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CulturaImprimirDicionário critico

Hominização

António Fernando Cascais

A espécie humana é fruto da evolução natural tal como foi descrita por Charles Darwin, apesar de persistentemente contestado pelo criacionismo de matriz religiosa. Das duas únicas espécies Sapiens que se sabe terem existido, o Homo Sapiens Neanderthalensis e o Homo Sapiens Sapiens, só esta última sobrevive actualmente. A hominização é hoje encarada como um processo de “libertações” sucessivas, mas interdependentes. A hominização revela que o devir-humano é um processo que prossegue ainda sempre, e que, tendo principiado por uma bio-evolução, conduziu a uma antropo-evolução e finalmente a uma tecno-evolução que, ao invés de se excluírem umas às outras, se reclamam e integram.

Palavras chave: cultura material, mão, técnica, utensílio.

Que a espécie humana é fruto de uma evolução natural é um facto científico incontestável desde Charles Darwin, apesar de persistentemente desafiado pelo criacionismo. O modo como essa evolução se processou, e continua a processar-se, é que tem sido objecto de algumas controvérsias científicas, à medida que novos campos de investigação científica se vão desenvolvendo e abrangendo áreas até então inexploradas. Com efeito, a lei geral da evolução das espécies por selecção natural foi estabelecida por Darwin, mas os mecanismos íntimos dessa evolução, nas populações e nos indivíduos que as compõem, só foram esclarecidos quando se fez a síntese entre o evolucionismo darwiniano e as leis que regem a hereditariedade, inicialmente estudadas por Gregor Mendel. Essa síntese só foi possível a partir da emergência da biologia molecular, com a concepção do modelo da cadeia de ácido desoxirribonucleico por James Watson e Francis Crick e, de forma definitiva, com a área da imunogenética, na qual Jean Dausset teve um papel seminal, da qual, por sua vez, emergem as investigações actuais de ponta no campo da psiconeuroimunogenética.

A evolução biológica que conduziu à espécie Homo Sapiens Sapiens, que actualmente somos, foi - é - um processo longo, que prossegue ainda e sempre. Os elos dessa cadeia encontram-se hoje estabelecidos, mas aquele que marca a transição decisiva e irreversível entre as espécies hominídeas e o homem actual continua a ser objecto de busca e de controvérsia. A outra pergunta ainda sem resposta é a de que relação poderá ter existido entre os primeiros Sapiens Sapiens e os últimos representantes dos Homo Sapiens Neanderthalensis, ou homens de Neanderthal, que, tendo evoluído de forma independente, comprovadamente tiveram oportunidade de se cruzar, mas sem todavia se saber se os mais recentes eliminaram os mais antigos, acelerando a sua extinção, ou se se fundiram com eles e os assimilaram. De qualquer modo, é um adquirido incontestável que estas foram os dois únicos Sapiens que alguma vez existiram à face da Terra.

A hominização é hoje encarada como um processo de “libertações” sucessivas, mas interdependentes, que acompanharam a aquisição da posição erecta permanente, mas que principiaram muito antes do próprio processo de hominização, desde que, dos animais inferiores aos mamíferos superiores, se assiste à progressiva inversão das proporções entre o condicionamento genético e o condicionamento resultante da aprendizagem, a que se segue o aparecimento da possibilidade de escolha entre as operações simples. Os dados da paleoantropologia permitem crer que a libertação da mão se terá verificado desde os australantropos nos fins da era terciária e que ela se faz acompanhar de uma concomitante indústria lítica que não cessaria de se desenvolver. A progressiva aquisição da marcha erecta possibilita a libertação dos membros superiores da função de locomoção e, por sua vez, a libertação da boca da função preênsil, numa sequência de transformações anatómicas que culmina com o chamado “Homem de Cro-Magnon”, representante primitivo da única espécie Sapiens actualmente presente em todo o globo.


Trata-se, no conjunto, da libertação de uma parte importante das ligações zoológicas, que, a nível do cérebro, se exprimem pela substituição dos territórios motores por zonas de associação que, em vez de orientar o cérebro para uma especialização anatómica e técnica cada vez mais evoluída, como acontece com as outras espécies, abriram ao homem possibilidades de generalização ilimitadas. O cérebro humano tornou-se assim superespecializado na generalização e capacitado para quase todas as acções possíveis. Por sua vez, o utensílio manual surgiu como o instrumento de libertação das restrições genéticas que ligam o utensílio orgânico animal à espécie zoológica. A libertação do utensílio pode constituir o facto material mais flagrante, mas, como diz Leroi-Gourhan, o facto fundamental é na realidade a libertação da linguagem que permite situar a sua memória do homem à margem de si próprio, no organismo social. O afastamento que se exprime na separação do utensílio relativamente à mão e da palavra relativamente ao objecto, é o mesmo que se exprime na distanciação da sociedade assume relativamente ao grupo zoológico. Foi desta maneira que a técnica se começou a libertar das realidades zoológicas e do processo de evolução biológica, ou seja, ainda quando, nos antropídeos, foi criado o primeiro utensílio artificial. A diferença entre as sociedades humanas e as sociedades animais residiria portanto no facto de nestas a inscrição genética dos comportamentos ser imperiosamente dominante, facto que obriga o indivíduo a possuir a totalidade do património de conhecimentos colectivos e obriga a sociedade a evoluir ao ritmo da deriva paleontológica, enquanto que, na passagem às sociedades humanas, se rompe o laço existente entre a espécie e a memória, cuja conservação e transmissão são asseguradas pela linguagem.


Segundo Leroi-Gourhan, o comportamento técnico do homem manifesta-se a três níveis, o nível específico, o nível sócio-técnico e o nível individual. O nível específico encontra-se submetido ao ritmo excessivamente lento da evolução geral das espécies e a inteligência técnica do homem está ligada ao grau de evolução do seu sistema nervoso e à determinação genética das aptidões individuais. No nível sócio-técnico, a inteligência humana forja, à margem dos indivíduos e dos laços específicos, um organismo colectivo cujas propriedades evolutivas são espantosamente rápidas e que acaba por tornar-se tão imperioso para o indivíduo quanto a sujeição zoológica que o faz nascer Homo Sapiens. Enfim, o nível individual do comportamento técnico mostra-nos que a espécie humana apresenta também um carácter único, visto que a aparelhagem cerebral confere ao indivíduo a possibilidade de confrontar situações traduzidas em símbolos, permitindo-lhe emancipar-se simbolicamente dos laços ao mesmo tempo genéticos e sócio-técnicos.

O culminar das transformações músculo-esqueléticas na alteração das posições relativas da faringe e da laringe comparativamente com as demais espécies de primatas (e de que há ainda vestígios nos bebés humanos, que mantêm, como elas, o reflexo de respirar e deglutir ao mesmo tempo, ao contrário dos adultos), está na base do aparelho fonador plenamente desenvolvido, o qual é a condição biológica indispensável da aquisição da linguagem humana. Por sua vez, do ponto de vista evolutivo, esta significa que a memória que conserva as aptidões necessárias à sobrevivência passou definitivamente da memória da espécie que cada indivíduo transporta no seu código genético, ou seja, de um suporte meramente biológico, para a memória colectiva, garantida pelas relações dos indivíduos no seio do seu grupo social, com um suporte simbólico. A existência desta memória é atestada arqueologicamente por uma cultura material cada vez mais sofisticada e pelos claros vestígios da prática da inumação ritual (cerimónias fúnebres necessariamente associadas a crenças e, logo, assentes num sistema simbólico plenamente desenvolvido, isto é, uma forma primitiva de religião), pelo menos desde os homens de Neanderthal.

Pode e deve pois dizer-se que à bio-evolução se sucede uma antropo-evolução. Com efeito, Leroi-Gourhan esclarece que, a partir do Homo Sapiens, a evolução testemunha uma separação cada vez mais acentuada entre o desenvolvimento das transformações do corpo, que permaneceu na escala do tempo geológico, e o desenvolvimento das transformações dos utensílios ligado ao ritmo das sucessivas gerações. Para a sobrevivência da espécie, tornava-se necessária uma acomodação, que não dizia apenas respeito aos hábitos técnicos, mas que, em cada mutação, implicava a reformulação das leis de agrupamento dos indivíduos, a qual só pode efectuar-se por intermédio da simbolicidade. No entanto, se se pode dizer que esta antropo-evolução é regida pela linguagem propriamente humana, o que é certo é que os únicos vestígios das suas fases fósseis são, para além dos vestígios do esqueleto, os restos das actividades técnicas. Tanto leva a concluir que na fase antropológica da evolução, linguagem e técnica são inextricáveis e estreitamente solidárias uma da outra, o que implica que se condicionam reciprocamente sem que uma possa ser tida como exclusiva e unilateral determinante da outra. Elas não são dois factos tipicamente humanos, mas sim dois aspectos de um mesmo fenómeno de hominização. Os vestígios da técnica devem assim ser encarados como testemunhos, e únicos até ao surgimento da escrita, da existência de linguagens que se vão progressivamente distanciando das linguagens animais, ou zoolinguagens, para se transformarem em linguagem humana. Daqui se deve igualmente concluir que as oposições entrecruzadas entre natureza, cultura e técnica, e nomeadamente a exclusão recíproca entre natureza e cultura e a dificuldade a ela conexa de situar a técnica relativamente a cada uma delas.

A bio-evolução abriu pois caminho a uma antropo-evolução na qual a espécie humana se tornou capaz de recorrer aos próprios fenómenos naturais como recursos para transformação da natureza, tanto fora do corpo humano como dele mesmo enquanto natureza. O exemplo da utilização da motricidade natural, começando pela motricidade animal, passando pela eólica e pela hidráulica e terminando com a motricidade das máquinas modernas, mostra como a espécie humana liberta a motricidade do seu corpo, transformando-o a ele no próprio processo, o qual acaba assim por ser um processo simultaneamente biológico e técnico. É nesta medida que os meios técnicos não podem ser considerados como meras extensões ou próteses do corpo humano, dos seus sentidos, dos seus órgãos ou das suas funções. Embora o sejam também (o metal que exterioriza a mão, o vapor que exterioriza o músculo, etc., até ao computador que substitui com incontestável vantagem a capacidade intelectual de cálculo), os meios técnicos transformam profundamente o corpo enquanto medium da auto-percepção do indivíduo e da sua relação com os outros, com o mundo. A técnica vem deste modo substituir-se ao corpo fisiológico como um organismo externo que, em retorno, se inscreve nele e é incorporada por ele. Leroi-Gourhan chega a afirmar a este propósito que é como se a humanidade mudasse um pouco de espécie cada vez que simultaneamente muda de utensílios e de instituições.

Se o processo de hominização se inscreve etapa por etapa no corpo dos indivíduos que compõem as populações da espécie, nos nossos dias ele parece todavia estar a tornar-se obsoleto, a manter as necessidades arcaicas que constituíram o motor de toda a sua ascensão, quando já se projectou em exteriorizações bio- e info- tecnológicas em cujo sistema o indivíduo desempenha progressivamente o papel de célula especializada, e mesmo assim nem sempre. Como se o homem “de carne e osso” estivesse em vias de tornar definitivamente um autêntico fóssil vivo, imóvel na escala histórica, perfeitamente adaptado ao tempo em que triunfava do mamute, mas já ultrapassado no tempo em que os seus músculos impeliam as trirremes, como diz Leroi-Gourhan. Essa obsolescência não deixa porém de ter muito de ilusório e as réplicas ciborgues, andróides e robóticas do corpo humano devem mais à ficção científica do que ao rumo das efectivas possibilidades tecnocientíficas contemporâneas.


A omnipresença da técnica no mundo contemporâneo, com as possibilidades de transformação generalizada dos fenómenos naturais e do meio ambiente, de manipulação do corpo humano e de construção de formas de vida, alçou a evolução a um novo patamar, a que Gilbert Hottois chamou tecno-evolução. Atento à lição de Leroi-Gourhan, Hottois não opõe a tecno-evolução à bio-evolução e à antropo-evolução, que o mesmo é dizer, a técnica à biologia e à cultura. Com efeito, a espécie que somos é, em tensão mas integradamente, biológica, simbólica e tecnológica, sem que nenhuma possa doravante ser tida como garantia absoluta da humanidade dos homens que somos, ou antes, que nos fazemos hoje como sempre se fizeram as gerações que nos antecederam. O devir-humano não precisou de esperar pela era da técnica moderna para se confrontar, de forma decisiva, com o perigo da inumanidade, isto, é, de, na persecução das possibilidades de sermos humanos (com as etnias, os géneros, as formas de vida, as línguas e as culturas, as pertenças a épocas históricas e a espaços geográficos, etc.), nos encontrarmos sempre na iminência de cairmos em possibilidades indesejáveis e inumanas. Nem sempre fomos o que hoje somos e devemos ter por adquirido que a mudança que nos trouxe até aqui é algo que prossegue. Nunca houve uma humanidade natural, cultural e técnica desde sempre e para sempre igual a si própria e que se possa conservar para sempre imutável, ainda que não se possa senão em larga medida especular sobre os traços característicos do que poderá vir a ser uma pós-humanidade. Neste sentido, perguntar pelo futuro da humanidade que somos, tem de passar pela abertura a possibilidades de nos fazermos que são ao mesmo tempo biológicas, simbólicas e técnicas, sem que uma possa unilateralmente impor-se às outras ou tolhê-las no contributo que cada uma dá para a integração com as outras.

 

 


Bibliografia

Hottois, Gilbert - O paradigma bioético. Lisboa: Edições Salamandra, 1992

Leroi-Gourhan, André - O gesto e a palavra, 1 - Técnica e linguagem. Lisboa: Edições 70, 1990

Leroi-Gourhan, André - O gesto e a palavra, 2 - Memória e ritmos. Lisboa: Edições 70, 1990

Leroi-Gourhan, André - Evolução e técnicas, 1 - O homem e a matéria. Lisboa: Edições 70, 1984

Leroi-Gourhan, André - Evolução e técnicas, 2 - O meio e as técnicas. Lisboa: Edições 70, 1984

 

 

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