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CulturaImprimirDicionário critico

Caça / Predação

António Machuco

É indiscutível que a actividade da caça, segundo a relação predador/presa é um traço característico de muitas espécies de mamíferos, podendo mesmo presumir-se que uma grande parte sua actividade neuronal consiste no reconhecimento e perseguição de presas. Há algumas décadas, foi também proposta a ideia segundo a qual a caça seria um facto decisivo no processo de hominização: o homem seria essencialmente um animal caçador. Essa hipótese negligencia o facto de a espécie humana ser uma espécie naturalmente omnívora e que, portanto, não podem ter sido necessidade biológicas imediatas que levaram o homem a dedicar-se à caça de outros animais.

Palavras chave: Sacrifício, hominização, animal.

É indiscutível que a actividade da caça, segundo a relação predador/presa é um traço característico de muitas espécies de mamíferos, podendo mesmo presumir-se que uma grande parte sua actividade neuronal consiste no reconhecimento e perseguição de presas. Há algumas décadas, foi também proposta a ideia segundo a qual a caça seria um facto decisivo no processo de hominização: o homem seria essencialmente um animal caçador. Essa hipótese negligencia o facto de a espécie humana ser uma espécie naturalmente omnívora e que, portanto, não podem ter sido necessidade biológicas imediatas que levaram o homem a dedicar-se à caça de outros animais.

Um conjunto de dados paleontológicos vão também contra a hipótese do ‘homem-caçador’. O homo habilis (há cerca de 2 milhões de anos) era vegetariano. Bem mais recentemente, o homem de Neandertal (há cerca de 100 000 anos) tinha ainda uma dieta sobretudo assente em plantas. Também as gravuras rupestres representam animais que em geral não eram fonte de alimentação. A caça deverá portanto ser uma prática humana sistemática relativamente recente. É verdade poder-se argumentar que a caça e o consumo de carne pode ter tido vantagens selectivas, na medida em que favoreceu um aumento da dimensão do cérebro, mas mesmo que esse factor selectivo tenha ocorrido (e hoje tende a pensar-se que o aumento do cérebro decorreu sobretudo devido a interacções sociais), não decorre daí que se tenha desenvolvido a caça com vista à captura e consumo de carne animal. Segundo uma outra hipótese com suporte conceptual e empírico, pode ter sucedido que o homo se tenha alimentado durante muito tempo de carcaças de outros animais mortos, as quais, no entanto, representariam uma parte relativamente pequena da dieta dos caçadores-recolectores.

Perante esses dados, o desenvolvimento da caça nos humanos não deverá ter ficado sobretudo a dever-se a razões utilitárias. A caça é um processo cooperativo que deverá derivar da emergência de formas anteriores de cooperação. De acordo com o cada vez maior reconhecimento da grande importância evolutiva das relações sociais intra-específicas nas espécies animais superiores, é possível que, no homem, a caça se tenha originado na violência que alguns membros das primeiras comunidades primitivas tenham exercido sobre um (ou mesmo vários) outros indivíduos co-específicos. Esse tipo particular de caça, apesar dos seus efeitos negativos e destrutivos, já exigia algum tipo de cooperação. Essa prática poderá ter evoluído para a prática do sacrifício, inicialmente exercida de forma ritualizada sobre outros membros do grupo, ou então sobre um membro de uma outra comunidade relativamente vizinha. Posteriormente, terão sido buscadas vítimas de substituição noutras espécies animais, obrigando a um refinamento cada vez maior das técnicas da caça. A passagem a um regime sistemático de alimentação carnívora terá sido consumada quando as espécies destinadas ao sacrifício foram sendo progressivamente domesticadas. Nesta hipótese, a caça foi um sucedâneo do sacrifício e não constituiu o motor fundamental da hominização. A hipótese recebe alguma confirmação indirecta quando se pensa nos rituais de índole religiosa em que um certo alimento é consumido comunitariamente. Além disso, ainda hoje, a caça levado a cabo pelo homem exibe em certas circunstâncias as características do ritual que terá estado na sua origem.

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