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ArteImprimirDicionário critico

Criação

José Augusto Mourão

Criar é separar, plasmar, ficcionalizar. O que supõe actos e agentes: operadores, criadores, conceptores, programadores, autores, demiurgos. Passamos de uma concepção mítica, teológica e poética da criação para uma concepção de criação como geração automática, criação assistida, produção, artefacto. Que dissimulam todos estes termos? Como caracterizar o fantasma da criação?

Palavras chave: artefacto, técnica, antropologia da imagem

Não houve civilização nem sociedade humana que não acreditasse em deus. Nesse contexto, a criação (do mundo) era um atributo de deus. Entendia-se que a criação e a fabricação não eram termos equivalentes. O deus criador não é algo que esteja no lugar daquilo que os físicos sabem analisar como os primeiros momentos do mundo.

Nem a teoria do big bang, nem a teoria do vazio primeiro explicam o começo de tudo. Há algo que foi dado. Alguém o deu. O nada está no começo de tudo. E o mundo vem deste nada. Que é o nada? O nada, escreve J.-L. Nancy, “é  o facto de que haja algo em geral, nós todos”1. Não é algo e ao mesmo tempo não é nada. É o facto de que há qualquer coisa. Na Kabala diz-se que deus cria o mundo retirando-se, esvaziando-se. Ao esvaziar-se, deus abre o vazio em que o mundo pode ter lugar. Deus é o vazio que se abre. Esta concepção religiosa do mundo entrou em crise. A literacia fonética inventou a Natureza, abstraindo-a do caos do mundo oral, algo que o mito da queda ilustra. O dispositivo tecnológico. “As tecnologias são artificiais, mas (paradoxo) a artificialidade é natural ao ser humano”2.

Criar, na Bíblia, é separar, falar e agir. A concepção da criação comum às diferentes civilizações do antigo Próximo Oriente, que difere apenas de mito para mito, consiste na transformação do caos em cosmos3. Gn 1,26-27 expressa a criação da humanidade com o termo “bara”, o termo técnico para designar a acção criadora de Deus. Francolino Gonçalves traduz indistintamente por “ser humano” ou “humanidade” o hebraico ‘adam’. Ao enunciar o projecto do fabrico da humanidade (Gn 1,26) Deus usa duas palavras: imagem (selem) e semelhança (demût). Ora, diz este exegeta, “a palavra imagem tem um sentido concreto. Designa um objecto que reproduz ou representa outra realidade, geralmente, uma estátua de madeira, de metal ou de pedra”4. Plassô significa em grego modelar, formar, imaginar, fingir. Plasma é tudo o que é modelado (modulado, afectado, amaneirado), ficção. O verbo Kakoplaston designa omal atado, mal amanhado. Asustatos designa o incoerente, inconsistente. A “ficção” (plasantos 585) divina é aquele olhar que sabem fabricar os deuses quando incarnam a palavra; a ficção da epopeia, aquela que sabem desenvolver os poetas5. O agir, na versão que se recebe do Cristianismo, é esforço, desassossego, e sofrimento. Daí a analogia estabelecida de longa data entre criar (em arte) e dar à luz. Na escolástica medieval, a forma está de certo modo na matéria enquanto a matéria tem uma aptidão e uma ordem para a forma6. Olivier Boulnois sustenta, com razão, que "quaisquer que sejam as tentativas para sair do modelo da criação ("instalações", arte conceptual, desvios de uso, etc.), estas experiências determinam-se ainda em relação ao modelo que recusam, e confirmam-no a contrario: é impossível pensar a produção artística independentemente do pensamento judaico, e depois cristão, da criação"7 (Fig.1).

A cultura ocidental rompeu de facto com a concepção em que Javé modelava a forma humana com argila. Rompeu igualmente com a ideia de que o artista torna humana a matéria bruta dando-lhe uma forma inteligível. Como já algures escrevi: “No novo sistema de criação, o artista já não assume a escrita ou o desenho duma mensagem, concebe um sistema gerador de obras, inventa uma fórmula nova, esgotando as suas possibilidades em cada acto criador. O artista visa a fonte, não a mensagem, não um objecto actual, mas o mundo de possíveis, de acaso e de necessidade. O caos”8. A tradição Ocidental vai fazer do agir uma exigência de realidade. Fazer e agir significam produzir. Pro-duzir (pro-ducere) significa conduzir diante de, para esse fora do mundo que conjuntamente define a fenomenalidade e a realidade. Estamos bem longe do tempo em que se acreditava (mito acádico) que "os deuses faziam o homem" ou que "no começo Deus criou o céu e a terra" (mito do combate primordial).

Hoje, ao conceito de criação prefere-se o de programação, ou de invenção. A evolução das técnicas modificou a própria noção de experimentação. A experimentação numérica aparece como um complemento essencial que perturba a noção de experimentação. Quando a biologia molecular cria uma espécie nova de bactéria ou de planta já não age a maioria das vezes por selecção ou intervenção directa, mas recombina dados. A infografia abole a matéria ou qualquer substracto físico. A parte da máquina na criação é mais importante que aquela que nela tinham os pincéis ou a massa. Não estamos já no domínio de aplicação das forças mecânicas nem no poder transformador do fogo, mas a decifrar uma escrita fundamental e a redigir textos inéditos9. O facto é este: "A ciberarte modificou radicalmente a nossa relação com a matéria, tornando-se dialógica10. A interactividade, se não põe em causa o conceito de criação, alarga-o. “A criatividade, por efeito da sua democratização, torna-se maquínica. Dessacralização radical: é o mesmo gesto de Duchamp”, afirma J. Baudrillard11.

Movimentos post-vanguardistas latino-americanos como o "Poema PROCESSO", e "A Poesia para Armar e/ou Realizar" reviram os mecanismos de geração de leituras e tentaram deslocar o centro de criação (e portanto de emissão) para o leitor. Radicava aqui a crença de que esse seria o primeiro passo para a desaparição da noção de um autor-artista colocado num plano superior de criação. No novo sistema de criação, o artista já não assume a escrita ou o desenho duma mensagem, concebe um sistema gerador de obras, inventa uma fórmula nova, esgotando as suas possibilidades em cada acto criador. O artista visa a fonte, não a mensagem, não um objecto actual, mas o mundo de possíveis, de acaso e de necessidade. O artista agora apenas concebe um sistema gerador de obras. O autor transformou-se em gerador de textos automáticos. Em vez de criação, talvez seja preferível falar de “the logic of invention” (Gregory Ulmer), ou de geração automática (P. Barbosa). O projecto de Pedro Barbosa de Literatura Gerada por Computador (LGC) designa um procedimento criativo novo, nascido com a tecnologia informática, em que o computador é utilizado de forma criativa, como manipulador de signos verbais e não apenas como simples armanezador e transmissor de informação.
 
O uso criativo do computador varia consoante as potencialidades gerativas do algoritmo introduzido nos programas. O artista concebe o modelo da obra a realizar (programa), a máquina desenvolve e executa as múltiplas realizações concretas desse modelo dentro de um campo de possíveis. O texto-matriz (pattern), lembra Pedro Barbosa, concebido pelo autor em estado latente, ou potencial, abre-se sempre a um campo de possíveis mais ou menos vasto, e tendencialmente infinito, que constituirá o conjunto dos estados textuais actualizados ou concretos. E. Couchot é peremptório: “Aquilo que faz a especificidade das tecnologias numéricas não é a sua imaterialidade mas a sua programaticidade, isto é, o facto de que elas se reduzem a programas informáticos capazes de ser tratados automaticamente pela máquina computador”12. Numa palavra, o computador apenas segue o processo que lhe indicaram. O numérico, para se instalar, supõe uma ruptura forte com os suportes tradicionais e materiais. Com esta ruptura desaparece a figura do Autor, o que se desenha no horizonte é o fim do Estilo e a virtualização do Real (Fig.2).
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Bibliografia

 

Francolino Gonçalves, “Bíblia e Natureza”, in Cadernos ISTA,  nº 8, 1999.

Jean Baudrillard, Le paroxyste indifférent, Entretiens avec Philippe Petit, Paris, Grasset, 1997.

Edmond Couchot/Norbert Hillaire, L’art numérique, Paris, Flammarion, 2003.

Sylvie Leleu-Merviel, Création numérique - écritures - expériences interactives, Lavoisier, Paris, 2005

J. M. Salaüm e C. Vandendope, (org.), Les défis de la publication sur le web - hyperlectures, cybertextes et méta-éditions, Presses de l'ENSSIB, 2004.

Olga Kisseleva, Cybeart, un essai sur l´art du dialogue, Paris, L´Harmattan, 1998.

Olivier Boulnois, "La création, l'art et l'original", Communications 64, 1997.

Walter Ong, Orality and literacy: the technologizing of the Word, London, Routlege, 1982.

Jean-Luc Nancy, Au ciel et sur la terre, Paris, Bayard, 2004.

José Augusto Mourão, «A criação assistida por computador, a cibercultura », in Atalaia-Intermundos, nº 8/9, Lisboa, 2001.

 


[1] Jean-Luc Nancy, Au ciel et sur la terre, Paris, Bayard, 2004, p. 55

[2] Walter Ong, Orality and literacy: the technologizing of the Word, London, Routlege, 1982, p. 82..

[3] J. N. Carreira, Mito, mundo e monoteísmo (Biblioteca Universitária, 67), Mem Martins, Europa-América, 1994, pp. 9-27.

[4] Francolino Gonçalves, “Bíblia e Natureza”, in Cadernos ISTA, nº 8, 1999, p. 17.

[5] B. Cassin, L’Effet Sophistique, Paris, Gallimard, 1995, p. 93.

[6] Emmanuel Durand, “Au principe de l’amour: formatio ou proportio?”, in RT 104, 2004, p. 562.

[7] Olivier Boulnois, "La création, l'art et l'original", Communications 64, 1997, p. 73.

[8] José Augusto Mourão, «A criação assistida por computador, a cibercultura », in Atalaia-Intermundos, nº 8/9, Lisboa, 2001, p. 49.

[9] Pierre Lévy, La machine univers. Création, cognition et culture informatique,Paris, La Découverte, 1987, p. 60.

[10] Olga Kisseleva, Cybeart, un essai sur l´art du dialogue, Paris, L´Harmattan, 1998.

[11] Jean Baudrillard, Le paroxyste indifférent, Entretiens avec Philippe Petit, Paris, Grasset, 1997, p. 173.

[12] Edmond Couchot/Norbert Hillaire, L’art numérique, Paris, Flammarion, 2003, p. 26.

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