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CulturaImprimirDicionário critico

Modernidade e Risco

Manuel Menezes

Partindo do pressuposto de a arte rupestre se consubstanciar como uma estratégia utilizada pelo humano tendo em vista a elisão dos medos propugnados pela opacidade da natureza, buscar-se-á desenvolver algumas exegeses sobre o modo como no transcurso da modernidade as problemáticas da contingência e do risco têm vindo a ser trabalhadas pelos discursos e práticas nas sociedades ocidentais.

Palavras chave: mito, contemporâneo, técnica.

O receio do desconhecido, do incerto e a insegurança decorrente dos mesmos, produziu, desde sempre, no humano um desejo contínuo de perscrutação e, por conseguinte, de domínio do que o rodeava com o objectivo último de transmutar a sua experiência numa condição segura. Visando, então, minorar os medos decorrentes do «absolutismo da realidade» (Hans Blumenberg) simultaneamente opaco e imprevisível, o ser humano procurou, tanto por intermédio da acção como do discurso, explicar o incompreendido com base em imagens construídas ficcionalmente. Imagens, divindades,
 
mitos que, ao fragmentarem a opacidade, possuíam como intuito último o controlo do existente. Será neste contexto que a arte paleolítica (períodos solutrense e madelenense) do Vale do Côa representa um importante legado visual que nos ajuda a compreender melhor o modo como os nossos antepassados, no mesmo percurso em que se iam distanciando da natureza, lidavam com os perigos e as incertezas mediadoras da experiência que era a deles. No fundo, o medo em relação ao desconhecido e a tentativa de libertação do mesmo, revelando, os intentos de apropriação do espaço, «a vontade arcaica de “dominar” a Terra» (Bragança de Miranda, 2002),vir-se-iam, então, a constituir como a força motriz conducente à perscrutação da experiência, dado o pressuposto de que «do medo o homem presume estar livre, quando não há nada mais de desconhecido» (Theodor Adorno et all, 1947: 29). Em suma, desde sempre, o intento de libertação dos medos conexos com a cólera dos deuses, com o desconhecido, consubstanciou-se como ideia motriz de toda a acção humana.
Ao tomarmos em consideração o modo como, na antiguidade pré-cristã, o incerto era apreendido, constatamos que o futuro, dado se encontrar predeterminado, era passível de ser conhecido por intermédio de estratégias várias de adivinhação que o procuravam antecipar. Consequentemente, existia uma associação entre a predeterminação do destino, do fado e a «influência» passível de ser exercida pela acção humana sobre o mesmo, porquanto, a sua antecipação/profecia através de sortilégios vários (ritos e pinturas mágicas, consulta das intenções das deidades, onirocricia/oniromancia, imolações de animais, deitar sortes, jogo do osso/astrágalo, entre muitos outros), possibilitava a preparação face aos acontecimentos futuros e, a consequente, tomada de decisões visando o «controlo» dos mesmos. No fundo, a profetização do futuro evidenciava um discurso que não só procurava elencar o que iria ocorrer, mas também procurava influenciar essa mesma ocorrência. O que não invalidava, no entanto, que a ocorrência dos acontecimentos fosse fortuita – minorando o papel do homem enquanto agente do acontecer –, porque emergia como resultado da contingência e/ou vontade incerta/cega dos caprichos de Tyché (entre os gregos) e da Fortuna (entre os romanos).
 
 A «instituição» da modernidade permite o vislumbramento de novas atitudes, sentimentos e agenciamentos face à problemática em análise. O desvanecimento da ordem social pré-ordenada divinamente e a consequente «destruição da confiança no mundo por ela produzida, ao propugnar o ultrapassar do limiar epocal, tornou o homem, pela primeira vez, um ser criativo activo, libertando-o de um posicionamento passivo, desastroso, que lhe era próprio» (Hans Blumenberg, 1976: 139). Por outras palavras, na condição moderna, com o progressivo derrube dos fundamentos/dessacralização da vida e, consequente, enfatização da autonomia humana e despertar do humano enquanto agente social, emerge uma construção histórica intra-mundana. O mundo passa a ser um produto da acção e sujeito a esta, e o que anteriormente era predeterminado secretamente, ao converter-se em decisão, é transladado para a responsabilidade do indivíduo. Em última instância, de uma visão onde o mundo era visto como sendo algo adquirido, passa-se para uma outra onde a transformação do mesmo assoma como possibilidade, porquanto a partir do momento em que transmuta a contingência em destino, o humano elide a transcendência enquanto elemento operador do seu futuro, ou seja, «[…] pela primeira vez somos responsáveis pela constituição do mundo e não apenas pela sua gestão» (Bragança de Miranda, 1997: 46-7).

Até agora falámos unicamente em perigos, visto a experiência ante-moderna não poder ser considerada arriscada, quando muito perigosa, porquanto, a passagem do perigo ao risco só foi passível de acontecer por intermédio de uma metamorfose do sistema de representações que no mesmo processo em que subentendeu (i) a autodeterminação humana, evidenciou (ii) a transformação de algo incerto, não mensurável em algo calculável e previsível. Em suma, a noção de risco seria descabida ante um futuro predeterminado ou independente das actividades humanas presentes, pois, o que teria de ocorrer ocorreria, as consequências negativas do destino não poderiam ser evitadas. Deste modo, torna-se clara a ligação estrita existente entre modernidade e a ideia de risco enquanto forma encontrada pelo humano de se relacionar com o futuro. Por outras palavras, as condições desta transição somente se consubstanciaram a partir do momento em que o indivíduo passou a conceber-se como sendo capaz de activamente – rompendo com o passado – influenciar o seu próprio destino, dominar, controlar o espaço e o tempo buscando, em última instância, apropriar-se ou, se preferirmos, «colonizar o futuro» (Anthony Giddens, 1991; François Ewald, 1986; Paris Spink, 2001). Isto é, «a ideia da gestão do risco ocorre apenas quando os indivíduos acreditam ser, até certo ponto, agentes livres» (Peter L. Bernstein, 1996: 34), passando a representar, no seu imaginário social, o futuro como algo passível de ser controlável. Face a uma nova concepção do tempo, as contingências da experiência que, até aí, se encontravam associadas a forças que o homem não dominava ao passarem, gradativamente, a ser encaradas como riscos que o ser humano corria, propugnariam, então, a emergência de uma miríade de tentativas – fátuas! – visando o seu controlo e/ou elisão da incerteza mediadora do mesmo.
 
Intentos fátuos, porquanto, a confiabilidade na fabricação humana (com tudo o que lhe é inerente), não evita a contingência, porque, «quanto mais tentamos colonizar o futuro, maior é a probabilidade de ele nos causar surpresas» (Anthony Giddens, 1995: 76), ou, num outro discurso,«[...] nada acontece com mais frequência que o totalmente inesperado» (Hannah Arendt, 1958: 368). Destarte, a análise dos intentos modernos de ordenação tendo em vista a consubstanciação de um mundo ordeiro e, por isso mesmo, seguro; um mundo, em suma, mediado pelo desejo obsessivo da eliminação da angústia associada a todo o imprevisível, para além de revelar a consubstanciação da ordem como tarefa ou, mais precisamente, como o arquétipo de todas as tarefas tipicamente modernas, permite, igualmente, evidenciar não só os condicionalismos mediadores de tal projecto, como também as consequências adversas associadas ao mesmo (Zygmunt Bauman, 1991). Quer dizer. não obstante a contínua exorcização de todo o ambíguo emergir como sua marca distintiva, a modernidade não conseguiu, no entanto, escapar do medo e da ambivalência que dava azo ao mesmo, visto cada definição e toda e qualquer tentativa de demarcação e ordenação evocar novas possibilidades de ambivalência e novas desordens. À medida que a tarefa moderna de ordenação foi progredindo, assistiu-se, inevitavelmente, a uma produção involuntária de ambiguidade. Logo, o questionamento da modernidade exige que estejamos cônscios da impossibilidade da condição moderna eliminar o medo e o arquétipo que o origina, pois, as racionalidades mediadoras da acção moderna, contrariamente ao seu objectivo primo, em vez de eliminarem as incertezas, os temores face ao contingencial, acabaram por os produzir.
 
O anteriormente referido, torna-se mais claro a partir do momento em que nos damos conta da existência de um paradoxo que atravessa a experiência actual, i.e., uma primeira leitura comparativa entre a experiência dos nossos antepassados e a nossa, parece indiciar que aqueles, em princípio, enfrentavam perigos e preocupações iguais ou maiores do que aquelas por nós experienciadas na actualidade. Podendo-se, portanto, afirmar que uma das dimensões positivas da modernidade (comparativamente a sistemas pré-modernos) é o aumento da segurança relativa em algumas esferas da acção humana(Anthony Giddens, 1990). Mas, será que esta imagem plasma de facto a realidade? A resposta parece ser negativa, porque, não obstante todos os avanços em termos de segurança, paradoxalmente, a partir de finais do século XX assistimos a um aumento bastante significativo dos discursos onde a problemática dos riscos emerge como um dos traços mais salientes das sociedades modernas. É neste contexto que a teoria da «sociedade de risco» (Ulrich Beck, 1986) revela a sua importância, porque, ao dar conta das metamorfoses dos riscos, da transformação da natureza dos mesmos na modernidade tardia, desvela como traços fortes da nossa contemporaneidade não só o aumento profuso dos riscos induzidos pela tecnociência ou, se preferirmos, gerados socialmente e politicamente complexos, mas também, em consequência dos efeitos secundários incontrolados e imprevistos desse processo, a proliferação de uma incerteza ubíqua que concomitantemente: (i) coloca em causa a noção de risco enquanto algo objectivamente calculável e (ii) gera um estado de ansiedade e vigilância perpétuos. Deste modo, em contraponto ao optimismo aventado por Anthony Giddens, pode-se afirmar que os indivíduos «da Idade da Pedra não possuíam a capacidade para aniquilação nuclear e ecológica, e os perigos plasmados pelos demónios ocultos não detinham a mesma dinâmica política característica dos perigos de autodestruição ecológica fabricados pelo homem» (Ulrich Beck, 1999: 35).


Não obstante a sua importância, a teoria da risikogesellschaft não é no entanto, de per si, suficiente para dar conta das incertezas contemporâneas. Dito de outro modo, mau grado a incerteza consubstanciar, desde sempre, um traço da experiência do humano, na modernidade tardia (apropriando-se do espaço anteriormente ocupado pelo mito do progresso e da fé na ciência e tecnologia) ela vai emergir em novos moldes como o resultado (e não apesar) do aumento do conhecimento detido pelo humano, tanto em relação a si próprio como relativamente ao mundo que o rodeia. Ante um cenário desta natureza, a longa tradição ocidental sustentada na crença da possibilidade de mensurar objectivamente os riscos, é plausível de questionamento, assistindo-se, por consequência, a uma complexificação tremenda da questão da segurança. Assim sendo, na experiência actual, quando muito, o risco pode ser utilizado metaforicamente como querendo significar incerteza ou, mais correctamente, Unsicherheit aguda:«termo alemão que funde experiências para as quais outras línguas podem exigir mais palavras – incerteza, insegurança e falta de garantias»: (i) incertezas no respeitante à continuidade e estabilidade futura do indivíduo, (ii) inseguranças conexas com o corpo, o eu e as extensões do mesmo (posses, vizinhança, comunidade); (iii) falta de garantias quanto à posição, títulos e sobrevivência (Zygmunt Bauman, 1999: 13; 2000: 184).
 
Não descurando, então, que a insegurança se consubstancia como uma condição permanente e irredutível da vida, como traço forte do actual estágio da modernidade, a sua menorização e, consequente, subsunção na categoria mais lata de risco volve-se problemática. Quer dizer, dado vivermos num mundo cada vez mais parametrizado pelo descontrolo, na actualidade «a linguagem da “incerteza” [… é] indispensável, e mais adequada que a do “risco”, para falar dos impactos tecnológicos/tecnogénicos e antropogénicos cada vez mais complexos, difusos e permeantes à escala planetária» (Hermínio Martins, 1998: 46). Em jeito de conclusão interessa, então, reforçar o que a actual experiência desvela, i.e., um quadro onde a lógica do risco perdeu terreno ou, quiçá, o nexo, dada a diminuição da segurança, a erosão da eficácia probabilística, a desconfiança crescente nas tecnologias e a profusão de novos medos, ocorrer pari passu com um aumento da incerteza radical (tudo parece cada vez mais perigosamente incerto) a que ninguém pode escapar. Em consequência disso, todo «o nosso trabalho para eliminar o acidente e a contingência é pouco mais que um jogo de azar» (Zygmunt Bauman, 2000: 156), pois, como o mostraram muitos discursos modernos, o que temos por mais certo é a insegurança.
 

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