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CulturaImprimirDicionário critico

Velocidade

Manuel Menezes

Sabendo, por um lado, que a apreensão, conquista e domesticação do espaço constituiu, desde sempre, um objectivo do humano e, por outro, que o wetware necessário à transposição do mesmo evoluiu pouco desde o paleolítico, procurar-se-á sinalizar o modo como, por via do recurso à técnica, a experiência foi sendo acelerada e, em consequência disso, caminhamos para o «desaparecimento» do espaço e do tempo enquanto dimensões tangíveis da vida.

Palavras chave: Lévi-Strauss, cultura, natureza, modernidade e risco

A perscrutação das sociedades arcaicas pode constituir-se como um ponto de partida precioso para a compreensão do modo como, historicamente, o humano se foi relacionando com a experiência. Assim, no que à temática em questão diz respeito, constata-se que durante largos milhares de anos o humano socorreu-se de estratégias antropomórficas (côvado, palmo da mão, pé, polegada…) para medir as distâncias, estratégias essas, plasmadas na asserção do grego Protágoras para quem o «homem era a medida de todas as coisas». Era o tempo em que, de acordo com a dicotomia estabelecida por Claude Lévi-Strauss[1], predominavam as sociedades frias (arcaicas) que, encontrando-se «fora da história» (tão-somente porque ela lhes escapa), se matizavam por um pensamento mítico[2] e mágico onde: (i) a mudança não era valorizada, ou seja, funcionando como um relógio, produziam pouca entropia na medida em que ao retornarem, periodicamente, a um ponto de equilíbrio acabavam por reproduzir de um modo estável e harmonioso as formas herdadas; (ii) a Arte, enquanto expressão da linguagem (signos dos objectos representados) do grupo social, era produzida e consumida colectivamente com o intuito último de criar ordem. Com o gradual afastamento do homem em relação à natureza e o, consequente, caminhar em direcção à cultura, estas viriam a dar lugar às sociedades quentes (modernas) mediadas por um pensamento e conhecimento científicos, sociedades essas, onde, por um lado, as mudanças rápidas e a inovação são enaltecidas, porque, ao se assimilarem a máquinas a vapor, vão produzir a sua energia por intermédio de um constante vaivém entre ordem e desequilíbrio (entropia), i.e., movendo-se «dentro da história», enfatizam, de um modo mais dinâmico o poder e o progresso assente na inovação tecnológica; por outro lado, no respeitante à Arte, esta, dada a sua natureza essencialmente mimética (imagem-espelho do objecto representado), foi «perdendo» a sua dimensão de significação, individualizou-se o seu consumo, passando a ser valorizada a apropriação e a posse dos objectos.
Dito isto, interessa acrescentar que os intentos de controlo/domesticação[3] não só, mas principalmente do Estado moderno, não se coadunavam com os modos subjectivos, incertos de apreensão antropomórficos e, nesse sentido, exigiram a transmutação[4] de um espaço opaco, obscuro, num espaço que, libertado do acidental, pudesse, por um lado, ser medido objectivamente[5] e, por outro, transposto rapidamente. Quer dizer, a conquista e o, consequente, controlo pressupôs, em simultâneo, a objectivação do espaço e a destruição das barreiras, resistências inerentes à sua transposição (alisamento do espaço) por via da diminuição das distâncias. Não descurando que a extensão destas se encontra estritamente dependente da velocidade, facilmente se percebe a necessidade sentida de acelerar o ritmo da experiência, podendo-se, portanto, afirmar que «a modernidade nasceu sob as estrelas da aceleração e da conquista de terras, e essas estrelas formam uma constelação que contém toda a informação sobre o seu carácter, conduta e destino» (Zygmunt Bauman, 2000: 131)[6]. Neste sentido, à medida que os meios de locomoção humanos/animais (wetware) foram cedendo lugar a veículos técnicos cada vez mais velozes (hardware), assistiu-se a uma gradual emancipação do tempo (elemento flexível) em relação ao espaço (elemento rígido), quer dizer, o primeiro foi aniquilando o segundo e, com isso, propugnou uma compressão e o, consequente, encolhimento progressivo do mundo (David Harvey, 1996)[7], ao ponto de se poder asseverar a quase elisão das diferenças entre os espaços selvagem/arcaico e civilizado. Dito de outra forma, à primeira vista, o espaço parece ter perdido a importância anteriormente detida, porquanto a melhoria da performance dos transportes, transmissões e da tele-acção, tem vindo a problematizar a noção de viagem[8], a produzir a menorização da dimensão topográfica. Isto é, com o predomínio do «não-lugar da velocidade» face ao «lugar», «[…] a localização geográfica parece ter perdido definitivamente o seu valor estratégico e, ao contrário, este mesmo valor é atribuído à não localização do vector, de um vector em movimento permanente, pouco importa seja ele aéreo, espacial, submarino ou subterrâneo, contam apenas a velocidade do móvel e a não detectabilidade do seu percurso» (Paul Virilio, 1977: 124)[9].
A aparente diminuição da importância do espaço não nos deve, no entanto, fazer esquecer que a velocidade, dado o acesso à mesma ser diferenciado (um privilégio de alguns), polariza a condição humana. Explicitando, apesar de o «estar em constante movimento» (mesmo se fisicamente parado) se consubstanciar como um traço perene da experiência actual, é igualmente verdade que nem tudo se move à mesma velocidade, bem pelo contrário. Assim, como consequências não desejadas do processo, pode-se referir, por um lado, que o capital, transportando consigo somente a bagagem de mão, viaja leve (mobilidade ilimitada), o trabalho, contudo, permanece fixado, mas já não possui mais a solidez de antigamente (mobilidade restrita). Por outro lado, sabendo, igualmente, que o grau de mobilidade é diferente consoante a posição ocupada pelo indivíduo na estratificação ou, se preferirmos, consoante se é turista, i.e., rico globalizado, ou vagabundo, quer dizer, pobre localizado, facilmente concluímos que a «anulação tecnológica das distâncias», no mesmo processo em que «emancipa certos seres humanos das restrições territoriais», «desnuda o território, no qual outras pessoas continuam sendo confinadas» (Zygmunt Bauman, 1998: 25; cf. 2000).


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[1] Visando esclarecer alguns dos equívocos levantados por esta distinção, segundo Lévi-Strauss «ela não postula, entre as sociedades, uma diferença de natureza, não as coloca em categorias separadas, mas refere-se às atitudes subjectivas que as sociedades adoptam diante da história, às maneiras variáveis com que elas a concebem. Algumas acalentam o sonho de permanecer tais como imaginam ter sido criadas na origem dos tempos. É claro que elas se enganam: essas sociedades não escapam mais da história do que aquelas — como a nossa — a quem não repugna saber-se históricas, encontrando na ideia que têm da história o motor de seu desenvolvimento. Nenhuma sociedade pode, portanto, ser dita absolutamente “fria” ou “quente”. São noções teóricas, e as sociedades concretas deslocam-se no correr do tempo, num sentido ou noutro, sobre um eixo cujos pólos nenhuma delas jamais ocupará» (1998: 108); cf. Lévi-Strauss, Claude – “Lévi-Strauss nos 90, Voltas ao Passado”, in Mana: Estudos de Antropologia Social, vol. 4, n.º 2. Rio de Janeiro, UFRJ, 1998, pp. 107-117.

[2] Sendo apreendidos como máquinas de abolir o tempo, a função primordial dos mitos era a de explicar o mundo físico ou, mais precisamente, explicar os fenómenos inexplicáveis desse mundo. Consubstanciando-se, então, como um elemento fundamental, por via do qual as gerações passadas buscaram enfrentar o misterioso, segundo a acepção de Bernardo Bernardi (1974), os mesmos, indiciando a preponderância da tradição, podem ser apreendidos como narrativas lendárias conexas com as origens (do cosmos, do homem, da cultura). A sua presença perene nas linguagens simbólica e/ou religioso-mágica, medeia a clarificação do inexplicável (dimensão interpretativa) e a elevação das acções humanas (dimensão prática), ou seja, por intermédio da intuição e da acção surge um antropomorfismo onde «a realidade cósmica adquire uma dimensão humana e todas as forças e aspectos intuídos pelo homem assumem semelhanças de seres, animais ou pessoas, numa vida imaginária e fantástica, modelada/influenciada pela vivência humana» (1974: 388-9, sublinhado nosso); cf. Bernardi, Bernardo (1974) - Introdução aos Estudos Etno-Antropológicos (Uomo Cultura Società – Introduzione agli studi etno-antropologici). Lisboa, Edições 70, 1978, p. 450.

[3] Para uma análise do Panóptico, enquanto estratégia de conquista e vigilância do espaço, por um lado, e de disciplinamento do corpo, por outro, cf. Foucault, Michel (1975) - Vigiar e Punir. Nascimento da Prisão, (Surveiller et Punir, Naissance de la Prison), Rio de Janeiro, Editora Vozes, 1993, p. 277.

[4] De notar que os objectivos de controlo pressupõem, de antemão, um espaço plástico, i.e., moldável aos desejos dos controladores. Pressuposto esse que, a posteriori, se revela a maioria das vezes complexo.

[5] Ao recobrir a Terra com uma grelha (cujos primeiros exemplos encontramos nos mapas renascentistas), a Geografia e a Geodesia mais não pretendiam do que medi-la «para a controlar ou apropriar, projectando nela linhas e geodesias, que a tornavam conhecida, sem perigo» (Bragança de Miranda, 2002: 158); cf. Miranda, Bragança de - Teoria da Cultura. Lisboa, Edições Século XXI, 2002, p. 230.

[6] Bauman, Zygmunt (2000) - Modernidade Líquida (Liquid Modernity). Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2001, p. 258.

[7] Harvey, David - Condição Pós Moderna. São Paulo, Loyola, 1996, p. 349.

[8] Interessa notar que com o tempo de viagem reduzido a zero «o que quer que se mova a uma velocidade aproximada à do sinal electrónico é praticamente livre de restrições relacionadas ao território de onde partiu, ao qual se dirige ou que atravessa» (Zygmunt Bauman, 1998: 63); cf. Bauman, Zygmunt (1998) - Globalização: As Consequências Humanas (Globalization: The Human Consequences). Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1999, p. 141.

[9] Virilio, Paul - Velocidade e Política (Vitesse et Polítique). São Paulo, Estação Liberdade, 1997, p. 137.

 

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