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CulturaImprimirDicionário critico

Olhar

António Fernando Cascais

A cultura ocidental é a tal ponto marcada por um privilégio do olhar que se pode falar de ocularcentrismo ocidental e que a ciência moderna veio intensificar com aquilo a que a psicanálise chamou a sua pulsão escópica. Este privilégio do olhar contribui para enviesar o modo como percebemos e representamos as culturas primordiais e as culturas não-ocidentais que nunca o conheceram.

Palavras chave: cultura, cultura visual, magia, xamanismo.

A cultura ocidental é marcada, desde a Grécia clássica, por um privilégio do olhar que se exprime, nomeadamente: em metáforas de uso tão generalizado e de sentido tão imediato como aquela que identifica a verdade com a luz, a tal ponto que se pode falar de um ocularcentrismo ocidental; numa organização da percepção humana que, na época moderna se centrou cada vez mais na visão e que a intensifica, ao mesmo tempo que sujeita a narcose o uso dos outros sentidos; no crescimento exponencial da visualidade e da cultura visual na sequência do desenvolvimento das actuais tecnologias da comunicação que registam e manipulam a imagem e que não fazem mais do que prolongar aquilo que a psicanálise chamou a sua pulsão escópica da ciência moderna. Este privilégio do olhar contribui para enviesar o modo como percebemos e representamos as culturas primordiais e as culturas não-ocidentais que nunca o conheceram.

Marshal McLuhan teve um papel determinante no esclarecimento deste assunto, quando desenvolveu a sua tese segundo a qual é impossível construir uma teoria da mudança cultural sem conhecer as mudanças de relações sensoriais que resultam das diversas exteriorizações dos nossos sentidos, ou seja, a uma mudança no suporte da comunicação (corpo humano, texto impresso, imagem em suporte fotográfico, cinematográfico, etc. e imagem digital), corresponde uma reorganização da percepção humana e a esta, por sua vez, uma mudança cultural geral. Nesta conformidade, as sociedades humanas teriam conhecido três grandes formas culturais, correspondentes a outros tantos suportes da comunicação: a cultura tribal originária, sinestésica e áudio-táctil, assente nas capacidades do corpo humano, entre as quais a fala; a cultura tipográfica e verbo-conceptual que culmina com a tipografia de Gutenberg, mas que já tinha começado a ser preparada pela escrita fonética desde a Grécia antiga, assente numa organização perceptiva concentrada no olhar hiperestesiado, a qual tem como suporte o texto em caracteres impressos; e, enfim, a cultura pós-tipográfica possibilitada pelo surgimento dos media eléctricos e que cria uma nova sinestesia, promovendo ao mesmo tempo a aldeia global e a retribalização das culturas urbanas. McLuhan observou também que a organização perceptiva visual dos povos sem escrita difere grandemente da dos povos habituados a ler textos escritos. Enquanto que aqueles percebem as imagens em mosaico, deslocando horizontalmente o olhar sobre elas, nós “lemos em profundidade” uma imagem visual (texto escrito, fotografia, filme, quadro, etc.), por assim dizer, em planos sucessivos, como uma forma sobre um fundo, com um centro e uma periferia da imagem.

Além de os povos ancestrais não isolarem, de forma especializada, a percepção visual dos demais sentidos, sabe-se igualmente que as suas representações imagéticas, como é o caso das gravuras rupestres do Vale do Côa, se revestiam, por norma, de uma simbologia sagrada e ritual que lhes conferia um sentido excepcional e inacessível aos não iniciados em determinada cultura ou determinada crença mitológica. O homem originário tende a não representar aquilo que simplesmente “vê”, de um ponto de vista que hoje diríamos meramente empírico, antes ele pinta, grava ou representa aquilo em que acredita ou aquilo que viu em sonho ou em estado de transe, eventualmente induzido por substâncias psicotrópicas no quadro de rituais de magia que visam propiciar a experiência mística, ou seja, a comunicação com forças sobrenaturais, como foi possível observar nos xamanes e curandeiros (“medicine-men”) de inúmeras culturas. O mundo assim representado é tanto ou mais real do que a realidade quotidiana profana, pelo que não é invulgar vermos (como acontece com a pesquisa antropológica de campo) estas pessoas dizerem que uma imagem não mostra “nada” se não representar mais do que um facto vulgar da vida quotidiana desprovido de significado sobrenatural.

Para eles, o conteúdo literal de uma imagem é frequentemente, para não dizer invariavelmente, indissociável do seu conteúdo simbólico. Este costuma exprimir-se como clarividência, iluminação ou “visão interior”, muitas vezes só acessíveis a iniciados no xamanismo que, por assim dizer, morreram para a sensibilidade profana tão-só para renascerem com uma nova sensibilidade mística. O olhar do xamã assim metamorfoseado adquire propriedades mágicas que lhe conferem, nomeadamente, o poder de visualizar coisas ocultas ou distantes da sua presença. A posse deste poder, entre outros, é tomada como prova da capacidade xamânica de superação da condição humana e participação na condição dos seres sobrenaturais, deuses e espíritos, sem por isso deixar de existir enquanto ser carnal. A experiência do êxtase é encarada como o estádio máximo que os homens podem atingir neste mundo, como forma de conhecer pelos próprios sentidos a condição original paradisíaca antes da sua queda. No entanto, como o êxtase não permite efectivamente reintegrar a condição primordial no Paraíso, mas tão-só aceder-lhe “em espírito”, frustrando o desejo que o homem tem de participar no sagrado com a totalidade do seu ser, verifica-se assim que a experiência mística da actual humanidade decadente não pode deixar de ser inferior à experiência perceptiva do antepassado primordial, a qual se caracterizava, designadamente, pela omnividência. Neste sentido, ver significaria, em última análise, não contemplar uma verdade, mas participar integralmente no próprio ser daquilo que é visto.

Bibliografia

Eliade, Mircea - Mitos, sonhos e mistérios. Lisboa: Edições 70, 2000

McLuhan, Marshall - La galaxie Gutenberg, 2vols.. Paris: Gallimard, 1977

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