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CulturaImprimirDicionário critico

Pedra

José Bragança de Miranda

Nas diferenças que a natureza estabelece por si mesma, a pedra não é dura nem mole, e junto o magma dos vulcões foi líquida e deixou de o ser. A pedra só é dura e durável em confronto com os seres humanos, qu deverão ter visto nela o contrário da fragilidade da carne, que lhes terá dado a ver outras formas de durar que não as orgânicas, mostrando que há outras temporalidades dentro do tempo.

Palavras chave: natureza, utensílio, mito, religião.

Em Foz Côa celebra-se a pedra. Deverá ter impressionado a sua presença massiva, a que se vê e a que se adivinha sob as serranias. Nas diferenças que a naturzea estabelece para si mesma, a pedra não é dura nem mole, e junto do magma dos vulcões foi líquida e deixou de o ser. A pedra só é dura e durável em confronto com os seres humanos, que deverão ter visto nela o contrário da fragilidade da carne, que lhes terá dado a ver outras formas de durar que não as orgânicas, mostrando que há outras temporalidades dentro do tempo.

Tudo o que existe, na natureza ou por construção, pode ser alegorizado, ou usando um termo de Fernando Pessoa, «outrado». O «perfume» serviu para pensar a matéria subtil, o azul do céu para imagem do «paraíso», a opacidade da terra, para pensar o seu outro, a imagem na sua transparência e leveza. A pedra pelos seus atributos foi intensamente trabalhada em todos os sentidos do termo. Serve de artefacto, de utensílio, de protecção, de metáfora e de imagem. Acima de tudo, de imagem da duração quando tem a ver com o tempo, e da opacidade ou dureza, quando tem a ver com o espaço, o que está à mão.

Mas é a sua divisão como imagem que é primordial. Estamos já num momento final quando Aristóteles pode dizer que «existe um Hermes na pedra» (Metafísica), jogando com a presença de algo invisível mas que o artesão pode tornar visível. Ou quando Alberti refere que «a natureza diverte-se a pintar nas pedras rostos de homens». De facto, a matéria produz imagens ou recebe-as, sem ser preciso atentar nas superfícies espelhadas das águas que produzem incessantes imagens. E a pedra é uma excelente suscitadora de imagens, atestadas nos mitos e nas religiões. Se a moldabilidade do barro sugere bem a moleza do orgânico e a disponibilidade para receber a imposição de uma forma ou imagem, as pedras no mito de Deucalião são o modelo de outros homens, mais heróicos, e no mito de Medusa mistura a morte, o olhar petrificante do poder e a necessária astúcia dos mais fracos.

A imagem da pedra determina os seus usos. Antes de mais o seu uso para guardar imagens, e fazer circular em torno delas, outros usos e festas. O traço, a cor, são dois momentos primordiais de encontro dos homens com a pedra. Usá-la significa antes de mais fragmentá-la ou dividi-la. Ir da pedra para as pedras, ou das pedras para a pedra, são dois caminhos opostos, um idealizando, o outro pondo à distância da mão, através do olhar. Entre ambos, desenvolvem-se imagens muito distintas, mitos e lendas, em que as pedras intervêm. Para matar com em Caim ou Abel, para proteger, por exemplo nas cavernas, servindo para ocultar o corpo trémulo da vítima ou o olhar atento do caçador. Temos ainda as pedras que voam, como as lançadas pelos índios contra os conquistadores da América, ou a pedra que dissimula em vão, com o mar debaixo do empedrado, em Maio de 68. Infinitos usos, inúmeras imagens, que a certo momento se cristalizam na vontade tectónica, na mania da construção. Trata-se, disse Georges Bataille (1887-1962), de «impor uma ordem matemática às pedras» e através delas ao mundo. Dessa vitória da matemática e da geometria dão conta as pedras cortadas em blocos para a construção, ou os tijolos, a que os antigos chamavam pedras artificiais, mas acima de tudo os grandes monumentos, como as pirâmides do Egipto onde está inscrita a vontade de imortalidade, ou a muralha da China, essa enorme linha de pedra de onde emanava a vontade do Imperador. Escapando à matemática imposta à pedra, temos os ornamentos, as gárgulas, os arabescos vegetais, as imagens sagradas; nas vizinhanças as pedras nos teatros, na poesia, na literatura. Sempre material para pensar e sonhar.

No momento em que o digital prepondera, a pedra parece ter perdido definitivamente a sua importância, já diminuída entretanto pelo ferro, o betão ou o plástico. Mas na leveza e na rapidez do digital, o inverso da simbólica da pedra, ainda sobrevivem os traços da maneira como a pedra sugeriu as imagens que nos criaram.

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