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CulturaImprimirDicionário critico

Magia

António Fernando Cascais

A magia compreende sempre e necessariamente ritos mágicos, representações mágicas e agentes, - feiticeiros, xamãs - que os executam. O acto mágico faz-se sempre acompanhar pela recitação de palavras que, nomeadamente nos rituais de cura, atestam o facto da eficácia simbólica. Esta implica a crença colectiva, unânime e indefectível no poder demiúrgico que a palavra ou a imagem têm de fazer e não apenas representar a acção. A intervenção mágica respeita integralmente a lei da mimesis que a impede de infringir o horizonte normativo da ordem cósmica, ela própria regida pela multicausalidade à luz da qual nada acontece por acaso e tudo se relaciona com tudo.

Palavras chave: primitivismo, cultura, sacrifício, técnica, xamanismo, repetição.

A mentalidade científica a que o homem moderno se habituou nos últimos séculos, e que moldou a nossa sensibilidade e a nossa relação com o mundo, dificulta-nos a compreensão do pensamento mágico do homem ancestral. Também ele aspirava a manipular a natureza em função das suas necessidades e desejos, mas é completamente diferente da nossa a maneira como ele pensa e põe em prática essa manipulação. Se alguma comparação é possível entre nós e o “primitivismo” dos nossos antepassados ditos “primitivos”, é a que trata de saber se dispomos de melhores meios para fazer face aos problemas que se nos deparam do que os meios que eles tinham à sua disposição para enfrentar os problemas que eram os deles, o que nos proíbe de concluir que a nossa superioridade técnica não equivale a superioridade cultural.

A magia compreende sempre e necessariamente ritos mágicos, representações mágicas e agentes, - feiticeiros, xamãs - que os executam. O acto mágico nunca é, por assim dizer, silencioso, mas sempre acompanhado pela recitação de palavras, que são em regra os mitos que descrevem acção criadora executada no princípio dos tempos pelos deuses e que o feiticeiro tem de repetir no presente. A recitação do mito visa invocar os poderes sobrenaturais que a magia aspira a reproduzir e sem o concurso das quais ela é ineficaz. Acredita-se que a presença do ser sobrenatural invocado é real - a hierofania - e que é ela que garante a eficácia da acção executada pelo feiticeiro que assim actua como intermediário, hierofante. Em certos casos, nomeadamente nos rituais de cura, a palavra ritual desempenha um papel tão essencial que o antropólogo Claude Lévy-Strauss desenvolveu a partir desse facto a ideia de eficácia simbólica, para a contrapor à eficácia técnica na qual o homem moderno tende a depositar uma confiança exclusiva. No entanto, essa eficácia simbólica implica a crença colectiva, unânime e indefectível no poder da palavra ou da imagem fazerem e não apenas representarem a acção. É assim que se acreditava, por exemplo, no poder de a pintura ou a gravação de cenas de caça propiciar o sucesso de uma caçada real. De resto, uma característica comum da magia é a sua capacidade de teleacção, ou seja, de agir à distância sobre o fenómeno ou a pessoa por ela visada, tanto para lhe fazer bem ou o obter dela, como para a agredir ou inclusive matar. Para o homem mágico, a linguagem não se limita a descrever ou a representar o real; ela é demiúrgica, constitui uma intervenção nele, cria-o e intervém materialmente nele. Essa intervenção obedece, no entanto, à lei da mimesis, que impõe que o ritual mágico repita integralmente e com absoluta fidelidade o gesto criativo original dos deuses invocados nesse momento, o que significa que ele se reveste de um valor prescritivo. Por sua vez, a natureza apresenta-se assim como horizonte normativo da intervenção humana que esta não deve transgredir, sob pena de retaliação pelas forças sobrenaturais ultrajadas e frequentemente aplacadas por meio de sacrifícios expiatórios. A maneira de conceber a natureza, é ela própria mágica: a ordem cósmica é regida pela multicausalidade, à luz da qual nada acontece por acaso e tudo se relaciona com tudo e todos os acontecimentos têm um sentido e uma relevância que ultrapassa cada um deles.

 

 

Bibliografia

 

Lévi-Strauss, Claude - Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996

Mauss, Marcel - Esboço de uma teoria geral da magia. Lisboa: Edições 70, 2000

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