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ArteImprimirDicionário critico

Ornamento

João Pedro Fróis

Dispositivo decorativo incorporado no objecto (mas não essencial para a definição funcional e estrutural desse mesmo objecto).

Palavras chave: imitação, marca, símbolo, cultura

Não se sabe a origem do ornamento figurativo do Paleolítico Superior mas presume-se que tenha o seu ponto de partida na necessidade de imitação e do registo das impressões que a natureza exerce sobre o homem. Conjuntos ornamentais decoram santuários e mausoléus dos túmulos de Kharraqan de Gazur Gah na periferia da cidade de Herat e os palácios de Nishapur do século XI e de Isfahan (Grabbar, 2000). Por exemplo, na pintura persa o ornamento desempenha um papel de mediação que permite o acesso à imagem, delimitando o espaço e a estrutura pictórica e controlando as superfícies. Um estilo que de modo sensível capta o movimento de um caçador na captura de um animal exige mais do que a reprodução do visível, de igual modo exige a mestria criativa e imaginativa daquele que produz o desenho, a pintura ou o ornamento. Neste sentido é interessante a posição do psicólogo Karl Bühler ao considerar que o ornamento dos “povos primitivos” foram desenvolvidos directamente a partir do jogo com as linhas, semelhante à garatuja infantil ou também das linhas e das formas elementares produzidas ao acaso durante a produção de objectos utilitários, a partir da acção de riscar na pedra durante a feitura de um machado, do riscar na madeira e das impressões digitais no barro durante a modelação do mesmo - Heng, 1931 (Fig.1).


Em todas as tradições culturais e artísticas o ornamento é usado. Está presente na pintura, na escultura, no vestuário e objectos do quotidiano com o objectivo de realçar a qualidade de um utensílio ou de uma fachada de um edifício. O ornamento é entendido como um dispositivo decorativo incorporado no objecto, mas não essencial para a definição funcional e estrutural desse objecto. Na sua evolução, o ornamento, surgiu como algo que está acima da forma funcional acrescentado para o prazer visual do indivíduo. Através do ornamento podemos destacar ou dissimular os elementos estruturais dos objectos e da arquitectura. O ornamento tem também a capacidade de transformar os objectos em realidades particulares. A nova configuração do objecto provocada pelo seu uso está na origem de uma relação de pertença do seu detentor identificando-o culturalmente com um grupo. Ao ornamentar-se um objecto glorifica-se o objecto. O ornamento ao contrário, por exemplo, da pintura, pode ser usado em grandes superfícies e encontrado em qualquer lugar e visto por todas as pessoas. Se quisermos saber se uma característica específica de um determinado objecto é, ou não, um ornamento, devemos tentar imaginá-lo sem essa mesma característica específica. Se o objecto continuar estruturalmente integro e puder cumprir a função para que foi concebido, como salienta James Trilling (2003), essa
marca específica poderá ser considerada como o elemento ornamental. O ornamento é sempre uma convenção. As suas formas, estilos e aplicações variam com o tempo e os lugares em que foram produzidos. Neste sentido, o ornamento é uma fonte importante de informação acerca dos valores sociopolíticos de uma determinada cultura ou de um determinado povo. Os ornamentos desenvolvem-se no âmbito dos constrangimentos da história e das crenças, nas representações desses símbolos e nas limitações técnicas impostas pelos materiais utilizados à expressão plástica criativa dos artesãos e artistas de várias origens e épocas.

O estudo das escolhas e o modo de tratamento dos ornamentos em várias
culturas permite o conhecimento da qualidade estética das formas preponderante nessas culturas. Crê-se que o ornamento foi primariamente utilizado de modo utilitário e de acordo com o ritual da sua natureza, mas com o tempo terá evoluído para um efeito puramente decorativo ou artístico estilizado, e por vezes, em grande parte já desprovido dos seus antigos rituais e significados simbólicos, apresentando-se assim como estilizações peculiares, reduzindo as formas à sua essência abstracta. O ornamento tem frequentemente um conteúdo narrativo concreto, visualmente discernível, mas o seu valor reside na soberania do prazer visual que advém dele. Se uma determinada decoração exige mais informação do que as próprias formas transmitem, se não as pudemos usufruir sem conhecer o seu conteúdo narrativo, então essa decoração não é um ornamento. A imitação da natureza pode estar na origem do elemento ornamental, mas nem sempre isto acontece. Uma evolução semelhante a partir de elementos especificamente funcionais para decoração em geral pode ser detectada na expressão artística de vários lugares.

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Bibliografia

Depouilly, Jacques (1998). Apprenez à regarder les dessins de vos enfants. Paris: Samogy.
Grabbar, Oleg (2000). Mostly Miniatures. An Introduction to Persian Painting. Princeton: Princeton University Press.
Heng, Helga (1931). The Psychology of Children’s Drawings. London: Routledge.
Trilling, James (2001). The Language of Ornament. London: Thames and Hudson.
Trilling, James (2003). Ornament: a modern perspective. Washington: University of Washington Press.

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