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ArteImprimirDicionário critico

Vontade de arte

Jorge Leandro Rosa

A noção de Kunstwollen e a sua associação a uma «gramática histórica das obras plásticas»[1], termo cunhado por Aloïs Riegl (1858-1905), foi determinante no desenvolvimento dos estudos da construção do valor das obras, mas encontra-se, também, marcada por uma posteridade complexa.

Palavras chave: valor artístico, raízes da arte. obra de arte

A vontade de arte foi sendo embebida nos sonhos de autotransparência dos modernismos, como dirá Gianni Vattimo[2]. Vibra aí o desejo de uma sociedade onde a arte, enquanto valor absolutamente actual, fosse o constante desvelamento da vida a partir da sua circunstância. Para aí apontava já o conceito de Riegl, que situou o valor artístico em condições decididamente contemporâneas do exame crítico das obras e não, como fizera o Romantismo, na rememoração das suas condições originais. O conceito de Riegl parece ser hoje mais produtivo quando, por outro lado, tentamos analisar as pulsões para a arte a partir de uma relativa escassez de traços formais do objecto artístico e da sua especificidade no oceano das produções perdidas das suas condições históricas. A complexidade contemporânea dos mecanismos de formação do valor artístico veio, assim, reactualizar o valor heurístico da noção de Riegl.

 O conceito de Kunstwollen foi rapidamente associado ao contexto artístico da krisis na Europa Central. É o caso de Wilhelm Worringer, que estudou o auto-retrato, em artistas como Oskar Kokoschka ou Käthe Kollwitz, vendo aí a manifestação de um auto-exame duplo: do mundo interior do artista e da urgência da arte como experiência. Um pouco mais tarde, a magnífica série de auto-retratos produzidos por Schönberg, que não era um pintor profissional, mas antes a figura central da composição musical no período, transportará essa articulação a um apogeu final na arte vienense. Tais manifestações permitiram conduzir a vontade de arte em direcção a uma acepção mais distanciada da História da Arte e mais próxima de uma fenomenologia da expressão artística. Uma tal deslocação abre a percepção das diferenças radicais que podem marcar a vontade de arte, diferenças que Riegl já referenciara na periodização artística e que aqui está prestes a impregnar a própria crise das categorias estéticas e historiográficas.

Se, em Riegl, a vontade de arte se encontrava ainda na órbita da visão do mundo (Weltanschauung), tal como o pensamento oitocentista a definira, o século XX assistirá a uma explosão do conceito, que possibilitará a consideração da obra de arte como elaboração actualíssima da vontade de arte. Desse modo, a Kunstwollen é hoje relativizada no seu confronto com manifestações que, perante ela, se abrem como um valor do heterogéneo. Esta abordagem terá um impacto ainda hoje decisivo nas questões da conservação artística e do património. Ela será prolongada nos estudos da recepção das obras de arte, assim como nas teorias do «restauro crítico» inspiradas em Cesare Brandi. 


[1] RIEGL, Aloïs, Historische Grammatik der Bilden Künste, [org.: Karl M. Swoboda and Otto Pächt.] Graz, edição privada, 1966.

[2] VATTIMO, Gianni, A Sociedade Transparente, Lisboa, Relógio d’Água, 1992.

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