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CulturaImprimirDicionário critico

Natureza

António Fernando Cascais

Ao contrário da concepção prevalecente desde a revolução científica moderna, a natureza constituía para os povos primitivos o horizonte normativo da intervenção humana que impunha à manipulação técnica dela a estrita obediência à mimesis que repetia arquétipos, sob pena de se sujeitar à justa vingança das forças naturais ultrajadas.
A natureza apresenta-se aos primitivos como dádiva, perante a qual os seres humanos se encontram em dívida que exige retribuição. A ausência de sentido de propriedade sobre ela tinha como contrapartida o temor reverencial ante forças que não dominavam, embora possuíssem um conhecimento empírico sofisticado dos fenómenos naturais. A nossa superioridade técnica sobre os fenómenos naturais não deve iludir-nos quanto a uma pretensa superioridade cultural sobre os primitivos, extintos ou actuais. A medida está em saber se nós dispomos de melhores meios para resolvermos os problemas que enfrentamos do que possuíam eles para fazer face aos problemas que os desafiavam.

Palavras chave: dádiva, técnica, magia, corpo.

A maneira como os nossos antepassados primitivos concebiam a natureza nada tem em comum com aquela que prevalece no Ocidente moderno desde a revolução científica dos séculos XVI a XVIII. A natureza nada tinha de unidimensional: aquilo que hoje entenderíamos por sobrenatural, quer benfazejo (divino), quer maléfico (antinatural e diabólico) misturava-se com quanto na natureza pudesse ser agradável, útil, inofensivo, domesticado. Para todas as sociedades de que pudemos ter conhecimento por observação directa ou indirectamente pelos testemunhos deixados, e presumivelmente para todas as que alguma vez existiram, a natureza constituía o horizonte normativo da intervenção humana, ou seja, impunha limites à sua manipulação por meios técnicos. A técnica era regida pela mimesis, a repetição e a cópia ou imitação, sem alterações, do funcionamento dos fenómenos da natureza, sem nada lhes retirar ou acrescentar, sob pena de se sujeitar à justa vingança das forças naturais ultrajadas. Cada gesto humano relativo a um fenómeno natural, fosse ele o nascimento de uma criança ou uma operação de magia curativa, deveria repetir o gesto de criação desse fenómeno no início dos tempos pelas forças sobrenaturais, exactamente como a sucessão cíclica das estações obedecia ao eterno retorno do génesis, a criação originária. Duplamente explicativas e prescritivas, as mitologias de todos os povos, transmitidas pela tradição oral, posteriormente registadas pela escrita, ao fornecerem arquétipos, impunham modelos a serem seguidos. O ritual cumpria-o mediante a recitação do mito da criação do fenómeno sobre o qual se actuava, de modo a propiciar a intervenção divina sem cujo concurso essa acção permanecia profana e votada ao fracasso. Nisso consistia a hierofania, comum à festa religiosa que não era simples comemoração da criação inicial, mas a própria repetição dela com a presença dos próprios deuses naquele momento e naquele lugar. Muito mais que matéria-prima disponível, tal como ela é entendida na época contemporânea, a natureza apresenta-se aos primitivos como dádiva, perante a qual os seres humanos se encontram em situação de dívida que exige retribuição. Daí a ausência, neles, de sentido de propriedade relativamente aos seus fenómenos (o que não significa que não possuíssem um sentido apurado da territorialidade dos espaços que ocupavam, na habitação e no acesso aos recursos naturais), que tinha como contrapartida o temor reverencial ante forças que não dominavam. Nem por isso eles deixavam de possuir um conhecimento empírico sofisticado dos fenómenos naturais, estreitamente relacionado com a exploração de recursos e o respectivo uso quotidiano na agricultura, na caça, na pesca e na recolecção, na criação de animais, na preparação dos alimentos, no tratamento de doenças e nos cuidados do corpo, no artesanato e na fabricação de utensílios, na guerra e nos rituais religiosos. O nosso domínio técnico da natureza, com que se costuma argumentar uma muito mais pretensa do que real superioridade cultural relativamente aos povos primitivos, extintos ou actuais, não deve constituir medida de comparação entre nós e eles. Tratando-se, ao invés, de saber se nós dispomos de melhores meios para resolvermos os problemas que enfrentamos do que possuíam os primitivos para fazer face aos problemas que os desafiavam, aquela superioridade afigura-se bem mais incerta e questionável. A relatividade cultural nem por isso implica relativismo, a não ser num plano muito abstracto, quanto à equivalência de modos de vida. A realidade histórica ilustra amplamente que nunca fomos mais capazes de nos adaptarmos ao seu modo de vida do que eles ao nosso e que o confronto foi, em regra, catastrófico para as comunidades humanas mais desprovidas do ponto de vista técnico. Eis por que às tentativas mal-sucedidas de assimilação dos grupos primitivos actuais se têm vindo a substituir a restrição de contactos de modo a preservar o que for possível dos modos de vida de outra forma em risco de extinção.

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