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ArteImprimirDicionário critico

Picasso e Altamira

Paulo Pereira

Do artista Pablo Picasso (1881-1973), conhece-se a frase que proferiu após uma visita às Grutas de Altamira onde admirou as pinturas rupestres: “depois de Altamira, tudo é decadência”. Com isto, Picasso creditava ao homens do Paleolítico que pintaram aquelas grutas em período remotíssimo(18,500.-16,500 b.p.) uma originalidade absoluta e um essencialismo artístico nunca mais repetido. De algum modo, a frase compagina-se com a sua própria agenda de artista, interessado em romper com o classicismo pictórico - pese embora o seu respeito pelos grandes mestres  -  e que o conduziria ao “cubismo”,  um dos movimentos de maior impacto na arte ocidental e um dos motores da chamada “ruptura modernista”.

Palavras chave: arte primitiva; arte moderna;

Embora o interesse de Picasso pelas artes primitivas se tenha em boa medida centrado na escultura ibérica pré-romana, a arte primitiva africana, cujo contributo, todavia, não enfatizou, exprime-se no decurso da sua obra (Mãe e Filho, 1907, Musée Picasso, Paris; Três Mulheres, 1908-1909, Hermitage).

A sua descoberta da arte primitiva deve-se a uma visita que efectuou com André Derain e Matisse ao Museu de Etnografia (Trocadéro, Paris). Inclusivamente passaria a coleccionar arte primitiva, não sendo o único pintor da época a fazê-lo. Eis o que terá motivado aquele que é considerado pelos historiadores o seu período dito “africano” (1908-1909), justamente considerado proto-cubista, bem como uma das suas obras mais famosas e marcantes, Les Demoiselles d’Avignon, de 1907  (MoMA, Nova Iorque), talvez o primeiro depoimento integralmente cubista do seu trabalho.

Nesta pintura, a dado momento da sua criação, em Julho de 1907, Picasso procedeu a alterações importantes, especialmente no lado direito da tela, eliminando figuras que pintara e que teriam um teor mais ilustrativo ou alegórico e introduzindo a aparência de máscaras africanas sobre o busto das duas figuras femininas, bem como tratamento anguloso das respectiva silhuetas, ao ponto de considerar que se trata de uma obra propositadamente inacabada.

Sem que se reconheça, objectivamente, uma influência directa ou indirecta da arte rupestre pré-história na obra de Picasso, é possível aproximar uma das suas mais formidáveis  telas  -e  uma das mais célebres obras de arte do século XX –,  Guernica (1937), tendo para mais em conta a sua dimensões monumentais  (350 x 782 cm), como um longínquo eco dos painéis de Altamira que tanto admirara, não faltando a cabeça de touro, símbolo de si próprio, do mito do Minotauro e, segundo ele, significando ali, "brutalidad y oscuridad".

Por sua vez, Picasso conhecia bem a génese dos artistas da pré-história. “O homem começou a fazer imagens porque as descobriu já meio feitas à sua volta, mesmo ao seu alcance. Viu-as num osso, nos ressaltos de uma gruta, num bocado de madeira. Uma das formas sugeriu-lhe uma mulher, outra um búfalo, e outra ainda a cabeça de um monstro”  Concretizou, dando mostras de um pensamento arqueológico e crítico: “A ‘idade da pedra’ deveria chamar-se ‘idade da madeira’. Quantos estatuetas africanas são feitas de pedra, osso ou marfim? Talvez uma em mil! E o homem pré-istórico não tinha mais marfim ao seu dispor do que as tribos africanas. Talvez até menos. Deve ter possuído milhares de fetiches de madeira, agora já todos desaparecidos” (cit. de Brassai, Conversas com Picasso, a 20.10.1943).

O carácter expressionista e anti-clássico da “arte primitiva” (arte da Oceânia, de África, arte cicládica) influenciou as pesquisas de artistas como Gauguin (1848-1903), Matisse (1869-1954), Braque (1882-1963), Miró (1893-1983),  Henry Moore (1898-1986), ou Miquel Barceló (1948-), entre muitos outros.

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