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ArteImprimirDicionário critico

Experiência estética

Jorge Leandro Rosa

O conceito de experiência estética revela o desejo de permanecermos no estético mesmo quando saímos da presença dos objectos artísticos. Esse desejo demonstra, simultaneamente, que o estético não pode ser aprisionado nas obras de arte e que o campo das artes, na modernidade, tem contribuído para a constituição de domínios da experiência que ainda não possuem uma categorização formal. O pensamento sobre as artes já não se manifesta apenas na determinação de uma relação de identificação ou de reconhecimento de uma identidade estética, mas parece formar-se na própria complexidade da experiência contemporânea. Em última análise, a experiência estética é o renovado testemunho de que a arte continua a pensar através do paradoxo de uma presença nunca conclusiva. A experiência provocada pelo encontro com a forma artística consiste, antes do mais, em efectuar a saída do formalismo da experiência, o que significa, simplesmente, o reencontro da liberdade na relação estética.

Palavras chave: obra de arte, história da arte.

Nada nos autoriza a opor a experiência estética à arte. Mas também não há, hoje, relação alguma de necessidade entre ambas: a experiência estética ganhou importância no século XIX, quando a realidade que circundava os artistas lhes pareceu excessivamente determinada pelo mundo técnico[1].

Muito do que se passou no século seguinte pode ser descrito como o esforço de reconduzir as artes a essa indeterminação que parecia ser exigível na pura experiência estética. A religação da arte e da vida surgiu, progressivamente, como a parte essencial dos programas modernistas, motivo pelo qual o carácter imediato da experiência pareceu sobrepor-se à mediação cultural que ela necessariamente pede. De algum modo, e ironicamente, foram os dispositivos tecnológicos, hoje cada vez mais vulgarizados nos processos artísticos, que foram libertando os espaços dessa fruição supostamente espontânea e imediata do estético. O que significa que continua a existir uma estrutura que sustenta o estético, embora a sua aparência cultural seja muito diferente daquela que conhecemos nos séculos XIX e XX. Como escreveu Heidegger, «a experiência será, talvez, o elemento no qual a arte morrerá».

Face à aparente indeterminação contemporânea dos domínios estéticos, deve colocar-se a questão essencial de sabermos o que distingue ainda a «experiência estética» da pura experiência existencial. Podemos, desde logo, colocar a hipótese do adjectivo «estético» constituir uma forma de reconhecimento de algo que, se não o tivéssemos como suporte de verbalização, poderia ser perdido de vista. Ora, o estético aparece muito cedo na experiência humana, mas a consciência socializada dele é muito mais tardia. Entre esses dois tempos, decorre a imensa maior parte da
história da arte. E essa será uma história de experiências que nos afectam profundamente, mas para as quais os nomes nunca eram, por definição, suficientes. Diremos, então, que o estético começa por ser aquilo que progressivamente virá exceder as nossas qualificações da experiência.

«Estético» é um termo que reúne, numa síntese complexa, um esforço de inteligibilidade da experiência sensorial e um exercício discursivo que, tendo as suas próprias regras, é independente do domínio sensorial e se desenvolve através de uma reconstrução imaginária deste. Desse modo, o estético levanta, hoje, o próprio problema da nossa relação significativa com a experiência sensorial. Como escreveu Jacques Rancière, «estético é a palavra que diz o nó singular, difícil de pensar, que se formou há dois séculos entre as sublimidades da arte e o ruído de uma bomba de água, entre um timbre velado de cordas e a promessa de uma humanidade nova»
[2]. Uma outra autora, Christine Buci-Glucksmann, falará do estético como manifestação de uma crise do regime substantivo das artes, como «melancolia da arte»[3].

Qualquer uma destas perspectivas sublinha, a seu modo, que a experiência estética é, antes do mais, uma experiência da incerta transição que trespassa qualquer divisão territorial que queiramos estabelecer entre arte e não-arte. No fim de contas, a experiência estética é a própria experiência da inadequação, mesmo quando tentamos descrever como estética a adequação interna dos seus elementos. Alain Badiou designou como «inestética» uma relação do pensamento com a arte que, partindo da noção de que esta é em si mesma produtora de verdades, se recusa a tomá-la como objecto de uma operação de determinação do verdadeiro
[4].

Depois de ter ascendido a uma posição auto-suficiente, simbolizada pela proliferação de instituições museológicas e académicas a arte volta a constituir espaços híbridos que redefinem a própria experiência estética. De certo modo, o último critério que teremos para delimitar o campo do estético reside nessa fabricação de espaços onde as relações são reinventadas. Esse é, aliás, o critério mais seguro que nos aparece quando tentamos determinar as características da arte parietal no Paleolítico: a busca da gruta pode aqui ser interpretada como a primeira manifestação dessa delimitação de um território «estético» afundado em si mesmo. Mas este não é um lugar de contemplação. Neste, a visibilidade encontra-se intimamente ligada às operações da invisibilidade. A experiência do visível não se opõe, em última análise, à experiência do invisível. O espaço material e ctónico possibilita aí uma experiência cuja hibridez ainda hoje não é inteiramente compreendida.

Em muitas das manifestações da arte parietal, encontramos mãos que aí são inscritas por um processo diferente daquele utilizado nas restantes
imagens que as circundam. Estas mãos aparecem em «negativo» quando um pigmento líquido é expelido pela boca sobre a própria mão. Ficam lá mãos ausentes produzidas pelo sopro, que é a função primária da linguagem. Ficam as mãos que testemunham eloquentemente a relação entre ausência e presença que é constitutiva de toda a experiência estética, mesmo que muito antes de toda a concepção do estético (Fig.1).

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[1] Cf. SHUSTERMAN, Richard, La Fin de l’expérience esthétique, Pau, Publications de l’Université de Pau, 1999.
[2] RANCIÈRE, Jacques (2004), Malaise dans l’esthétique, Paris, Galilée, p. 25.
[3] BUCI-GLUCKSMANN, Christine (1990), Tragique de l’ombre, Paris, Galilée, p. 249.
[4] BADIOU, Alain (1998), Petit Manuel d’inesthétique, Paris, Seuil.

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