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CulturaImprimirDicionário critico

Totem e Tabu

Tito Cardoso e Cunha

Entendido de início como a primeira das religiões no tempo, o totemismo veio a constituir objecto privilegiado de estudo nos primórdios da disciplina antropológica. A noção de “tabu” está ao totemismo intimamente ligada na medida em que exprime alguns dos preceitos e interditos que o sistema totémico tende a instituir.

Palavras chave: cultura, tabu, sexualidade, primitivismo, animal.

Totem e Tabu é uma expressão celebrizada por Freud em 1913 no título de um seu livro sobre antropologia que examina as origens da cultura e da civilização.

O termo “totem” remete para o que então se pensava se ruma forma de religião “primitiva” em que se adoravam os antepassados representados no totem.

A palavra “tabu”, de origem polinésia, designa de uma maneira geral, um interdito de origem religiosa ou social - cultural. A proibição do incesto, por exemplo, é um tabu presente universalmente em todas as culturas, embora se actualize de forma diferente em cada uma delas.

Os dois termos estão ligados pelo facto de o interdito do incesto ser determinado pela identidade totémica de cada sujeito, isto é o tabu recai normalmente sobre as pessoas que pertencem ao mesmo totem enquanto grupos de parentesco. Ou seja, como escreve Freud, o totemismo implica sempre a existência de uma “lei contra as relações sexuais entre pessoas do mesmo totem e, consequentemente, contra o seu casamento.”

Ora, o que interessa Freud ao estudar, como ele diz, o “homem pré-histórico” é a semelhança que ele encontra nos comportamentos deste, atestados pela antropologia, e a “psicologia do neurótico”nas sociedades contemporâneas. Ao ponto de pensar poder observar na “vida mental” dos selvagens “um retrato bem conservado de um primitivo estágio do nosso desenvolvimento.”

No tempo de Freud, contemporâneo aliás dos primórdios da disciplina antropológica então nascente, o totemismo era entendido como uma “instituição religiosa” primeiramente observada e estudada entre os aborígenes australianos então descritos como “os selvagens mais atrasados e miseráveis.”

Pensava-se então ser o totemismo um sistema de crenças associadas à divisão das sociedades em grupos de parentesco. O totem, representado as mais das vezes por um animal, mas não necessariamente, era concebido como sendo o antepassado comum o que obrigava os indivíduos a comportamentos de maior respeito e veneração, sobre ele incidindo um forte tabu. Isto é, os indivíduos pertencentes a determinado grupo totémico estavam interditos de caçar ou comer o animal totémico. Este era protegido pelo mais estrito tabu. A pertença a um grupo totémico era também hereditária. Herdava-se pela linha materna ou paterna, consoante os casos.

Há quem queira comparar este sistema totémico com o que se passa hoje em dia, de maneira mais ou menos inconsciente, nos clubes de futebol. Aí também os adeptos se agrupam em busca de uma identidade comum representada emblematicamente na figura de um animal, seja ele um leão, uma águia ou um dragão.

Do mesmo modo que no totemismo, também essa identidade clubístico-totémica tem tendência a passar hereditariamente de geração em geração.

Tal como na violação do interdito do incesto, o sistema totémico prevê as mais severas sanções contra quem violar o tabu sob qualquer forma, nomeadamente, caçando ou comendo o animal totémico. Essas sanções não são necessariamente impostas materialmente pelo grupo. Muitas das vezes é o próprio indivíduo que se vai punir a si mesmo.

Isso pode acontecer, nomeadamente, através do sentimento de culpabilidade que está também relacionado com o que contemporaneamente se chama uma neurose.

Segundo Freud, a força do tabu é directamente proporcional à intensidade do desejo que este contradiz. O tabu existe e intensifica-se precisamente por causa da força do desejo que ele procura contradizer.

Podem é, muitas vezes, essas pulsões contrariadas pelo tabu serem inconscientes não tendo os indivíduos a capacidade de as tornarem presentes ao espírito.

A ambivalência dos sentimentos relativamente ao que é considerado tabu, reflecte-se também nos significados divergentes que a mesma pode ter: por um lado o tabu incide sobre tudo aquilo é “sagrado” ou “consagrado”, por outro invoca o que é “perigoso”, “proibido” ou “impuro.”

Toda esta ambiguidade está presente, por exemplo, nos tabus que recaem sobre a pessoa morta, nem que esta seja um inimigo por excelência.

Frequentemente a pessoa morta é intocável mas o tabu pode também manifestar-se mais indirectamente na interdição de lhe pronunciar o nome.

Nalgumas culturas esse interdito explica-se pelo medo de tornar espírito do morto presente ao invocar o seu nome. Também aqui a ambivalência emocional que está na base do tabu se manifesta. Como escreve Freud, trata-se de “uma hostilidade contra o morto disfarçada de autodefesa.” Ou ainda, “o tabu sobre os mortos surge, como os outros, do contraste existente entre o sofrimento consciente e a satisfação inconsciente pela morte que ocorreu.”

O comportamento psicológico comum ao “selvagem” e ao neurótico – semelhança em que está presente a noção de tabu – reúne-se naquilo a que a psicanálise chama um mecanismo de projecção. O que este termo significa é o facto de o sujeito projectar no outro os sentimentos de hostilidade que ele próprio lhe vota, procurando proteger-se, pelo tabu, dos sentimentos que ao outro atribui. “Projecção de hostilidade inconsciente” lhe chama Freud.

Todas essas atitudes se registam no totemismo em que o principal tabu e a consequente ambivalência incide sobre o animal totémico como figuração do antepassado comum.

Enquanto sistema social, o totemismo era também um modo de regular e classificar o parentesco impondo a interdição do incesto. Esse tabu, pela sua negatividade de interdito, não é mais do que a face negativa de uma norma social cuja vertente positiva é a injunção exogâmica, isto é a obrigação de casar fora do grupo de parentesco totémico.

Os membros de um mesmo totem como que participam de uma substância comum e que lhes advém do antepassado comum, o totem, muitas vezes representado sob a forma de um animal.

São porventura algumas dessas representações que podemos hoje observar nas gravuras de Foz Côa.

A interpretação freudiana do totemismo passa pela hipótese lendária de uma horda primitiva de jovens adultos que ao terem morto e devorado o pai comum, o erigiram em totem, alvo de uma veneração fruto do remorso e que vem a instituir o sentimento de culpa na base de todo o comportamento dito civilizado.

Outros antropólogos, contestando a interpretação freudiana, vêm no totemismo, mais do que uma forma de religião “primitiva”, um complexo sistema de pensamento selvagem dedicado sobretudo à classificação dos grupos e das regras de parentesco que constituem como que a infra-estrutura dessas sociedades.

 

 

Bibliografia

Freud, S. - Totem e Tabu. Vol. XII. Ed. Standard brasileira das obras psicológicas completas. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

Lévi-Strauss, Claude - Totemisme aujourd’hui. Paris: PUF, 1962. 


 
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