CulturaImprimirDicionário critico

Transculturalismo

Cláudia Álvares

Por oposição à ênfase do multiculturalismo na coexistência de uma pluralidade de culturas, o transculturalismo distingue-se por realçar a mistura de diversas culturas na contemporaneidade. Enquanto o primeiro conceito estabelece fronteiras de reconhecimento e institucionalização das múltiplas culturas que coexistem entre si, o transculturalismo salienta a fluidez dessas fronteiras. A mudança no discurso público do multiculturalismo para o transculturalismo, do reconhecimento da diferença cultural para o da fusão cultural, assenta numa perspectiva económica liberal de que as práticas de consumo são uma face visível. Tal significa que os consumidores são alvo de práticas de poder cada vez mais subtis dirigidas a obter o seu consentimento e aprovação por uma ordem social neo-liberal crescentemente competitiva.

Palavras chave: multiculturalismo, cultura, contemporâneo, globalização.

Por oposição à ênfase do multiculturalismo na coexistência de uma pluralidade de culturas, o transculturalismo distingue-se por realçar a mistura de diversas culturas na contemporaneidade. Enquanto o primeiro conceito estabelece fronteiras de reconhecimento e institucionalização das múltiplas culturas que coexistem entre si, o transculturalismo salienta a fluidez dessas fronteiras. O transculturalismo caracteriza-se pela compatibilidade com a globalização, na medida em que advoga o comércio livre. Nesta perspectiva, os mais vigorosos proponentes da miscigenação cultural têm sido precisamente as corporações multinacionais. Com efeito, a mudança no discurso público do multiculturalismo para o transculturalismo, do reconhecimento da diferença cultural para o da fusão cultural, assenta numa perspectiva económica liberal de que as práticas de consumo são uma face visível (Kraidy, 2005: 151). Enquanto a tese do imperialismo cultural considera a acção humana como radicando nas estruturas sociais prevalecentes e o multiculturalismo sustenta que aquela está localizada no indivíduo ou na comunidade a que pertence, o transculturalismo aponta a origem da acção em práticas sociais – como o consumo – reprodutoras das estruturas sociais no quotidiano dos indivíduos (Hall, 1981).  

O transculturalismo procura assim ir para além de uma visão estritamente culturalista, ao superar o conceito de cultura como ‘modo de vida particular’ de determinada comunidade. Deixando de constituir uma particularidade, o ‘modo de vida’ do transculturalismo é de cariz globalizado dada a influência de padrões globalmente hegemónicos no que toca às práticas consumistas na actualidade. A cultura de consumo contemporânea tem vindo a pôr em causa as relações tradicionais de género e de classe social, implicando a redefinição do mapa de mobilidade social a uma escala globalizada. Constituem-se assim novos espaços sociais definidos em termos de estatuto, imagem corporal e riqueza, desafiando as categorias identitárias anteriormente existentes. Tal significa que os consumidores são alvo de práticas de poder cada vez mais subtis dirigidas a obter o seu consentimento e aprovação por uma ordem social neo-liberal crescentemente competitiva. Neste contexto de fusão cultural decorrente da influência da cultura de massa, vigoram, porém, novas formas de diferenciação produzidas por processos de violência simbólica que denotam incerteza e ansiedade relativas a questões de identidade e estatuto social (McRobbie, 2005: 148-50).  

O transculturalismo crítico procura apropriar-se do conceito de ‘híbrido’, redefinindo a fusão cultural como uma questão social com implicações humanas, mais do que uma simples questão económica com implicações comerciais. As práticas consumistas, radicando numa economia neo-liberal, representam um ponto de cruzamento híbrido entre os capitais económico, social, cultural e político.

Bibliografia

Hall, Stuart – “Cultural Studies: Two Paradigms”, in Tony Bennett et al. Culture, History and Social Processes. Milton Keynes: The Open University Press, 1981.

Kraidy, Marwan - Hybridity, or The Cultural Logic of Globalization. Philadelphia: Temple University Press, 2005.

McRobbie, Angela - The Uses of Cultural Studies. Londres: Sage, 2005.

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