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ArteImprimirDicionário critico

Valor Artístico

Jorge Leandro Rosa

A arte tem vindo a tornar-se parte dos processos mediáticos onde a reprodução do valor opera indiferenciadamente, ou seja, não depende apenas do sistema estético, como aliás nunca aconteceu, mas estende-se hoje a processos profundamente mergulhados no mais indeterminado e inominado que as circulações monetárias e sígnicas contemporâneas produzem. Daí que o desligamento entre cânone estético e valor estético tenha ocorrido sem que a visibilidade social das artes tenha sido afectada. Permanecem, contudo, sinais de uma nostalgia da arte como valor autónomo, inqualificável e inquantificável. Se muitas das práticas institucionais e de prestígio ainda operam na ambiguidade do valor (in)calculável da arte, que é também a ambiguidade do valor definido como intemporal, outros actores emergentes nas artes contemporâneas parecem encontrar nas novas redes o lugar onde ressurgem processos de indeterminação do estético. Situam-se, evidentemente, no paradoxo de produzirem figuras determinadas pela fuga à referenciação estética sobre suportes orientados pela traductibilidade generalizada. Parece renovar-se aí a antiga e nunca esgotada discussão em torno das relações entre valor extra-estético e valor estético (Fig.1).

Palavras chave: história da arte, obra de arte, museu, raízes da arte, fim da arte

O valor intrínseco da arte, que foi sempre um dos tópicos mais equívocos da ontologia estética, e que se encontrava particularmente abalado na modernidade, aparece hoje na dependência da produtividade geral dos meios contemporâneos. A monetarização das artes é, se recordarmos Niklas Luhmann, a última caução do valor simbólico da arte numa cultura cada vez mais dependente do dinheiro e da fluidificação do sentido. Se não fosse traduzível num valor monetário, a arte, pura e simplesmente, já não existiria no nosso tecido de significações. Tal não significa que os processos artísticos possam ser integralmente descritos pelos processos económicos que lhes surgem associados.

Pelo contrário: se o valor económico produz uma zona de fixação do valor estético que funciona como «reserva de valor», há uma outra vertente que aí tende a virtualizar o estético, quer dizer, a fazê-lo domínio estranho ao sujeito e à determinação metafísica da relação entre aquilo que aparece e o seu sistema de produção. Significativamente, a economia dita virtual, através da sua desafecção do lugar e do tempo, abre sincronicidades enigmáticas que vêm servir um remanescente da inactualidade estética.

Como diz Mario Perniola, há um enigma que «está ligado à impressão de que nada pode já apropriar-se de forma exclusiva do tempo ou estabelecer com o tempo actual uma relação de co-pertença essencial. O tempo está cumprido porque já não há uma vontade artística determinada, nem uma identidade formal inseparável dela. O tempo cumprido relativiza todo o universo artístico, transformando a actualidade em ocasião e o repertório em inventário»[1]. Sublinhe-se que o «tempo cumprido» da presença do estético é também, e sobretudo, retrospectivo, na medida em que a História da Arte é hoje subvertida por novas combinatórias das formas artísticas do passado que parecem poder regressar ao espírito do Gabinete de Curiosidades, as Wunderkammer do período barroco, onde o espírito de colecção imperava sobre a sistematização lógica e histórica dos espécimes artísticos. Da arte rupestre ao dealbar da modernidade artística, os processos locais e históricos da valorização das obras de arte, que constituíam uma das preocupações maiores da historiografia e da fenomenologia modernas da arte, parecem voltar a ser submergidos por uma apetência generalizada por consumos des-historicizados. Este é, por conseguinte, um processo onde o discurso sobre a arte revela a sua crescente vulnerabilidade perante as mutações actuais do «museu imaginário». Fugindo à proposta de Malraux[2], que situava o encontro com as obras num exercício onde o museu estivesse ao serviço do imaginário humanista, hoje, o museu, enquanto espaço híbrido, situa-se na intersecção de discursos cuja hierarquização é dificilmente tornada visível, quer por parte dos programadores e curadores, quer por parte das instituições responsáveis.

Em particular desde o Romantismo, muitas das formas de valorização do artístico manifestaram-se como vontade de um discurso sobre a arte. E um grande número desses discursos versava o curto-circuito estético do valor e do seu cálculo, dando origem a um discurso que supostamente procedia da própria arte. Por essa razão, a valorização discursiva da arte desemboca naquilo a que Carole Talon-Hugon descreve como «uma destruição e uma apoteose»[3]. Se a arte se encaminhasse para o absoluto, ela só poderia ter o valor que lhe conferia Hegel: etapa precisa de um processo destinado a ultrapassá-la e, portanto, a dissolvê-la (Auflösung)[4]. Da arte ficaria o testemunho de uma necessidade que, embora incontornável, estaria cumprida. Não parece despiciendo interrogar aqui um certo hegelianismo vago e impreciso que atravessa o mundo contemporâneo: há um sentimento generalizado de inactualidade da arte que constantemente a empurra para processos de choque capazes de, pela mediatização, reavivarem o protagonismo do estético.



[1] PERNIOLA, Mario, Enigmas, O Momento Egípcio na sociedade e na arte, Lisboa, Bertrand, 1994, pp. 127-128.

[2] Cf. MALRAUX, André, Le Musée Imaginaire, Paris, Gallimard, 1947.

[3] TALON-HUGON, Carole, A Estética, história e teorias, Lisboa, Texto&Grafia, 2009, p. 53.

[4] Cf. HEGEL, Estética, Lisboa, Guimarães Editores.

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