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ArteImprimirDicionário critico

Arte e Corpo

Ieda Tucherman

Na sua presença contemporânea a body art indica um movimento inspirado nos happenings e nas performances, que  usa o corpo do artista como suporte e meio de expressão. Sua genealogia, no entanto,  remonta a um passado remoto como demonstram as pinturas encontradas nas cavernas, e os vestígios e registros encontrados nas câmaras mortuárias que provam ter sido o corpo a primeira tela. Hoje, opondo-se à tradição ocidental, a body art  explora o corpo produzindo visões onde tatuagens, piercings, escarificações, deformações e  ferimentos, aproximam-na de sacrifícios e rituais, assim como afirmam processos de identidade locais, daí a diversidade de suas manifestações. Marcando diferenças culturais, aponta como cada cultura se apropria ou se afasta das outras num trânsito de imagens que  revela muito sobre o povo visto e sobre o modo de ver do outro. Também afirma  uma explícita subjetividade fazendo do artista o centro da obra:  seu corpo e seu ato criador.

Palavras chave: ritualidade , corpo, arte contemporânea, tatuagem, marca, cultura,

A body art ou arte do corpo tem uma longa história não contínua nem linear. Na acepção atual designa um movimento da arte contemporânea, surgido nos anos 60 do século XX que toma o corpo como matéria ou meio de expressão para a realização de trabalhos, sendo frequentemente associada aos happenings e às performances. Opondo-se à tradição ocidental que emprestava à arte o papel de transfigurar a verdade orgânica do corpo, a body art  não é uma nova forma de representação do corpo ou sobre o corpo, como as encontráveis ao longo de toda a história da arte. Tomando o corpo do artista como suporte para a realização de intervenções, a body art exibe o corpo em todos os estados de lesão, exaltando o corpo lacerado, a carne mutilada, produzindo visões  em geral associadas à violência, ao sofrimento e à decomposição. O sangue, o suor, o esperma, a saliva e outros fluidos corpóreos que são utilizados nos trabalhos trazem à luz a materialidade do corpo, que funciona como suporte para gestos ou cenas que assumem por vezes a forma de sacrifícios ou de rituais. Tatuagens, piercings, escarificações, deformações, ferimentos, são realizados, sejam em local privado e divulgado por meio de filmes, vídeos ou fotografias, sejam em público, o que demonstra o caráter radicalmente teatral desta arte do corpo.

Considerando as declarações de seus artistas, suas realizações e os textos críticos que fazem referência à esta vertente da arte contemporânea, podemos compreendê-la como uma reação a um mercado internacionalizado e à tônica da relação arte/técnica, assim como podemos perceber por via da mesma body art a entrada em cena de novos atores sociais; negros, mulheres, homossexuais, gerando uma nova semântica para as práticas contemporâneas do uso artístico do corpo. Neste contexto  a body art é uma forma de comunicação e afirmação de uma identidade, função que parece atravessar toda a sua longa presença na experiência humana. A body art reedita também certas práticas utilizadas por sociedades “primitivas”, como pinturas corporais, tatuagens e inscrições diversas sobre o corpo, remontando a uma genealogia que reconhece a certeza de uma anterioridade da decoração sobre o corpo sobre todas as outras formas de representação plástica.

Encontramos assim os primeiros usos de body art entre esculturas e ornamentos arqueológicos achados no Egito, na Grécia, assim como fragmentos e objetos do antigo Peru, Equador, México e Costa Rica (Fig.1). Considerando que o fazer arte é um símbolo que define a humanização, o corpo foi então a primeira tela. Recuando ainda mais, pinturas, desenhos e ornamentos   descobertos em cavernas indicam a presença de povos que há aproximadamente 30000 anos intervinham no próprio corpo. Do mesmo modo as tumbas e sarcófagos, revelam que certas  civilizações usavam tatuagens, piercings e esculpiam seus corpos, decorando-os há milênios. Tudo indica que as formas identificadas como body art apareceram no mundo antigo com o mesmo propósito principal: expressar identificação com alguns grupos e distinção de outros, questionar o lugar do indivíduo no universo e no plano social e, em casos de uso religioso, buscar comunicação com a vida após a morte.

Um glossário referente às formas de arte do corpo permite relacionar o hoje e o ontem, o lá e o aqui:
Body Painting (pintura do corpo): usando materiais diferentes tanto representa a transformação da pessoa num espírito, numa obra-de-arte, num outro gênero, como expressa aliança e proteção em rituais de iniciação, funerais e casamentos, como ainda vemos nas pinturas de henna nas mãos das noivas na Índia (Fig.2).

Body Shaping (escultura do corpo): a forma do corpo humano pode ser alterada, e vários povos, em várias épocas, escolheram meios de modelar seus corpos de maneira a torná-lo conforme a certos locais ideais de beleza; é o caso dos sapatos japoneses que modificam a forma dos pés (Fig.3), dos pescoços esticados com anéis e o das atuais e comuns cirurgias estéticas. Práticas de modelar a cabeça se referem a datas de 6000 anos atrás e continuaram ocorrendo, inclusive na Europa, até ao século XIX, e hoje em algumas comunidades da América do Sul.

Tatuagem: os modelos e as técnicas de tatuagem que consistem em perfurar a pele com um instrumento afiado e insertar pigmento através da camada inferior da epiderme (a derme) variam bastante segundo as diversas culturas onde expressam mensagens diferentes: podem representar ritos de passagem, postos hierárquicos, um compromisso de aliança, a marca de um castigo (basta pensar nos escravos marcados pelos donos ou nos números dos campos de concentração marcados nos prisioneiros), um ornamento de moda ou uma postura de rebelião. Esta multiplicidade de sentidos além da contra-cultura e da forma eletrônica recentemente inventada de tatuar respondem pela sua freqüência atual nos corpos jovens do Ocidente (Fig.4).

Escarificação: Enquanto para algumas culturas a pele imaculada é símbolo de beleza para outras a pele lisa indica um corpo ainda não pronto ou decorado. Realiza-se a partir da produção de cortes e cicatrizes assim como da inserção de substâncias ou objetos que produzam quelóides e relevos na pele (Fig.5). Hoje teríamos como referência as experiências de intervenção sobre si mesma que produz e divulga a artista contemporânea Orlan que faz do próprio corpo ator e personagem nas cirurgias rituais que executa e sofre (Fig.6).

Piercing (Fig.7, e fig.8): tem um caráter decorativo quando acrescenta ao corpo ou ao rosto alguns ornamentos (mais comuns na orelha, nariz e lábios da população jovem) foram encontrados em antigos túmulos incas, maias e entre povos da Ásia e do Mediterrâneo. Também tem o sentido de marcar uma passagem, uma transformação, uma mudança de idade ou status e assim pode ser restrito a algumas pessoas ou a algumas ocasiões. Além destes, outras partes do corpo também podem  receber piercings, inclusive os órgãos genitais, marcando aí uma territorialização, segundo alguns, uma mutilação, segundo outros.

A body art, servindo como marca de  identificação apresenta entre os povos expressiva diversidade de  suas manifestações, que tanto podem servir de inspiração como de rejeição; marcando diferenças culturais, apontam como cada cultura se apropria ou se afasta das outras. Desta maneira, viajantes de todos os tempos trouxeram de volta para seus países de origem imagens do povo que encontraram (Fig.9). Missionários, piratas, conquistadores e turistas absorveram, espantaram-se ou reconheceram a presença e o papel em cada
cultura, da arte sobre o corpo (Fig.10). Este trânsito de imagens os antropólogos reconhecem que revela muito sobre o povo visto, e bastante sobre o modo de ver do outro. Nas Artes Visuais ocidentais é inegável a influência das visões trazidas das Américas, da Ásia e de África, que tanto aparecem nas obras de grandes artistas, como Picasso, quanto foram exploradas como figuras de subcorpos nas feiras e circos da Europa e dos Estados Unidos, sobretudo no século XIX.

Na atualidade, o movimento conhecido como body art  tem a antecedência da arte pop e do minimalismo, num momento onde os cânones da arte estão sob suspeita. Neste quadro, questionar as relações entre arte e vida cotidiana, arte e não arte, autor e espectador é tarefa de quase todas as linhas da arte contemporânea, em obras que articulam diferentes linguagens, tais como dança, música, teatro, literatura, escultura, fotografias e filmes, assim como usam variados suportes. Parece ser impossível hoje chamar algo de pintura ou escultura.

Aí a body art  afirma uma explícita subjetividade fazendo do artista o centro da obra:  seu corpo e seu ato criador. Retoma experiências pioneiras dos surrealistas e dadaístas do uso do corpo do artista como matéria ou suporte para a obra, assim como recorre à inspiração do movimento acionista vienense (Aktionismo), representado por artistas como Herman Nisch, Otto Muhl, Rudolf Schwarkogler e Gunther Brus que reinvidicavam para a arte o uso da matéria e de sua mundaneidade. Influencia-se também pelo teatro dos anos 60, seja o Nô japonês, o Teatro da Crueldade de Artaud ou o Living Theatre assim como pelo movimento Fluxus, uma rede internacional de artistas, compositores, escritores e designers, cuja característica foi a produção de uma mistura de diferentes mídias artísticas e disciplinas. Completando o contexto de surgimento da body art aparece a interferência da obra de Joseph Beuys dos anos 60-70.
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Referências Bibliográficas


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http:/www.amnh.org/ehxibitions/bodyart.html
http:/www.itaucultural.org.br/enciclopedia
http:/www.orlan.net/

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