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ArteImprimirDicionário critico

Artefacto

Maria Teresa Cruz

Os artefactos constituem uma das primeiras evidências da especificidade do ser humano, enquanto espécie capaz de produzir e fazer uso de objectos, instrumentos e adornos, articulando de modo decisivo a sua relação com o meio ambiente e transformando-o de modos mais ou menos radicais. Os artefactos são pois alguns dos primeiros vestígios da cultura (os mais antigos têm cerca de 400,000 anos), sendo também um dos seus traços mais persistentes e influentes, como mostra o estado actual de tecnicização da experiência e a crescente dimensão artifical do nosso meio ambiente. Por estas razões a designação de “homo faber” pode bem ser considerada como uma das mais pertinentes caracterizações da espécie humana ou “homo sapiens”. 

Palavras chave: Simbólico, Técnica, Obra de arte

A arqueologia e a Antropologia mostram que as primeiras manifestações de pensamento simbólico na espécie humana estão ligadas ao uso e produção, mesmo que muito elementar, de objectos, onde valor de uso e valor simbólico se fundem para permitir as primeiras formas de relação pensada com o meio ambiente e com os outros indivíduos. Objectos de uso, instrumentos e adornos constituem alguns dos mais arcaicos vestígios materiais da cultura, remontando até cerca de 400,000 anos, aos antepassados mais recuados da linhagem de Neandertal. O surgimento do gesto técnico está assim plenamente articulado com o surgimento do simbólico e com a possibilidade da linguagem, ideia muito significativamente defendida por Leroi-Gourhan, um dos mais influentes antropólogos modernos. Em Le Geste et la Parole (1964-1965) fala da relação necessária entre o desenvolvimento da mão e o desenvolvimento do cérebro, como algo que está no origem mesma da humanidade. O ser humano é assim animal racional e ser de linguagem, na medida em que é também animal técnico. Esta terá sido uma das ideias mais influentes para o surgimento de uma nova perspectiva sobre as origens do humano que lança ao mesmo tempo luz sobre a extraordinária importância que a técncia foi adquirindo até ao presente. A técnica é, relativamente à espécie humana, uma “tendência universal” e os artefactos uma “membrana interposta” ou “envolvimento artifical”, através dos quais o homem exerce a sua influência crescente sobre o meio ambiente e sobre a própria espécie, constituindo uma nova memória, não genética, mas cultural, determinante para as formas de vida da espécie.


Surge assim uma visão do humano como inseparável da técnica e, ao mesmo tempo, uma visão antropológica da técnica, como criação eminentemente humana, isto é, em efectiva consonância com a sua natureza e desígnios, que afastou as visões mitificadas da suas raízes mágicas. A História tem confirmado este profundo entretecimento entre técnica e humano, mas a expressão moderna e contemporânea da técncia (ou os processo da mecanização, industrialização e simulação da actividade da humana) trouxeram consigo elementos de alienação, dominação e controlo que parecem escapar às nossas intenções e fazer perigar a própria condição humana. Esta situação fez, por um lado, redespertar uma visão todo poderosa e mitificada da técnica e, por outro lado, relançou um aceso debate filosófico e cultural acerca da sua naureza. Uma das reflexões mais influentes para este debate moderno acerca da técncia terá sido o ensaio de Martin Heidegger, 'Die Frage nach der Technik', de 1953,
Em paralelo, a noção de “artefacto” sofre uma cesura decisiva para a compreensão da cultura moderna: por um lado, permanece associada ao artesanato humano, identificando aqueles objectos que são ainda o produto de uma actividade essencialmente manual, onde reconhecemos quer a presença das matérias primas quer a presença da mão; por outro lado, correponde cada vez mais à ideia de “objecto técnico”, cuja tendência parece ser a de se afastar crescentemente dessa reunião entre natureza e humano, para se tornar uma entidade artificial.  Do “artesanato” para o "artificial", o artefacto revela cada vez mais a sua pertença a uma razão técnica, que não é puramente instumental, mas sim, “ruse”,  “dominadora e possuidora da natureza” (como dizia já Descartes). .

A visão predominante continua a reconhecer contudo no objecto técnico uma presença mesma do humano, ou uma espécie de «humano  cristalizado», cujo sentido é preciso compreender, como dirá Gilbert Simondon (autor de Du mode d´existence des objets techniques, 1968). Em Bernard Stigler (Technique et le Temps. Vol.1, 1994 ) encontramos alguns dos desenvolvimentos contemporâneos mais significativos para uma análise dos objectos técnicos e da artefactualidade do humano em geral, enquanto processos de “concretização” e de “exteriorizção” que lhe são inerentes. Para Bruno  LaTour (autor de uma vasta obra no campo da sociologia da ciência e da técnica), por sua vez, não é possível distinguir simplesmente os objectos técnicos, dos outros objectos, pois o nosso mundo é precisamente caracterizado pela interpenetração da realidade técnica, social, cultural e económica.

Compreender a experiência contemporânea na sua relação com os meios técnicos, nomeadamente com as novas tecnologias da informação, é compreender a artifcialidade crescente do nosso meio ambiente, composta de artefactos materiais e imateriais, individualizados em objectos ou disseminados numa artefactualidade difusa que penetra as próprias coisas naturais e no bios, como bem mostra hoje a engenharia genética e a biotecnologia. Ao mesmo tempo, os objectos industriais que circulam na sociedade de consumo são cada vez mais investidos de aspectos que ultrapassam a sua realdiade de coisas, aspectos não apenas provindos da economia política (como o seu valor de mercado), mas também simbólicos e fantasmáticos, os quais alimentam de modo fulcral a ideologia consumista do capitalismo tardio (como bem mostram J. Baudrillard em Pour Une Critique de l’Economie Politique du Signe, 1974 e Fredric Jameson em Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism, 1991). Neste contexto, extraordianriamente complexo, é o próroio estatuto da “coisa” que se encontra alterado, nomeadamente a divisão entre natural e artificial, (como ressalta de algumas análises contemporêneas tais como a de  Mario Perinola em Il Sex -Appeal dell'Inorganico,  1998, ou a de Remo Bodei, La vita delle Cose, 2009).

Tendo em conta estas transformações, é interessante atentar na relativa estabilidade da noção de obra de arte, cuja raiz moderna (pós-renascentista), se tem mostrado consideravelmente estável. Ela compõe uma terceira cesura no estatuto das coisas, essencial para o retrato da cultura moderna: nem coisa natural, nem mero artefacto ou objecto técnico, ela reclama para si um estatuto distinto, que comporta também uma visão alternativa do humano.

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