Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

CulturaImprimirDicionário critico

Utensílio

António Fernando Cascais

Para a filosofia, utensílio é tudo aquilo que tem o carácter de ser útil. Para a antropologia, o utensílio constitui uma peça fundamental da cultura material de qualquer sociedade humana. O utensílio nunca foi um mero instrumento inerte e desprovido de sentido, criado pelo homem para satisfazer os seus fins e realizar a sua humanidade. Bem pelo contrário, o utensílio também foi moldando o homem que fomos sendo ao longo dos tempos, assim como, para além disso, sempre esteve ligado à produção de sentido, de tal modo que o homem possui um mundo no qual se encontra imerso, o conjunto dos objectos carregados de sentido. Utilizado para agir sobre os fenómenos naturais de maneira a satisfazer necessidades, o utensílio foi-se transformando de meio técnico no meio-ambiente técnico em que hoje nos encontramos imersos ao ponto de se ter tornado omnipresente.

Palavras chave: técnica, mão, hominização.

Utensílio é tudo aquilo que tem o carácter de ser útil, diz-nos a filosofia que se debruçou sobre o assunto. Para a antropologia, por sua vez, o utensílio constitui uma peça fundamental da cultura material de qualquer sociedade humana. A utilidade do utensílio define-se necessariamente de forma dupla: no plano objectivo, como utilidade com vista a um fim; no plano subjectivo, utilidade para alguém, que, em regra, define a finalidade ou o objectivo a atingir e se serve do utensílio como meio ou instrumento para o conseguir. Nesta medida, facilmente se pensa que o utensílio é destituído de valor em si mesmo, que só se reveste de um valor secundário, que lhe é outorgado por um fim exterior e independente dele e é difícil reconhecer-lhe alguma forma de independência ou autonomia relativamente, quer ao utilizador, quer ao fim por este determinado.
Não é assim, nunca realmente foi assim. O utensílio nunca foi um mero instrumento inerte e dócil, criado pelo homem para satisfazer os seus fins e assim realizar a sua humanidade, embora não deixe em parte de o ser. Bem pelo contrário, o utensílio também foi moldando o homem que fomos sendo ao longo dos tempos, assim como, para além disso, sempre esteve ligado à produção de sentido. Quer isto dizer que o utensílio nunca foi um instrumento inerte e mudo e que o homem possui um mundo no qual se encontra imerso, o conjunto dos objectos carregados de sentido. Segundo Leroi-Gourhan, porventura o autor que mais longe foi no esclarecimento do papel da técnica na evolução que conduziu à espécie Homo Sapiens Sapiens que actualmente somos, o afastamento que se exprime tanto na separação do utensílio relativamente à mão, como na separação da palavra relativamente ao objecto, também se exprime na distanciação que a sociedade assume relativamente ao grupo zoológico. Ainda segundo aquele autor, toda a evolução humana concorre para colocar à margem do homem aquilo que, no resto do mundo animal, corresponde à adaptação específica. Nesta conformidade, o homem fabricante de utensílios é o menos adaptado dos seres vivos, e pode sê-lo precisamente na medida em que adapta a natureza a si. Essa adaptação exprime-se na existência da própria linguagem, sem a qual nos é impossível fazer a experiência de estarmos no mundo que, justamente, nos aparece como fruto da transformação por ela operada no real. A este respeito, Leroi-Gourhan diz-nos que, se o facto material mais flagrante é, sem dúvida, a libertação do utensílio, o certo é que o facto fundamental é a libertação do verbo, como propriedade única de que o homem dispõe, a possibilidade de situar a sua memória à margem de si próprio, no organismo social. Ou seja, se o utensílio exterioriza de algum modo as capacidades humanas, não se limitando a prolongá-las, mas antes se autonomizando delas ao ponto de se ter chegado a utensílios tão sofisticados e autónomos relativamente aos seus utilizadores como é o caso do computador, a linguagem surge como super-utensílio que armazena e processa a memória colectiva indispensável para a construção dos próprios utensílios. É como se o utensílio”falasse” e a linguagem fosse, como efectivamente é, um utensílio fundamental na transformação da natureza em signo e do animal em homem.
Com efeito, sabemos hoje que os utensílios de pedra, a indústria lítica, existia já pelo menos entre os australopitecos, os quais ainda não tinham adquirido de forma definitiva a posição erecta e muito menos acedido à linguagem, tal como a conhecemos nos seres humanos actuais. Ao fabricarem utensílios, os nossos antepassados pré-humanos foram igualmente construídos por eles. Ao fazerem-nos, foram retroactivamente feitos por eles em igual medida. Os hominídeos foram-se transformando nos humanos que hoje somos na exacta medida em que o instrumento, utilizado para agir sobre os fenómenos naturais de maneira a satisfazer necessidades, se foi transformando de meio técnico no meio-ambiente técnico em que hoje nos encontramos imersos ao ponto de se ter tornado omnipresente. Tanto significa que a nossa relação com o real se encontra tecnicamente mediada de uma forma que é impossível contornar ou ignorar.
Verificou-se que algumas espécies animais, nomeadamente de primatas, recorrem ocasionalmente a objectos que recolhem no seu meio (por exemplo pauzinhos) para deles se servirem como utensílios. No entanto, só aparentemente é que se trata de verdadeiros utensílios. Um utensílio só o é se ele próprio for o resultado de uma transformação do objecto natural em função do fim para que é usado; é isto que faz diferir radicalmente o mais tosco coup-de-poing paleolítico do pauzinho de que se servem alguns macacos para capturar na sua toca os insectos que incluem na sua dieta alimentar. O utensílio não só é já artificial em si mesmo, como o seu uso tem por efeito, a prazo, a transformação do meio natural em meio-ambiente artificial. É nesta medida que não podemos opor o corpo humano, como algo de natural, ao utensílio, que seria pura artificialidade, e que o uso de utensílios, de que abundam provas relativas a tempos em que não existiam os seres humanos que hoje somos, não é correlato da nossa humanidade, antes é ela que é inextricável do próprio uso e coextensiva a ele. Por outras palavras, a humanidade do homem que somos é também garantida pela técnica e o utensílio não constitui um mero prolongamento ou uma simples prótese de um homem já inteira e definitivamente constituído antes dele. É certo que o utensílio autonomizou a função relativamente ao corpo, à animalidade, de tal modo que fazemos com recurso a ele aquilo que o nosso corpo nunca teria a capacidade de fazer por si só. É por isso que o utensílio não se limitou a expandir universalmente as capacidades do corpo, antes envolveu este num meio do qual ele doravante passou a depender inteiramente como condição da sua própria sobrevivência. Só nos tornámos independentes da natureza na exacta medida em que nos tornámos dependentes do super-utensílio que é o próprio meio-ambiente técnico. Ele constitui a nossa segunda natureza, ou, para dizer melhor, o nosso nicho ecológico, que criámos por nós mesmos. Eis porque não podemos prescindir dele sem pormos em causa a nossa existência. Isto já o sabiam bem os nossos antepassados do vale do Côa: que não estamos mais libertos das nossas dependências do que eles daquelas que eram as suas. E nisto, descobrimos também, com eles, que somos uma e a mesma humanidade.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved