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ArteImprimirDicionário critico

Arte da Pré-história

António Martinho Baptista

Por definição, as artes da Pré-história abrangem o mais longo período da história da humanidade, que, mais por comodidade metodológica, se faz terminar com o advento da Antiguidade Clássica em diferentes regiões do Mediterrâneo Oriental e no Oriente próximo e a disseminação da escrita, que é um fenómeno que se processa no tempo longo e em sítios e momentos muito afastados geográfica e temporalmente.
Palavras-chave: razão gráfica, código , hominização, caça, gravura, pintura, escultura, ritmo, primitivismo, caverna, pensamento simbólico

Na Península Ibérica há evidências de escrita muito antes da conquista romana, mas toma-se o final da Idade do Bronze, e mais concretamente a Idade do Ferro, como o tempo longo da transição proto-histórica (sensu latu ao longo do 1º milénio a.C.) para as sociedades ditas históricas, cuja sedimentação a ocupação romana e depois a difusão do cristianismo se encarregarão de converter.
 E se a produção de arte não é essencial para assegurar a subsistência da espécie, é-o enquanto elemento que nos distingue de todas as outras espécies que viveram ou vivem no planeta. Já que, porque toda a arte é comunicação, a produção da arte deve ter em princípio um produtor e um receptor. E isto pressupõe um mínimo de organização social e uma qualquer forma de contrato social. Antes da invenção e difusão da escrita, a arte rupestre pré-histórica e a sua codificação simbólica, reflexo do conhecimento primordial, são pois o mais importante testemunho da mais antiga história intelectual da humanidade.
Logo desde o aparecimento do Homo sapiens, há mais de 100.000 anos, a motivação artística que nasce da invenção de mundos simbólicos, é uma evidência, discutindo-se ainda se o Neandertalense (um verdadeiro sapiens) teria ele também sido um produtor de arte. Não há qualquer prova arqueológica na cultura material que o sustente, embora a presença de ocre em sepulturas Neandertalenses, um formalismo estético (como a sua pretensa colecta de objectos belos ou com formas sugestivamente belas), sugira uma relação entre o fenómeno da morte e o aparecimento das primeiras formas de religião e consequentemente de arte.

O ordenamento académico da arte pré-histórica convencionou separar dois longos momentos na história da arte pré-histórica: a arte dos tempos paleolíticos ou arte glaciar, que termina (pelo menos em parte da Europa) com o fim do Würm e o gradual reaquecimento climático que se processa mais ou menos há 10.000 anos (a Pré-história Antiga); e a arte pós-paleolítica, ou arte dos tempos holocénicos, que se prolongará até ao advento das civilizações clássicas (a Pré-história Recente, pelo menos até à Proto-história). Claro que em diferentes regiões do mundo estas classificações têm datas muito fluidas e diferenciadas. Assim, enquanto na Europa o fim do Würm assinala o final da Idade da Pedra ou Pré-história Antiga, na Austrália este período prolonga-se até ao século XVIII, até à chegada dos primeiros colonizadores brancos. Aliás, os actuais aborígenes australianos são ainda hoje produtores de arte rupestre à maneira pré-histórica.
Emmanuel Anati considera, com alguma propriedade, que a arte pré-histórica pode ser dividida em quatro grandes categorias referenciadas quer aos estádios de desenvolvimento social, quer aos padrões estilísticos desta simbólica primordial: a dos caçadores arcaicos, que vai do Aurignacense ao Epipaleolítico (± até cerca de 12.000 BP), ou seja todo o Paleolítico superior e os últimos tempos da transição tardi-glaciar, e que é caracterizada por uma grande uniformidade estilística que só no Magdalenense se diferencia verdadeiramente; a dos caçadores evoluídos dos inícios do Holoceno; a dos pastores e agricultores do Neolítico e Calcolítico; e finalmente a arte das sociedades de economia complexa, ou seja das civilizações metalurgistas.
As diferentes formas de criação de arte na Pré-história  são de vários tipos e sobre vários suportes: a gravura e a pintura sobre superfícies rochosas - arte rupestre e arte parietal - são as mais comuns ou, pelo menos, as que melhor resistiram ao passar dos milénios. Mas o homem pré-histórico privilegiou também a escultura, quer em pedra, quer em osso, corno, marfim ou madeira, podendo imaginar-se também outras formas de arte seguramente perdidas para sempre, como os sons ritmados (terá havido uma linguagem primordial?) e os desenhos em materiais mais rapidamente perecíveis (areia, peles de animais, fibras vegetais, etc.). Entre as peças escultóricas mais antigas, são bem conhecidas as chamadas Vénus paleolíticas, normalmente de pequenas dimensões, e que são estatuetas femininas de formas intencionalmente avantajadas - onde alguns procuram ver evidências de cultos de fecundidade - normalmente atribuíveis ao Gravettense, em pedra, osso ou marfim (as de madeira terão desaparecido, como grande parte da arte pré-histórica que deve ter sido produzida em madeira e noutros materiais perecíveis como o são os suportes orgânicos). O homem decorava também o próprio corpo com tatuagens, como o parece demonstrar a Etnografia comparada com os impropriamente chamados "primitivos actuais" onde é um fenómeno comum, ou a presença de tatuagens no corpo mumificado do homem do gelo no glaciar alpino de Häuslabioch.
É no Paleolítico superior, há mais de 40.000 anos, que as primeiras evidências artísticas aparecem e se desenvolvem como uma verdadeira actividade criadora, mas cujas motivações são (e sê-lo-ão sempre) objecto de acaloradas discussões académicas. Desde a arte lúdica que nasce por exemplo da observação da própria imagem de um qualquer ser reflectido na água, até à imagem que cada indivíduo faz de si próprio e de todos e qualquer um dos que o rodeiam e a partir de cuja síntese gráfica se poderá transmitir uma ideia, um conceito e logo depois uma narração; até à arte funcional, seja ela de cariz religioso ou de marca de territorialidade ou de ordenamento social, a arte envolve a partir de certo momento toda a existência das sociedades pré-históricas. Arte pela Arte (Ars Gratia Artis), arte fetichista ou mágico-religiosa, arte xamânica ou ordenadora de espaços sagrados ou sacralizados ou territórios étnicos, de clã ou de caça, tudo é possível. De qualquer forma parece poder afirmar-se que estes tipos de arte devem ter desde sempre um valor polissémico.
A arte paleolítica deve encontrar-se disseminada um pouco por todo o mundo (da Austrália ao Velho Mundo) colonizado pelos Cro-Magnons, eventualmente saídos de um ramo africano dos primeiros Sapiens. Mas é na Europa Ocidental durante o longo final do Würm que floresce um dos mais originais e temporalmente maiores ciclos artísticos da história da humanidade. A descoberta das primeiras peças de arte móvel ainda na primeira metade do século XIX [osso com duas cervas gravadas da gruta de Chaffaud (Vienne, França) descoberto em 1834 e outras, então atribuídas aos míticos Celtas] e logo depois da arte parietal de Altamira em 1879 e outras grutas decoradas da região Franco-Cantábrica contribuíram para que se considerasse a arte paleolítica como uma arte das cavernas. Quer porque era aí que o homem se resguardaria da longa noite glaciar, quer porque essas mesmas cavernas teriam as condições que permitiram a sua boa conservação atravessando incólumes milénios de história e perturbações, resistindo à erosão, a arte das cavernas tornou-se um estereótipo que só o final do século XX viria a alterar em especial a partir da descoberta da arte do Vale do Côa. De uma arte das trevas e das sombras, o Vale do Côa transforma a arte paleolítica numa arte da luz e do ar livre. Para além do Vale do Côa, é na Península Ibérica que hoje se conhecem os melhores exemplos dessa arte das origens ao ar livre (Siega Verde, Vale do Sabor, Domingo Garcia, Vale do Guadiana, etc.).
Sendo essencialmente uma arte típica de sociedades de caçadores, ela é fundamentalmente zoomórfica nos seus tipos figurados. E o seu estilo de eleição, que atravessa milénios é, a uma primeira impressão, naturalista praticamente desde os seus primórdios. Mas esta classificação é ilusória, pois se as formas animais nos parecem tantas vezes obedecer a um desenho de linhas padronizadas, por outro lado elas coabitam com um vasto leque de figuras abstractas e geométricas, signos de significado mais obscuro, mas que no seu todo terão contribuído para que a narração tenha um sentido, um ordenamento, uma estruturação que envolve a caverna no seu todo, mas também o rio e as suas margens e encostas.
Em paralelo com o estilo, o conceito de cena na arte paleolítica pode ser aproximado ao de algumas correntes artísticas dos nossos tempos. Aparentemente as figuras surgem como que sem planos definidos e lançadas ao acaso nas paredes das cavernas ou nos painéis de xisto do vales fluviais como no Côa, mas tal não deve ser assim entendido, já que há um evidente sentido de associação/dissociação entre muitos destes motivos, alguns jogando também com a topografia dos relevos e das superfícies dos suportes e penetrando a própria geomorfologia ambiente. Grande parte da arte paleolítica é, pois, uma arte estruturada, mas cujo significante muito dificilmente poderá passar do campo das hipóteses, como afirmava André Leroi-Gourhan.
O que espanta nos padrões mais naturalistas e não só da arte paleolítica é a sua grande uniformidade tipológica e mesmo estética (parece haver uma constância nos cânones da simbólica primordial, como refere Anati) por toda a Europa paleolítica e mesmo em outros locais pelo mundo onde até agora se têm encontrado evidências artísticas deste período. Mas ao mesmo tempo, como se os artistas fossem verdadeiros iniciados na arte do desenho e da pintura, mestres de uma canónica escola intemporal. Sendo a arte neste caso o mais integrador dos elementos da história intelectual destas sociedades arcaicas.
A aceitarem-se as datações das mais antigas pinturas da excepcional gruta Chauvet (anteriores a 32.000 BP), a evolução da arte paleolítica não caminha propriamente da abstracção para o naturalismo, correndo antes estas duas correntes a par. Com efeito, a arte figurativa e a arte abstracta desenvolvem-se em paralelo, ambas elementos constituintes da invenção dos mundos simbólicos dos primeiros Sapiens. E no final do Paleolítico, nomeadamente a partir do Solutrense, a arte é parte da vida quotidiana, como o demonstra a grande explosão da arte móvel, mais típica do período Magdalenense. É assim também no Vale do Côa.
O final do Paleolítico vê aparecer novos padrões artísticos com a gradual ascensão do antropocentrismo, tornando-se o homem gradualmente o centro da acção gráfica. De uma arte de caçadores passa-se gradualmente para uma arte de pastores e agricultores e depois dos primeiros metalurgistas. Alteram-se os padrões artísticos e também certamente as motivações. Na Península Ibérica, depois de um período Epipaleolítico (presente nos vales do Côa e do Tejo) em que a arte animalista é ainda predominante (mas muito sensorial), a arte Neolítica e Calcolítica é normalmente classificada como esquemático-simbólica. As figuras, nomeadamente as inúmeras representações humanas, mas também animais e signos, são agora de menores dimensões e quase sempre simples "esquemas" ou "símbolos", reduzidos aos seus atributos essenciais.
Um dos mais enigmáticos e menos conhecidos ciclos artísticos penínsulares é o da arte do Noroeste, gravada sobre granitos (petróglifos galego-atlânticos) centrado na Baixa Galiza e Minho, todo ele abstracto-simbólico, com uma obsessiva gramática figurativa de características geometrizantes, e de uma grande riqueza ordenativa na estruturação de cada um dos seus sítios maiores. Em Portugal, a Bouça do Colado (Lindoso, Ponte da Barca) é a nossa jóia da coroa deste ciclo desenvolvido aparentemente entre o Neolítico final e a Idade do Bronze.
A origem da arte confunde-se pois com a origem do homem moderno. E a sua evolução durante milhares de anos de história, é a da própria evolução do pensamento simbólico dos modernos Sapiens.

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