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ArteImprimirDicionário critico

Arte Primitiva e Primitivismo

Paulo Pereira

São entendidas como arte primitiva as manifestações artísticas devidas ao “povos primitivos”. Entendem-se, geralmente, como “povos primitivos” todos aqueles cuja organização social exclui o conceito de Nação ou de Estado, assentando maioritariamente no sistema tribal ou por serem mais latamente,  “não civilizados”. É também conhecida como “arte primeira” (art premier), “arte tribal”, “arte natural”, “arte primordial”, “arte das origens”, “arte tradicional” ou “arte selvagem”. O primitivismo resulta de uma apreciação e validação estética da manifestação artística tendo como ponto de vista a “história de arte” de raíz ocidental e a sua narrativa - em construção, desde, pelo menos, o século XVI.

Palavras chave: economia primitiva; História da Arte; criação; abstracçãomagia; Picasso e Altamira

São entendidas como arte primitiva as manifestações artísticas devidas aos “povos primitivos”. Entendem-se, geralmente, como “povos primitivos” todos aqueles cuja organização social exclui o conceito de Nação ou de Estado, assentando maioritariamente no sistema tribal ou por serem, mais latamente,  “não civilizados”.

A distinção surgiu, a partir do expansionismo europeu e amadureceu, definitivamente, durante a formação dos modernos impérios de base mercantilista e capitalista no decurso do século XIX, acompanhando, aliás, a formação da História da Arte como disciplina. Deste modo, a História da Arte segregou a “arte primitiva”, essencialmente por se tratar de uma arte “sem história”, isto é, apenas dependente de condições “naturais” de carácter geográfico e biológico.

O termo passou a ser  usado com a acepção que hoje lhe é dada a partir de finais do século XIX, (Taylor, Primitive Culture, 1871), pressupondo um critério etnocêntrico, baseado na superioridade evolutiva da arte ocidental e das suas formas.

São consideradas “arte primitivas” a arte pré-histórica (glaciar, pós-glaciar e, dita, proto-histórica), a arte africana tradicional, a arte dos esquimós (inuit), a arte dos povos autóctones da América do Norte, a arte da Oceânia (Melanésia, Micronésia, Papuásia) e da Austrália (aborígenes australianos).

Numa perspectiva estritamente evolucionista, a arte primitiva ou o primitivismo correspondem a um estádio de desenvolvimento incipiente das faculdades expressivas. Por isso coincidem, também, com povos portadores de formas sociais consideradas primitivas.

A “arte primitiva” caracteriza-se pelo anonimato em termos de autoria e enquanto resposta imediata às exigências de equilíbrio social, em que os factores religiosos e económicos se entrecruzam. A arte primitiva faz, assim, parte do domínio da linguagem e até, em casos mais radicais como o da arte pré-histórica pré- e pós-glaciar, do linguajar. Na arte primitiva, não existe também, nem ainda, uma distinção entre estrutura e ornamento.

É também conhecida como “arte primeira” (art premier), “arte tribal”, “arte natural”, “arte primordial”, “arte das origens”, “arte tradicional” ou “arte selvagem”.

A arte primitiva, do ponto de vista expressivo, situa-se entre dois pólos opostos:

a) um naturalismo que pode ser considerado “planar” (planarity[1]), “directo” ou “ingénuo”; b) uma estilização e abstracção radicais , afastadas de qualquer referencia a cânones de realismo.

Por sua vez,  muitos dos objectos resultam de uma codificação condicionando o acesso ao seu significado a um grupo restrito (iniciados), estando quase sempre ligados aos domínios do ritual,  da religião e da magia.

Os mais antigos testemunhos artísticos primitivos remontam ao século XVII, onde antes integravam wunderkammern (“câmaras de maravilhas”). De início, tais objectos, tidos como estritos artefactos, não possuíam valor estético, sendo vistos, antes como curiosidades. Passaram, depois, a fazer parte da narrativa evolucionista, de forma a ilustrar o “preservação das raças” (Darwin, 1857) e integraram museus que surgiram na sequência das viagens de exploração transcontinentais de oitocentos e da formação do colonialismo moderno, dando origem a museus etnográficos (Copenhaga, 1841; Berlim, 1856; Leiden, 1864; Cambridge/Massachussets, 1866, Dresden, 1875, Paris, 1878)  e a exposições coloniais de considerável impacto (Amesterdão, 1883; Londres, 187; Tervuren/ Bruxelas, 1897) [2]. Em Portugal, a fundação do Museu de Etnografia e de Arqueologia em Lisboa (1893), actual MNA, foi pensado pelo seu fundador, José Leite de Vasconcellos para ser como que um  “Museu do Homem Português”, incorporando em pé de igualdade, portanto, manifestações pré-históricas e contemporâneas, de carácter primitivo ou arcaico.

O primitivismo, por sua vez, resulta de uma apreciação e validação estética da manifestação artística tendo como ponto de vista a História de Arte de raíz ocidental e a sua narrativa - em construção, desde, pelo menos, o século XVI.

Foi assim que a arte primitiva foi adquirindo valia estética, especialmente após advento do movimento Moderno (c. 1910). Desde então passou a fazer parte do número de objectos artísticos coleccionáveis, passíveis de sistematização, acumulação, e contemplação, extraídos da sua condição inicial produtos sociais, e gerando até um mercado de arte.

O conhecimento da arte primitiva nas suas diversas manifestações e a sua inscrição num quadro geográfico preciso, motivou a sua inserção na Historia da Arte, embora em capítulo quase sempre separado, por se furtar à tradicional declinação de estilos e autoria, característicos da periodização da arte ocidental ou de outras civilizações.

Mais recentemente, embora se mantenha o uso do conceito, a arte primitiva é entendida  no âmbito das “culturas” e da expressão artística dos povos em isolamento.

Legendas das Imagens

.Máscara nimba, Baga, Guiné, s.d.


[1] - Cf. SUMMERS, David, Real Spaces, Phaidon, 2003
[2] - Cf. HONOUR, Hugh, FLEMING, John, A World History of Art,  (4ª ed.), 1995, p. 689..

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