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ArteImprimirDicionário critico

Gravura

Ana Rodrigues

A gravura enquanto processo de incisão sobre uma determinada superfície para obter efeitos estéticos existe desde a pré-História, mas ganha um novo fôlego depois da 2ª metade do século XV, quando esta técnica passa a ser utilizada para criar uma matriz que possibilitará a multiplicação dessa mesma imagem, acompanhando a partir de então a história da imagem impressa. Na pré-História já se pode considerar ter existido a técnica da gravura, não só a partir dos meandros traçados sobre a argila, mas também dos pontos e das linhas paralelas ou cruzadas deixadas sobre placas de osso ou mesmo nas representações antropomorfas e/ou animalistas esculpidas na rocha, como no caso dos cavalos e bovídeos das gravuras de Foz Côa (Fig. 1).

Palavras chave: arte da pré-história, desenho, relevo, inscrição, reprodutibilidade da imagem

Na Europa, a partir da 2ª metade do século XV, a gravura denomina a imagem que se obtém a partir de uma matriz na qual, através de diversos procedimentos – xilogravura, gravura cavada, planográfica –, se conseguem obter várias reproduções da mesma imagem.
No século XV, a possibilidade de reproduzir uma imagem revolucionou a capacidade de comunicação entre as pessoas. Médicos acediam a livros ilustrados com todas as partes anatómicas do corpo humano. Engenheiros militares compravam tratados com gravuras de fortes, castelos e respectivas marcações topográficas. Artistas de todo o mundo inspiravam-se nas várias edições ilustradas das Metamorfoses de Ovídio como modelo. No entanto, foi precisamente a possibilidade do múltiplo que impediu a Gravura de ser considerada uma arte de pleno direito, reconhecimento só granjeado no século XX. Mesmo assim, logo no século XVI, grandes artistas como Durer, Cranach, Holbein, e Lucas van Leyden, abordaram a gravura, ainda que a maior parte das vezes se tivessem limitado a fazer o
desenho e a vigiar a execução dos gravadores.

Em Portugal, a primeira Aula de Gravura só foi criada na 2ª metade do século XVIII e teve como primeiro director e mestre Joaquim Carneiro da Silva.

A primeira técnica de gravura de que há conhecimento foi a xilogravura – gravura em madeira com o desenho em relevo –, mas depressa se recorreu a outros processos de matriz metálica, pela sua alta qualidade, mas, sobretudo, porque, com as crescentes tiragens, a matriz de madeira tornou-se inoperacional. Actualmente, com todos os meios tecnológicos ao nosso dispor, deixou de fazer sentido reproduzir imagens pela via da gravura, restando-lhe apenas a sua afirmação como forma de expressão artística.
Cada artista opta, entre uma multiplicidade de técnicas da Gravura, por uma determinada técnica, ou por mais do que uma – gravuras mistas –, em função do resultado que pretenda atingir, visto que cada técnica origina um registro gráfico  específico.
Na xilogravura, o artista ou artesão vai fazendo emergir a imagem em
relevo, talhando, com canivete, madeiras preferencialmente macias como o mogno, a pereira, a macieira, a nogueira, sendo que quando se utiliza o buril opta pelo buxo. O outro processo do qual a imagem surge do relevo é a gravura de matriz metálica pelo processo do ponteado, no qual a tinta passa para o papel através destas saliências deixadas pelo rolete ou por punção, com os quais se conseguem as diferentes tonalidades. Este método foi o mais utilizado por Francesco Bartolozzi (1727-1815), personalidade fundamental da gravura nos finais do século XVIII que se fixou em Portugal, depois da sua reconhecida carreira em Inglaterra (Fig.2).
Na gravura cavada, ao contrário da xilogravura e da gravura sobre chapa metálica pelo processo do ponteado, a imagem é escavada na matriz em metal e será nestas ranhuras que a tinta penetra, e depois, através de processos de considerável pressão mecânica transfere-se a tinta para o papel. 
Todos os processos que utilizam a matriz metálica, geralmente de cobre, exigem que a chapa seja coberta com verniz, fazendo  com que depois da imagem gravada a buril ou com outro instrumento se aplique o mordente (ácido) na chapa, tal como se aplica no caso da gravura pelo processo do ponteado, a água-forte, a água-tinta e alguns dos chamados mistos. As excepções são as gravuras de matriz metálica denominadas de “talhe doce”, e de “ponta-seca”.
Na gravura a talhe-doce, sobre a chapa metálica coberta com verniz o gravador desenha sobre o verniz, depois abre o metal a buril, retira a camada de verniz e a matriz está pronta para a impressão no tórculo. A gravura a ponta-seca, realizada igualmente sobre uma chapa metálica, constitui o processo de gravura mais directo que existe porque dispensa mordentes e vernizes como intermediários. Diferencia-se da gravura a talhe-doce por dispensar o verniz. Por isso, quando o gravador abre o metal com a agulha levantam-se rebarbas no final do traço que deixam um efeito particular aquando da impressão. Esta chapa tem uma durabilidade inferior às demais porque ao fim de quinze, vinte tiragens, a matriz desgasta-se.
Nas técnicas da gravura com matriz metálica que utilizam mordente – a gravura a água- forte, a gravura a água-tinta – o desenho emerge da corrosão dos traços do artista pela utilização de alguns líquidos corrosivos.
A gravura a água-forte é a única que resulta exclusivamente da corrosão pelo ácido, sendo uma técnica que gera uma imagem com toda a espontaneidade do desenho. Por se tratar de uma técnica totalmente indirecta, os artistas muitas vezes combinavam-na com a técnica da ponta-seca.
A designação de “água-forte” advém do facto da chapa ser mergulhada num mordente diluído em água que entretanto corrói as zonas das quais o gravador retirou a cera ou o verniz. Isto acontece, não só depois da chapa ter sido coberta com uma camada fina de cera ou verniz, e da imagem ter sido aberta com uma agulha ou com um buril, mas também depois de se terem protegido as costas e os lados da chapa com o negro de Brunswick. Esta foi, aliás, uma das técnicas mais utilizadas por alguns dos grandes artistas desde Rembrandt (1606-1669) a Goya (1746-1828), de quem ficaram célebres Os caprichos seriados.

Na segunda metade do século XVIII, nasce a gravura a água-tinta, sob o signo inventivo de Jean-Baptiste Le Prince (1734-1781). Neste novo processo, a chapa metálica em vez de ser coberta com verniz ou cera, era revestida por uma solução de resina e álcool; a evaporação deste contrai a resina que acaba por estalar, deixando atrás de si inúmeros grãos aderentes ao metal; noutro procedimento, cobre-se a chapa com resina pulverizada para obter o mesmo efeito. Sobre este preparado, o gravador desenhava e mergulhava depois a placa no mordente que corroía as zonas das quais tinham sido levantados os grãos de areia. Desta técnica resulta uma gravura com diferentes áreas tonais de cinzentos e não com linhas como na xilogravura. A técnica da água-tinta foi imortalizada por grandes artistas do Impressionismo e Modernismo como Edgar Degas (1834-1917), Camille Pissarro (1830-1903), e Pablo Picasso (1881-1973).
Esta técnica calcográfica (cujo método de produção da matriz implica a acção de químicos) resultou da vontade de simplificação da gravura a mezzotinto. Nesta o efeito granulado era conseguido, não através dos grãos de areia, mas através da picotagem da chapa metálica com rolete ou com lâmina dentada, tendo depois o gravador de polir as zonas que na imagem impressa deveriam ficar mais claras. 
A gravura a cores também foi utilizada por vários artistas a partir da 2ª metade do século XVII. Por exemplo, os holandeses Johannes Teyler (1648-1709) e Peter Schenck (1660-1713) pintavam à boneca a chapa de cobre. Utilizando a gravura a água-tinta ou o mezzotinto consegue-se na impressão um efeito idêntico ao da pintura a pastel, empregando-se, porém, tantas chapas de cobre quantas as tonalidades desejadas na impressão final, como o fizeram Bonnet e Boucher. 

Nas Artes Visuais a gravura desempenhou um papel fundamental. Foi com a possibilidade gerada pela gravura da multiplicação das imagens que as imagens de santos foram difundidas por toda a civilização cristã, que rótulos, mapas, cartas de baralho, edições ilustradas de Ovídio, imagens da Roma clássica, estudos anatómicos do corpo humano em livros de medicina, entre outras imagens, chegaram aos quatro cantos da Europa e se difundiram por áreas de contacto inter-civilizacional, como aconteceu, na época dos descobrimentos, e nas missões jesuítas da Índia e da China.

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