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CulturaImprimirDicionário critico

Cibercultura

Jorge Martins Rosa

Que entre técnica e cultura há uma ligação inextricável é algo suficientemente provado, pelo menos desde as investigações levadas a cabo por antropólogos como André Leroi-Gourhan. Menos consensual é afirmar que a actual omnipresença da tecnologia configura uma nova modalidade cultural. «Cibercultura» é o nome que, entre os defensores desta tese, ganhou mais adeptos. Não se fala aqui, porém, de uma tecnologia qualquer: o pressuposto que justifica a aplicação do prefixo «ciber-» à cultura contemporânea é o de que esta é moldada pelas «Tecnologias da Informação e da Comunicação».

Palavras chave: Técnica, cultura, Leroi-Gourhan, contemporâneo.

Que entre técnica e cultura há uma ligação inextricável é algo suficientemente provado, pelo menos desde as investigações levadas a cabo por antropólogos como André Leroi-Gourhan. Menos consensual é afirmar que a actual omnipresença da tecnologia configura uma nova modalidade cultural. «Cibercultura» é o nome que, entre os defensores desta tese, ganhou mais adeptos. Não se fala aqui, porém, de uma tecnologia qualquer: o pressuposto que justifica a aplicação do prefixo «ciber-» à cultura contemporâneo é o de que esta é moldada pelas «Tecnologias da Informação e da Comunicação». Compreende-se por isso que a expressão tenha começado a circular no preciso momento em que essas tecnologias se disseminaram nas sociedades contemporâneas. A Internet ou os telemóveis, que alteraram em poucos anos, e de forma inegável, as formas de interacção social são por isso ilustrações predilectas quando se pretende demonstrar a adequação do termo «cibercultura».

 

Para que identifiquemos as suas características fundamentais, é necessário recuar pelo menos ao momento da moderna adopção da palavra «cibernética» por parte do fundador desta disciplina científica, Norbert Wiener. Só depois, voltando ao presente, se pode averiguar em que medida as tecnologias contemporâneas da comunicação potenciaram tais características.

 

Apesar de formado em matemática e filosofia, Norbert Wiener fez carreira no departamento de engenharia no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston. Das investigações aplicadas aí desenvolvidas, de que resultou o livro que funda a disciplina, Cybernetics, or Control and Communication in the Animal and the Machine, publicado em 1948, Wiener postulou a possibilidade de conceber máquinas que reproduzem um tipo de comportamento até aí considerado exclusivo dos seres vivos: a capacidade para, de forma dinâmica, tenderem para um estado de equilíbrio em resposta ao ambiente. É o caso da manutenção da temperatura corporal, da adaptação da abertura da íris consoante a luminosidade, etc. Segundo Wiener, o segredo para esta «homeostase» reside no facto de, recebidos estímulos por via sensorial, estes serem processados internamente conduzindo a uma acção sobre o exterior e – pormenor da maior importância – se tomar como estímulo subsequente o seu resultado, comparando-o com o objectivo desejado e readaptando atempadamente a acção em caso de desvio. Tal como o piloto duma embarcação (em grego kybernetes, de onde deriva também «governo») corrige a rota apesar dos desvios causados pelos ventos ou pela corrente, também uma máquina poderá ser concebida para que de forma automática – desde que processe os inputs como informação – caminhe para esse estado de equilíbrio.

O elemento-chave é portanto a informação. Como o ilustra a diferença entre «electricidade» e «electrónica», a informação é algo da ordem do imperceptível e, embora precise de matéria ou energia para ser veiculada, a sua função pode ser abstraída do respectivo suporte. Como diria mais tarde o antropólogo da comunicação Gregory Bateson, a informação é uma diferença (local) que, quando devidamente interpretada por parte dum receptor (humano, animal ou maquínico), representa ou produz diferenças (globais) significativas.

 

Não deixa contudo de ser irónico que Wiener, que privilegiava a dimensão contínua e analógica da informação, por fidelidade ao funcionamento do organismo animal, tenha afinal legado o prefixo «ciber-» ao modo complementar de encará-la, isto é, como algo discreto e digital. Esse é o contributo de Claude Shannon, que havia sido seu discípulo: a informação não só pode ser medida como pode, em última análise, ser reduzida a uma unidade fundamental, o bit, que se define como aquilo que reduz a metade a incerteza relativamente a um universo de acontecimentos possíveis. Progressivamente, todo o tipo de fenómenos passou a ser traduzido – melhor será dizer «codificado» – em sequências de bits, de zeros ou uns. Sejam naturais ou artificiais, de tipo contínuo como o som ou a imagem, ou discreto, caso da escrita alfabética ou – descoberta antes impensável – o código genético na molécula de ADN, todos, sem excepção, se prestam a uma transposição para a forma digital.

 

Compreende-se por isso que a «ciber-revolução» coincida com o advento do digital, e, mais concretamente, com a vulgarização do artefacto que serve, na sua essência, para processar todo o tipo de informação numérica: o computador. Lembremos o que afirmava Marshall McLuhan a propósito dos meios técnicos: cada tecnologia é uma extensão de um órgão (sensorial ou motor) humano. Como exemplo, o sílex, o lápis ou o arado modificam e aperfeiçoam as funções da mão ou do braço, e a escrita amplia a visão. Já o computador foi, mesmo quando não passava de um protótipo, tomado como algo que pode substituir o sistema nervoso central, um «cérebro electrónico», ou ao menos (numa interpretação mais modesta) como algo que estende e aperfeiçoa as funções deste órgão. Antes da revolução do computador pessoal, era já possível perceber a sua influência a diversos níveis – social e económico, por exemplo, mas também cultural. Apenas como ilustração, pense-se quão indispensáveis foram para uma economia progressivamente global, nos anos 70 do século XX, os sistemas computorizados e em rede para a reserva de bilhetes de avião. Na década seguinte, vulgarizado o uso pessoal dos computadores e, aproximadamente a meio dos anos 90, o acesso à rede global que é a Internet, emergiu a noção de que este artefacto é o centro em torno do qual orbita um novíssimo tipo de sociedade e de cultura que tem a «informação» e o «conhecimento» como eixos fulcrais.

 

A Internet é, de resto, invariavelmente identificada com a cibercultura, tanto mais quanto daí não cessam de emergir, a uma velocidade crescente, inovações tecnológicas de que resultam consequências a nível cultural. O correio electrónico alterou as formas e os ritmos de comunicação, e os sistemas de mensagens instantâneas aceleraram-na a ponto de a escrita adquirir essa característica que era única do diálogo falado: a possibilidade de comunicar bilateralmente em tempo real. Por sua vez, a world wide web alterou os modos de acesso a todo o tipo de informação, seja ela de carácter noticioso, científico, pedagógico – pense-se por exemplo em algo como a Wikipedia – ou tão-só destinada ao entretenimento. Já neste século, os blogues trouxeram para primeiro plano as potencialidades de publicação através da Internet, obrigando a repensar o direito à liberdade de expressão (mas também, pelas razões contrárias, o direito à privacidade) e a actualizar a noção de espaço público. A um outro nível – tomando-se o indivíduo como receptor, mais do que como produtor –, levantam-se também questões que atravessam os foros jurídico e económico, dado que a livre cópia e troca de todo o tipo de informação (música em formato MP3, por exemplo) põe em causa o modo como classicamente se entendiam o copyright e os direitos de autor.

 

Não se deve contudo confundir Internet – que é sem dúvida a sua face mais visível – com cibercultura. Correndo o risco de simplificar demasiado, pode dizer-se que as «Tecnologias da Informação e da Comunicação» constituem a dimensão concreta e presente da cibercultura, a sua superfície. Debaixo desta oculta-se um imaginário muito mais extenso, à semelhança da relação que Freud estabeleceu entre as nossas dimensões consciente e inconsciente. As versões mais optimistas da Inteligência Artificial, os cyborgs e as bionanotecnologias – próteses (microscópicas no segundo caso) que substituem, reproduzem ou melhoram funções corporais –, a chamada «inteligência colectiva» ou «conectiva» – a ideia de que os computadores em rede podem ser encarados como um ser inteligente (e algum dia consciente, segundo alguns), a de que se poderá fazer uma cópia da nossa mente – consciência e personalidade incluídas – num suporte exclusivamente tecnológico, e outras propostas mais ou menos fantasiosas, inspiradas na literatura de ficção científica, tudo isso integra a cibercultura. O mesmo para outro tipo de realidades já bem presente: os sistemas de posicionamento global (ou GPS), a televigilância, o teletrabalho, a imagiologia médica (a Tomografia Axial Computorizada, por exemplo), ou os já tão comuns cartões Multibanco e as comunicações móveis, na medida em que alteraram as formas de relacionamento entre os indivíduos, e entre estes e a sociedade a que pertencem, são também parte integrante da cibercultura. Se, como é afirmado acima, qualquer técnica, da mais rudimentar à mais sofisticada, tem repercussões sociais e culturais, a cibercultura é, no fim de contas, apenas a mais recente metamorfose de algo tão antigo quanto a própria humanidade: a cultura.

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