Cultura, modernidade, contemporâneo.

A fusão dos conceitos de cultura e civilização veio dar origem à crença de que a evolução da modernidade bem como o processo de desenvolvimento material subjacente à criação de uma sociedade de massas anónima e amorfa estariam crescentemente a ameaçar a humanidade. As forças impessoais e alegadamente malévolas da normalização, da industrialização e das tecnologias de produção massificada seriam alvo de intensas críticas a partir da década de 1940 por parte de intelectuais que acompanharam o surgimento e a expansão da sociedade de massa. Esses teóricos pertencem à chamada Escola de Frankfurt, herdeira da tradição da kultur germânica que faz equiparar cultura a civilização. Por oposição a uma visão de cultura que focava apenas as manifestações eruditas do pensamento e produção artística humanos, surge a corrente do culturalismo, defensora da cultura como conceito de diferenciação no seio de uma colectividade. A cultura é, nesta perspectiva, uma categoria aplicável à totalidade do pensamento e produção humanos, abstraindo-se da formulação de juízos estéticos valorativos.  

 

A cultura material surge como expressão específica da coerência de comunidades orgânicas, correspondendo a ‘modos de vida’ através dos quais essas comunidades pretendem reavivar as referências que lhes conferem identidade. Na óptica culturalista, a identidade cultural decorre da identificação dos membros de uma determinada comunidade com uma série de símbolos que regista, de modo codificado, normas e regras que são transmitidas de geração em geração.  

 

O culturalismo assenta no modelo marxista de base/superestrutura, introduzindo a cultura na própria base desse modelo. Ao passo que o marxismo clássico reduzia a cultura a uma ‘superestrutura’ da sociedade, isto é, a um produto da base económica e industrial, o culturalismo adoptou um marxismo crítico que explicava a legitimação das relações de poder prevalecentes em resultado de uma multiplicidade de forças culturais, económicas e políticas determinantes, embora competindo e divergindo entre si (Turner, 2000: 24).

 

Segundo a teoria marxista tradicional, a ideologia consiste numa fonte de alienação para as classes trabalhadoras, ao constituir uma espécie de filtro que disfarça as ‘verdadeiras’ relações entre proletariado e mundo envolvente. O objectivo da ideologia seria o de construir uma ‘falsa consciência’ do indivíduo e da sua relação com a história. Dando-se conta de que a adopção de uma abordagem estritamente marxista das formas materiais da cultura seria algo redutora, os culturalistas opuseram-se à ideia de que ao perpetuar os valores de determinada sociedade, os objectos culturais constituiriam um sujeito totalmente dominado e manipulado pelo exterior. O culturalismo vem provocar uma ruptura na definição de ideologia, ao considerar a consciência não como falsa mas antes como uma rede conceptual através da qual se processa a experiência vivida das condições materiais no quotidiano. O conceito de classe social é então definido pelo modo como os homens vivem a sua história, largamente condicionado pelas relações materiais de produção do contexto em que se nasce – ou se ingressa involuntariamente (Thompson, 1968: 15). Tendo em conta que as ideologias populares apenas se tornam ‘tangíveis’ ao observar-se os comportamentos, práticas, instituições e textos inerentes à sociedade, a necessidade de se examinar essas formas materiais torna-se premente para o culturalismo.  

 

A definição de cultura radica em três categorias distintas entre si. O ideal de cultura, que surge em primeiro lugar, equivale ao estudo da perfeição da realização humana em termos de valores absolutos ou universais. O papel da análise cultural, assente neste ideal de cultura, consiste na descoberta e descrição dos valores que podem ser considerados como compondo uma ordem intemporal que fazem permanente referência à condição humana universal. Surgem, de seguida, os textos e práticas da cultura que sobrevivem ao longo dos tempos sob a forma de arquivos documentais. De acordo com essa definição, a cultura equivale à obra intelectual e imaginativa na qual o pensamento e experiência humanos ficam registados ao longo dos tempos. O objectivo da análise cultural, com base nesta definição, é a da avaliação crítica. Tal pode tomar a forma de uma análise semelhante àquela adoptada no respeitante ao ‘ideal’ de cultura: um acto de filtragem crítica até se descobrir o que de melhor se pensou e se produziu no mundo. A análise cultural pode, no entanto, também envolver uma prática menos exaltada: o cultural como objecto crítico de descrição e avaliação interpretativa literária, histórica ou artística. Por último, a cultura pode ser definida socialmente, correspondendo à descrição de um modo de vida particular. Este posicionamento antropológico pressupõe a análise cultural como método de reconstituição de modos de particulares de vida, contribuindo para o esclarecimento dos seus significados e valores implícitos e explícitos.  

 

Ao insistir na cultura como experiência vivida de indivíduos comuns, concretizada na interacção diária com os textos e práticas da vida quotidiana, o culturalismo rompe decisivamente com o elitismo do ideal de ‘cultura’. O conceito culturalista de participação é de cariz democrático, assentando na cultura enquanto projecto comum, isto é, numa comunidade de experiência. A cultura torna-se assim sinónima daquilo que os membros de uma comunidade criam na sua vivência quotidiana. O projecto de uma cultura comum implica um processo de participação permanente na criação de referências e de significados, realçando-se a capacidade de descodificação livre daquilo que foi codificado com um determinado objectivo em mente. Nesta perspectiva, os significados veiculados por qualquer instância de autoridade devem corresponder à vivência concreta dos indivíduos de modo a que estes possam descodificá-los adequadamente. Caso contrário, o cidadão comum acabará por conferir um significado (conceito) diferente do desejado ao significante (imagem acústica ou visual) transmitido pela instância de autoridade. Constata-se assim que a mensagem cultural tem que respeitar o contexto material em que o destinatário se encontra para que surta o efeito pretendido.

 

Ao procurar analisar a organização complexa da cultura como modo de vida, o culturalismo tem como principal finalidade compreender a experiência através da qual se vive/viveu a cultura. Em suma, o seu objectivo é o de reconstituir aquilo a que Raymond Williams chama de ‘estrutura de sentimento’ (1977: 128-35), nomeadamente os valores partilhados por um dado grupo, classe ou comunidade. O termo é usado para descrever uma estrutura discursiva que consiste num cruzamento entre ‘inconsciente colectivo’ cultural e ideologia. Em suma, o culturalismo propõe interpretar a estrutura de sentimento através do registo documental, desde a poesia à arquitectura, passando também pela moda. A importância da cultura documental é a de que, mais do que quaisquer outros elementos, expressa a vida em termos directos, quando as testemunhas vivas permanecem silenciosas.  

 

A situação, no entanto, complica-se devido ao facto de a cultura existir sempre sob três eixos: a cultura vivida de um determinado tempo e local, apenas inteiramente acessível àqueles que vivem nesse contexto; a cultura documental de todos os tipos, desde a arte aos registos quotidianos, correspondendo à cultura de um período; a cultura da tradição selectiva como factor que liga a experiência vivida à história.  

 

A cultura vivida é a experiência cultural dos indivíduos na sua existência quotidiana num local e momento particulares. Aqueles que têm pleno acesso a esta cultura são apenas os que experimentam a sua estrutura de sentimento. Depois do momento histórico se desvanecer, a estrutura de sentimento começa a fragmentar-se. A análise cultural tem acesso a esse tempo e momento através do registo documental da cultura. Mas o próprio registo documental dissipa-se sob os processos de tradição selectiva. Entre uma cultura vivida e a sua reconstituição através da análise cultural, perdem-se muitos detalhes. A selectividade das tradições culturais produz inevitavelmente um registo cultural, uma tradição cultural, assinalada pela rejeição de áreas consideráveis daquilo que já foi cultura vivida. Além de mais, há sempre uma tendência para este processo de selecção se relacionar com interesses de vária ordem predominantes na actualidade, incluindo os da classe dominante.  

 

‘A cultura tradicional de uma sociedade tenderá sempre a corresponder ao sistema de interesses e valores contemporâneos, pois aquela não consiste numa obra absoluta mas numa selecção e interpretação contínuas.’ (Williams, 1961: 69)  

 

Esta ideia tem profundas ramificações para o estudioso da cultura popular. Dado que a selecção se faz invariavelmente à luz de interesses actuais, conclui-se que a relevância do trabalho realizado no passado, em qualquer situação futura, é imprevisível. Se tal for o caso, então pode inferir-se que juízos de valor absolutos relativos ao erudito e popular na cultura   contemporâneadeveriam ser formulados com algum grau de ambivalência. Esta incerteza advém do facto da tradição selectiva se encontrar aberta ao realinhamento histórico num rodopio potencial de contingência histórica. Os culturalistas advogam, assim, uma modalidade de análise cultural consciente de que a tradição cultural não consiste apenas numa selecção mas também numa interpretação. Ao fazer com que um texto ou prática culturais regressem ao seu momento histórico, a análise cultural estabelece uma clara distinção entre a estrutura de sentimento que caracteriza aquela época cultural e a forma como esse texto tem vindo a ser compreendido e utilizado no presente. A análise cultural chama assim a atenção para alternativas históricas à interpretação contemporânea e aos valores actuais sobre os quais aquela assenta. Deste modo, somos capazes de diferenciar toda a estrutura histórica no seio da qual a cultura se expressou e a estrutura contemporânea no seio da qual a cultura é utilizada. Ao trabalhar desta forma, os culturalistas esperam conseguir articular processos culturais reais.  

 

O culturalismo rompe com uma perspectiva elitista da cultura de numerosas formas. Primeiro, a arte surge como qualquer outra actividade humana, igual em valor ‘à produção, comércio, política e família’ (Williams, 1961: 55). Enfatizando a necessidade de um estudo democrático da cultura, os culturalistas distinguem entre culturas de classe média e de classe trabalhadora no respeitante a instituições, maneiras e hábitos de pensamento. Enquanto a cultura de classe média remete para o individualismo, a de classe trabalhadora distingue-se pelo colectivismo.  

 

Na sua génese, o movimento culturalista de inspiração britânica celebrava a cultura popular por oposição à cultura erudita das classes média e superior. No pós-guerra, esse movimento chamou a atenção para a necessidade de se distinguir entre cultura popular e cultura de massa, sendo esta última de influência norte-americana. Preocupados com a falsa identificação de cultura popular e cultura de massa, bem como com o crescente entusiasmo da classe trabalhadora pelos produtos da cultura de massa após a II Guerra Mundial, os culturalistas instigaram uma investigação centrada no modo como as mercadorias culturais, que obedecem à lógica do capitalismo burguês, são utilizadas pelo cidadão comum no seu quotidiano. Os estudos sobre o consumo de bens culturais tiveram como principal objectivo demonstrar que os consumidores dessas mercadorias não são redutíveis aos produtos consumidos, envolvendo-se antes numa luta de classes pela dominação cultural através das suas práticas culturais. Nesta óptica, as mercadorias culturais tornadas disponíveis pelas indústrias da cultura não podem ser confundidas com o seu uso no dia-a-dia. Indo para além da análise filosófica, literária ou artística, os culturalistas examinam as múltiplas linguagens às quais se recorre para conferir sentido à experiência vivida. Os valores de que essas linguagens estão investidas podem ser usados para apoiar e sustentar as estruturas ideológicas existentes.

 

Devido à propensão para questionar os pressupostos deterministas do marxismo clássico, a teoria de António Gramsci viria a tornar-se influente para os culturalistas: a sua análise do conceito de hegemonia permite melhor contextualizar o consumo da cultural material no quotidiano. Embora a estratégia ideológica subjacente à hegemonia seja uma de coerção, persuasão e cooperação, ela opera de modo implícito e conotativo. A hegemonia é o princípio que permite o consentimento tácito através de um consenso popular (Jenks, 1993: 82-3). Os culturalistas preconizam o consentimento como crucial na compreensão das manifestações essencialmente culturais da representação enquanto fenómeno político. De acordo com esta perspectiva, a liderança cultural, ou hegemonia de certas formas culturais sobre outras, funciona não através da dominação mas pelo consentimento obtido por meios persuasivos, entre os quais a educação e literacia massificadas (Said, 1993: 59). Todos os elementos da superestrutura convergem no sentido de exercer uma hegemonia ideológica no seio de uma determinada cultura, desde a religião à jurisprudência, passando também pelos media. Numa sociedade de massa desenvolvida, o centro de poder abarca, através da tecnologia, as periferias de modo cada vez mais abrangente. Mesmo as práticas culturais que alegadamente resistem à incorporação na cultura dominante são muitas vezes postas ao serviço dessa mesma cultura dominante. Importa então desconstruir o modo de funcionamento de práticas culturais alegadamente subversivas de modo a compreender que o poder não se exerce necessariamente de forma linear e sob um eixo vertical, caracterizando-se antes pela disseminação ubíqua.  

 

A idade moderna produz a sua identidade e reproduz os signos dessa mudança através do desenvolvimento das tecnologias de produção. Num tempo anterior à reprodução mecânica, a singularidade, espontaneidade e criatividade de uma obra de arte radicava na sua posse privilegiada por parte do sector da população que, devido à sua posição de classe, tinha acesso a esse consumo. Tal consistiria na ‘aura’ de uma obra de arte. A reprodução mecânica abre assim as portas ao potencial emancipatório dos objectos culturais, sendo que todos os indivíduos passam a ter acesso à arte. A democratização da produção cultural corre, no entanto, o risco de tornar a própria cultura numa mercadoria (Benjamin, 1980 [1936]: 87). A arte tem uma base material na estrutura e organização de uma sociedade, nas suas crenças, os seus meios de produção e a sua organização política. Assim, cada modo de produção cultural acarreta um modo específico de recepção do produto cultural.

 

Se por um lado o culturalismo foca a importância de se contextualizar os bens culturais no seio das condições materiais de produção que lhe deram origem, por outro lado encara a cultura material como prática de resistência ao determinismo de base económica nas suas diversas formas. A mudança surge como parte integrante da tradição selectiva através da qual o legado cultural é assimilado e perpetuado de geração em geração. No entanto, essa transmissão não é imposta, processando-se antes através de um processo de negociação constante que permite às classes dominantes incorporar uma margem de resistência da parte de outros grupos sociais. Autoriza-se assim a reinterpretação de significados canónicos à luz de interesses actuais de modo a assegurar a sobrevivência da cultura material a longo prazo. A célebre afirmação marxista, segundo a qual os homens fazem a sua própria história mas não em circunstâncias que tenham escolhido, é traduzida pelo culturalismo por meio desta tensão entre, por um lado, o reconhecimento da existência concreta de condições materiais de produção e, por outro lado, a capacidade humana de permanentemente as transformar através de uma participação activa nas estruturas hegemónicas vigentes.  

 

Bibliografia

 

Benjamin, Walter – “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica”, (trad. Mª Luz Moita), in Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Lisboa: Relógia d’Água, 1980 (1936), pp. 70-113.

 

Jenks, Chris – “Culture and Materialism”, in Culture. Londres: Routledge, 1993, pp. 66-95.

 

Said, Edward - Culture and Imperialism. Londres: Vintage, 1993.

 

Thompson, E. P.  - The Making of the English Working Class. Harmondsworth: Penguin, 1968.

 

Turner, Graeme - British Cultural Studies. Londres: Routledge, 2000.

 

Williams, Raymond - Marxism and Literature. Oxford: Oxford University Press, 1977.

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