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ArteImprimirDicionário critico

O Fim da Arte

Domingo Hernández Sánchez

A tese do “fim da arte” foi apresentada por G. W. F. Hegel com vista a distinguir o estatuto da arte na época clássica e a sua função na modernidade. Na Idade Moderna, a arte teria perdido o lugar privilegiado que ocupava nas sociedades gregas e orientais, tornando-se assim numa “coisa do passado”. A ideia de Hegel foi sendo cada vez mais mal entendida, mas, além disso, também foi adquirindo novos sentidos. Se as vanguardas se apresentam como uma crítica da arte anterior, as neo-vanguardas, especialmente a arte conceptual, possuem o sentido de uma auto-consciência, de uma reflexão da arte sobre si própria, o que Hegel também havia anunciado. Na actualidade, embora esta ideia tenha sido recuperada por filósofos como Arthur Danto, com vista a dar conta do fim de uma história progressiva da arte, talvez a melhor versão da tese hegeliana se encontre expressa nas dificuldades sentidas pela própria arte para escapar ao esteticismo que nos assola.

Palavras chave: Experiência estética , história da arte, arte contemporânea

Em inícios do século XIX, por ocasião das suas lições sobre Estética, em Berlim, o filósofo alemão G. W. F. Hegel enunciou a tese do “fim da arte” ou, para ser mais exacto, do “carácter passado da arte”. Com efeito, Hegel mencionou apenas a fórmula já clássica do “fim da arte” em sentido literal e não a sua posterior versão mais confusa – e todavia mais propagada – da “morte da arte”. É claro que o autor não procurava, de modo nenhum, afirmar a autodestruição da arte ou o aniquilamento das práticas artísticas. Hegel pretendia unicamente distinguir entre o significado da arte no mundo moderno e o significado que esta tivera no mundo grego e oriental, contextos nos quais a arte constituía um modelo imediato de orientação, intimamente unida ao mito, à religião e à filosofia e, por isso, fundamental na sua coesão política e social. Segundo Hegel, é essa caracterização da arte que teria chegado ao fim.
Para Hegel, na época moderna, a razão científica e iluminista já não pode conferir à arte esse valor, que foi transferido para a religião, a ciência e a filosofia. Nesse sentido, “a determinação suprema da arte é, no seu todo, algo passado”, dado que “a representação peculiar da arte já não tem para nós a imediatez que tinha no tempo do seu apogeu supremo”. Assim, “o ponto de vista daquela cultura onde a arte adquire um interesse essencial já não é o nosso […]; a representação, a reflexão ou o pensamento são agora preponderantes e por isso a nossa época está principalmente orientada para as reflexões e o pensamento sobre a arte”1]. Destas ideias decorrem duas consequências principais. A primeira prende-se com o enorme conjunto de possibilidades que se abrem à arte no futuro pois, justamente por esta abandonar o seu lugar preponderante na vida social e espiritual, torna-se possível que o artista passe a adoptar qualquer estilo e conteúdo, tanto no que diz respeito aos temas como à sua configuração. A segunda consequência prende-se com a necessidade de uma reflexão sobre o lugar e a condição da arte, isto é, sobre as possibilidades expressivas das práticas artísticas e, em geral, sobre a função e o sentido da arte após o abandono do pedestal que ocupara na Antiguidade Clássica.
É importante ter em conta que Hegel apresenta ideias que surgem no seu contexto epocal de forma algo distinta do que ele as enuncia. Isto é, enuncia-as filosoficamente sem ser o seu criador. Assim, a tese do “fim da arte” deve ser entendida no contexto da consciência geral de fim de um período, entendido de forma global: crise do Antigo Regime, desilusão em relação ao utopismo revolucionário e desconfiança perante o subjectivismo romântico e o classicismo já ultrapassado próprio da aetas goethiana. Analisado neste sentido geral, o “fim da arte” hegeliano não está longe da afirmação feita por Stendhal, em sua obra Souvenirs d’Égotisme, começada em 1832: “morreu o génio poético, mas veio ao mundo o génio da suspeita”.
Situar a tese do “fim da arte” neste contexto permite, por sua vez, detectar as duas vias, a filosófica e a artística, que dela decorrem na segunda metade do século XIX e na primeira parte do século XX. Por um lado, permite entender o “fim da arte” na sua relação com a “morte de Deus” nietzschiana, com a “superação da metafísica”, proposta por Heidegger, e, em geral, com as filosofias da suspeita. Por outro lado, permite também compreender a sua assimilação por parte das vanguardas clássicas, uma vez que as constantes alusões à morte dos pressupostos clássicos implicariam também uma ambígua recepção do “fim da arte” hegeliano, seja através da dissolução da arte na vida ou na produção, seja mediante a negação global da arte, ao modo de Duchamp ou de Rimbaud.
Poderia afirmar-se, então que, em certo sentido e modificando-se os contextos, as vanguardas históricas assumiriam o significado do “carácter passado da arte” que Hegel apresentara, assim como testemunhariam, desta vez de modo explícito, a acumulação de possibilidades que se abrem ao artista. Será necessário esperar até à década de sessenta do século XX, e sobretudo até à arte conceptual, para que o “fim da arte” volte a emergir no sentido de uma auto-consciência e de uma reflexão da arte sobre si própria. Em várias ocasiões tem sido defendido que a arte conceptual é a metalinguagem já desde antes exigida, a neo-vanguarda que as vanguardas históricas já anunciavam ao prever o seu próprio fim e assim, desta forma, também a tese do “fim da arte” adquire sentidos diferentes.
Em 1969, Joseph Kosuth afirmava que “actualmente, ser artista significa interrogar-se acerca da natureza da arte”[2]. Ainda que a ideia de Kosuth se apresente de um modo que ele designa como a revelação do significado tautológico da arte – as obras de arte constituiriam proposições analíticas que não acrescentariam informações sobre nenhum facto, actuando antes como comentários internos no contexto da própria arte –, a partir da década de oitenta do século XX, ela foi recuperada pelo filósofo Arthur Danto com vista a sublinhar o carácter pós-histórico da arte. De acordo com Danto, o “fim da arte” designaria a impossibilidade das grandes narrativas da historiografia artística, impossibilidade causada por se ter chegado a um momento de pluralismo estético e ausência de regras. Mais interessante ainda do que a ideia de Danto será entender a tese do “fim da arte” na sua versão contemporânea como uma possível recaída num esteticismo que dissolve a singularidade artística e a supera numa estetização geral da existência. Também se pode encontrar a origem de tal ideia na arte conceptual dos anos sessenta. Recorde-se, por exemplo, o ambíguo slogan lançado pelos canadianos da N.E. Thing Company: Art is All Over. [Este slogan pode ser traduzido como: “A arte acabou”, mas também como: “A arte está em todo o lado”.]
Seja em que sentido for, o resultado que decorre deste slogan prende-se com a necessidade que a arte possui de assumir os diferentes aspectos dos seus finais. Adorno afirmava que “a arte podia ter como seu conteúdo a sua própria transitoriedade”[4]. É nessa “transitoriedade” que se situaria qualquer uma das suas mortes particulares, seja a nível histórico, teórico ou prático, mas sobretudo o facto de, como afirmava Félix de Azúa, “do mesmo modo que um ser humano não é plenamente humano se não concebe e assume a sua própria morte, também a Arte estar a assumir o seu acabamento”[5]. É sem sombra de dúvidas nessa necessidade de assimilar reflexivamente os seus finais múltiplos e abertos que se encontra o melhor legado da tese hegeliana do “fim da arte”.

 Tradução por Rui Lopo


[1] G. W. F. Hegel, Filosofia da Arte ou Estética. Verão de 1826, Edição bilingue. Ed. A. Gethmann-Siefert e B. Colleberg-Plotnikov. Tradução de Domingo Hernández Sánchez, Madrid, Abada Editores /UAM Ediciones, 2006, pp 61-63.
[2] Joseph Kosuth, «Arte y filosofía, I y II», incluído em Gregory Battcock (ed.), La Idea como Arte. Documentos sobre el Arte Conceptual. Tradução de F. Parcerisas. Barcelona, Gustavo Gili, 1977, p. 66.

[3] Consulte-se, por exemplo, de Arthur Danto, Después del Fin del Arte. El Arte Contemporáneo y el Linde de la Historia. Trad. E. Neerman. Barcelona. Paidós, 1999.

[4] Theodor W. Adorno, Teoría Estética. Trad. F. Riaza. Madrid, Taurus, 1980, p. 12.

[5] Félix de Azúa, «Yo diría que...», Archipiélago, nº 41 (De la Muerte del Arte y otras Artes), 2000, p. 22.

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