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CulturaImprimirDicionário critico

Animal

António Fernando Cascais

O método da analogia entre as culturas originárias ainda existentes ou que ainda puderam ser observadas pela ciência ocidental moderna possibilita inferências razoáveis sobre o sentido e função do zoomorfismo nos mitos e nos ritos xamânicos e nos mitos das culturas desaparecidas como as dos habitantes do actual Vale do Côa. As sociedades originárias distinguiam claramente entre o princípio sobrenatural incarnado no animal, o “espírito animal”, e o animal como recurso disponível. As imagens religiosas zoomórficas dizem respeito ao primeiro e não ao animal enquanto ser vivo e representavam um atributo sobrenatural cuja intervenção se pretendia propiciar no ritual mágico. A simbologia animal manteve-se na passagem das sociedades recolectoras para as sociedades agrícolas, com as necessárias substituições, antes de ser combatida pelos monoteísmos antropomórficos e antropocêntricos, mas sobreviveu vestigialmente até aos nossos dias.

Palavras chave: natureza, caça, xamanismo

Ao contrário de um hábito de pensamento ainda bastante persistente, e que outrora justificou preconceitos tão populares como científicos, a proximidade entre os nossos antepassados e os fenómenos naturais em geral e a vida animal em particular não fazia de modo algum deles “animalescos”, ou mesmo mais “naturais” na versão idílica daquele preconceito. Desmente-o e ao mesmo tempo é reveladora de outra coisa a omnipresença das representações zoomórficas, de que as gravuras rupestres de Foz Côa constituem uma das máximas ilustrações a nível mundial. O uso de peles, ou de caudas, ou de chifres de animais, que explicam a identificação do homem com o animal, nos ritos do xamanismo que ainda foi possível observar e documentar nas sociedades originárias que sobreviveram até à época contemporânea, podem fornecer-nos indicações fundamentais e muito precisas sobre o sentido do zoomorfismo religioso nas culturas desaparecidas, de modo a podermos interpretar com uma margem de erro aceitável os vestígios por elas deixados.
O método da analogia constitui, de resto, com o indispensável grau de prevenção epistemológica, um dos métodos acreditados na investigação histórica e antropológica. As sociedades originárias distinguiam claramente entre sagrado e profano e, a essa luz, entre o princípio sobrenatural incarnado no animal, o “espírito animal”, e o animal como recurso disponível (fonte de alimento, de matéria-prima, energia motriz, instrumento, etc.) a partir da domesticação. As imagens religiosas zoomórficas dizem respeito ao primeiro e não ao animal enquanto ser vivo e representavam um atributo sobrenatural (a força, a fertilidade, a virtude curativa, a beleza, a astúcia, etc.) cuja intervenção se pretendia propiciar no ritual mágico (o sucesso na caça, a geração de filhos, uma colheita abundante, a obtenção de uma cura, a sedução de um parceiro, a vitória sobre um inimigo, etc.). Enquadrava-se também neste tipo de inteligibilidade o sacrifício propiciatório ou mântico (de adivinhação) de vítimas animais.

A simbologia animal manteve-se na passagem das sociedades recolectoras para as sociedades agrícolas, com as necessárias substituições, antes de ser combatida pelos monoteísmos antropomórficos e antropocêntricos, mas sobreviveu até aos nossos dias de várias maneiras, desde formas já muito ténues e só acessíveis à cultura erudita, como é o caso dos patronímicos, à simbologia religiosa (cordeiro pascal) ou secular (pomba da paz), às qualidades popularmente associadas a animais (“a força do leão”, “a bravura do touro”, “a astúcia da raposa”, a perfídia da serpente…), ou aos qualificativos (coragem leonina, fidelidade canina…). Na tradição clássica de que a cultura ocidental é herdeira directa, a mitologia ilustrava a dependência humana relativamente à ordem da natureza, o que hoje vemos ser retomado na preocupação ambiental e com os direitos dos animais, como condição biológica e não-humana da existência da própria humanidade. Por outro lado, o tema mitológico da metamorfose, designadamente nas metamorfoses de homem em animal e deste em homem, pode ser tomado como ilustrativo da precariedade e da ductilidade da condição humana, actualmente retomada na perspectiva construcionista social a cuja luz o nosso devir-humano se encontra na relação inversa do devir-animal. Isto explica igualmente que a humanização do animal seja, simétrica mas necessariamente, uma animalização do homem (tanto no plano simbólico, com os direitos dos animais, como no plano técnico, com os xenotransplantes ou a engenharia genética com o recurso a material animal geneticamente modificado para terapia génica de indivíduos humanos). Nesta perspectiva, as biotecnociências modernas realizam de algum modo a ambição apropriar qualidades ou atributos animais outrora só possível no plano imaginário.

Bibliografia:

de Fontenay, Elisabeth (2004), Le silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité. Paris: Fayard
Lévêque, Pierre (1996), Animais, deuses e homens. O imaginário das primeiras religiões. Lisboa: Edições 70

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