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ArteImprimirDicionário critico

Desenho

Susana Oliveira

O conceito alargado de Desenho refere-se à  disciplina e à prática de inscrição intencional de marcas gráficas (linhas, pontos, manchas) num determinado suporte, geralmente bidimensional. Os desenhos são os objectos produzidos por esse meio e denotam, por tornarem visíveis, corpos e espaços observados directamente ou imaginados, podendo também expressar uma grande diversidade de ideias, conceitos e emoções.

Palavras chave: imagem mental, figura, inscrição, artes visuais, sombra.

O termo ‘Desenho’ tem origem no italiano ‘disegno’ e corresponde a um conceito e a uma prática características da Idade Moderna. Foi introduzido pelo artista florentino Cennino Cennini no seu Libro dell’ Arte (c. 1400) para designar tanto os registos gráficos como  as imagens mentais. A definição deste Disegno iria ocupar os artistas da Renascença e do Maneirismo italianos nos dois séculos subsequentes para ganhar consistência e autoridade como ramo das Belas-Artes com a fundação da Academia del Disegno de Florença, em meados do séc. XVI, que associou a especulação teórica sobre a Arte ao ensino das técnicas fundamentais das três artes filhas do Desenho: a Pintura, a Escultura e a Arquitectura, e forneceu a matriz para a disseminação ocidental das Academias de Arte. A definição do conceito de Desenho dos Italianos como a de Francisco de Hollanda, que o introduziu em Portugal, ultrapassava o sentido estrito de registo gráfico para incluir o significado actual de Design, mais tarde isolado na sua forma em Língua Inglesa numa acepção projectual, um devir da forma especulado pelo desenho.

O Desenho engloba um conjunto de imagens produzidas que existem com funções específicas nas ciências, passando pelas actividades projectuais até à arte e muito naturalmente na vida quotidiana. Ao conceito de Desenho está associado o de linearidade e de economia no preenchimento de uma superfície. A diferença fundamental e operativa que permite distinguir desenhos de pinturas, embora nem sempre seja evidente, resulta desta economia de meios, tanto no que diz respeito aos processos e técnicas de inscrição e registo como aos suportes utilizados. Embora chegando aos seus limites na tridimensionalidade, no acidental e no puramente mental, chamamos desenhos a uma categoria particular de imagens construídas/elaboradas com o auxílio de instrumentos capazes de marcar riscos e sinais, linhas, pontos e ocasionalmente manchas em superfícies bidimensionais, na grande maioria dos casos sobre papel e derivados. Dentro deste conjunto de objectos a que chamamos desenhos, alguns têm um carácter mimético, ou seja, são percebidos como representações figurativas de outras coisas.  O desenho, como actividade prática compreende uma série de técnicas, variantes e aplicações determinadas sobretudo em função do seu uso contingente. Formalmente, o desenho tem um campo de aplicação imenso e diverso, pois os corpos, os espaços, a profundidade, a substância, o material, a textura e até mesmo o movimento podem ser tornados visíveis através do desenho. A estas possibilidades, o desenho manifesta e acrescenta ainda espontânea e directamente a personalidade do seu autor, através da sua marca caligráfica (Fig.1).

O desenho como criação artística formal pode ser definido primariamente como representação linear dos objectos do mundo visível, bem como de conceitos, ideias, atitudes, emoções e fantasias aos quais dá forma visível. O desenho difere assim dos processos gráficos de impressão e dos meios digitais pois resulta de uma relação directa e imediata entre a produção e o resultado. Apesar de um desenho poder servir de base para a reprodução e/ou cópia noutros suportes, é contudo único na sua natureza intrínseca. Embora nem todas as obras artísticas resultem de um desenho ou esboço preliminar, o desenho constitui o fundamento e base de todas as artes visuais, que podem muitas vezes ocultar, absorver ou destruir o desenho ou esquema gráfico original no curso da sua execução. O desenho constitui a base material de muitas pinturas murais, gravuras, representações técnicas, mapas, ilustrações e, inclusive, fotografias e registos fílmicos. Os esboços preliminares ou subjacentes a estas formas podem consistir em simples contornos ou predeterminar o aspecto final visível até ao mais ínfimo detalhe. A descoberta de desenhos preliminares subjacentes à pintura de frescos – as sinopia – demonstrou que estes não serviam apenas um suporte técnico, mas que procuravam expressar formalmente, por meio de desenhos probatórios, uma intenção artística. O mesmo esforço parece estar presente nas gravuras paleolíticas que, apesar dos meios de inscrição na superfície rochosa, podem ser descritas como desenhos pelo seu carácter único e de relação directa entre o gesto produtor e o resultado visível.

O acto consciente e propositado de desenhar representa uma realização cognitiva considerável, pois a aptidão para reduzir os objectos espaciais que nos rodeiam a inscrições num suporte/plano pressupôe uma capacidade desenvolvida de abstracção. A interpretação visual de uma marca gráfica como representando um determinado objecto resulta da associação projectiva de certas configurações e qualidades das suas linhas e pontos, bem como da competência ou literacia visual do observador. Uma incontável variedade de imagens compreensíveis pode ser obtida a partir de uma variedade limitada de fenómenos lineares. A simples linha de contorno – o primeiro desenho ou pintura, de acordo com uma lenda romana, teria origem no contorno de uma sombra projectada – é porventura o mais simples e disseminado meio de figuração gráfica (Fig.2).
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Bibliografia

CENNINI, Cennino. The Craftsman's Handbook - El Libro dell'Arte. (D. J. Thompson, Trans.) Eng: Dover Publications, 1960.

CÔRTE-REAL, Eduardo. O Triunfo da Virtude, As Origens do  Desenho Arquitectónico,  Lisboa: Livros Horizonte, 2001.

DAMISH, Hubert. Traité du Trait. Paris: Réunion des Musées Nationaux,1995.

HOLANDA, Francisco de. (1571) Da Ciência do Desenho.... Lisboa: Livros Horizonte, 1985.

HOLANDA, Francisco de. (1548) Da Pintura Antiga. Lisboa: Livros Horizonte, 1984.

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