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ArteImprimirDicionário critico

Arte Pública

Fernando José Pereira

A questão essencial que se coloca é: onde se situa o espaço público? Este deverá ser encarado como mais do que um mero plano de áreas deixadas livres na paisagem urbana e entendido como algo que deverá estar continuamente a ser injectado de energias colectivas nos mais variados níveis. Um problema novo, contudo, coloca-se nos nossos dias: o abandono dos centros urbanos e a transfiguração das periferias em novas centralidades. Para tal é, muitas vezes, utilizada uma certa "arte pública", de gosto massificado, que possibilita uma espécie de efeito sanitário nas zonas a ser intervencionadas. Mas existem outras possibilidades em aberto para a arte nos espaços públicos. Aquelas que, como no caso paradigmático da cidade alemã de Münster, convivem, de forma intrinsecamente colaborativa, com os seus habitantes. Ou, então, as intervenções mais efémeras e experimentais que são levadas a cabo por artistas em nome individual ou por grupos colaborativos nas ruas das grandes cidades.

Palavras chave: paisagem, site specific, arte contemporânea, arte vida e meio

1. Sobre o espaço público

A primeira pergunta a fazer é básica e, contudo, de resposta complexa: onde se situa, exactamente, o espaço público referenciado a uma situação de exterioridade física? Parece vaga a sua localização, porém, podemos cartografar referências que nos situem. No sentido mais literal da sua significação, serão as áreas deixadas livres da
paisagem urbana ou limitadas pela arquitectura. O espaço público convoca uma distinção relativamente ao mero plano urbanístico. Segundo Walter Grasskamp[i], se o espaço público for encarado como mais do que um mero plano, este tem que ser constantemente injectado de energias colectivas em todo o espectro possível das suas manifestações - políticas, económicas, sociais, bem como artísticas. A quarta dimensão do espaço público é a sua utilização.

A realidade, contudo, apresenta-se distante desta, o esvaziamento e desertificação do "centro urbano" levada a cabo nos últimos anos - imagem paradigmática do nosso tempo - transformou a relação previamente existente. Encontramo-nos perante uma situação que, por ser de tal forma distante daquela que formou a ideia de cidade e do seu centro, ainda nos aparece como que desfocada. O espaço público, urbano por excelência, sinónimo de liberdade, objectivo central de gerações contínuas de pessoas que aí buscaram a sua integração no universo cosmopolita da cidade, espécie de farol para todos os que fugiam da ruralidade e do seu fechamento, encontra-se em acentuada degradação. Podemos falar numa espécie de falência do espaço público urbano como local privilegiado de sociabilidade, devido às doses sucessivas de erros urbanísticos e, sobretudo, à ideia de insegurança que, ao apresentar-se como uma situação inalterável, transforma as ruas e os centros urbanos em órgãos desligados da vida social necessária à sua revitalização, tornando-se, por outro lado, refúgio para camadas mais ou menos subterrâneas da nova ordem social (os sem abrigo) que proliferam e fazem proliferar a vigilância forçada, por parte das forças policiais.

Com a ascensão de insegurança e a alternativa oferecida de uma nova postura social reivindicada pelos centros comerciais emergentes nas periferias, ou se quisermos, nas antigas periferias da cidade, assistimos a uma migração do público das ruas para o interior destes, com a consequente transferência das actividades que anteriormente eram executadas de forma vivida no espaço público do centro para zonas circundantes. A construção destes grandes centros comerciais servem, ainda, como linhas fronteiriças entre um centro esvaziado de actividades vivenciais pelos seus habitantes e uma periferia cada vez mais construída à imagem do consumo acelerado. As "novas centralidades" urbanas encontram-se, assim, situadas nas antigas periferias numa paradoxal troca de protagonismo que ainda hoje se encontra em plena mutação.

Talvez tenha chegado a altura de se proceder a um reequacionamento da própria noção de espaço público. Não esqueçamos, por exemplo, que se tivermos em atenção as premissas de ocupação deste espaço, então, paradoxalmente, onde ele se encontra mais activo é, sem margens para dúvidas, no espaço virtual da rede. Da política à sociabilidade, mesmo a mais íntima, passando pela economia e, claro, pelas manifestações artísticas, todas as manifestações inerentes ao espaço público aí se desenvolvem exaustivamente. A nota dissonante é que o acesso a este novo espaço público se faz a partir do mais privado e pessoal, isto é, o PC. Daí a intencionalidade sempre presente de revitalização do espaço real com a profusão dos chamados hot spots, por exemplo, nos parques e jardins das cidades. O espaço público contemporâneo exige novas formas de intersubjectividade, inclusive, virtuais e, acima de tudo, uma visão que proponha o seu entendimento segundo estas novas premissas e não de acordo com posturas nostálgicas de um passado que não se repete. E esta é uma constatação que é determinante para se poder proceder a um novo potenciar, esclarecido, da utilização do espaço público.


2. Sobre "arte pública"

Em conjunto com estas alterações nota-se um proliferar de peças de "arte pública" pelas praças (já não do centro, pois essas encontram-se já habitadas há séculos) mas de zonas limítrofes e sempre com a mesma preocupação de reabilitar a zona. Deve, contudo, realçar-se a componente quase kitsch da maioria das intervenções propostas. A democracia, sobretudo ao nível de maior proximidade com a população, isto é, ao nível local, propõe-se sempre a realizar uma espécie de nivelamento interventivo que passa pelo pretenso respeito estético de todos, então nada melhor que optar por uma arte aparentemente ligada aos preceitos da modernidade, quase sempre, inócua e de contornos mais ou menos abstractizantes. Temos, pois, uma atitude de ilusão de vivência e preenchimento do espaço público com a proliferação perniciosa de uma espécie de mercado de obras de arte decorativas que figuram como registos visíveis de todas as cumplicidades estabelecidas entre poder e "artistas" no sentido de "democratizar" culturalmente o espaço público. As tristemente célebres obras artísticas das rotundas configuram, no seu pior, o registo a que nos vimos referindo. Não poderemos deixar de expressar uma outra atitude, claramente antagónica, e que se prende com o estatuto de reivindicação de liberdade absoluta para o artista que quer intervir no espaço público. Este posicionamento, se funcionou e continua a funcionar no interior do museu, quando aplicado no exterior provoca equívocos tão ou mais complicados que a anterior aporia "democrática".

O artista não poderá nunca esquecer a especificidade do exterior e a sua intrínseca qualidade de espaço para ser vivido. A individualização da componente formal e consequente desadequação ao todo público transfigura a arte, chamada pública, em corporização vazia de objectos invasores deste mesmo espaço. Existe já uma longa história de estórias de polémicas, colocações e até demolições de objectos artísticos colocados no espaço público. Talvez o caso paradigmático de Richard Serra e o seu "Tilted arc" (Fig.1) tenha ajudado a um reposicionamento dos artistas quando abandonam as "white cubes" e se encontram no exterior. Da sua instalação, polémica e consequente demolição ressalta claramente uma evidente falta de pesquisa, em termos sociológicos, do ambiente onde a peça se propunha ser instalada. O ambiente
site
specific reclamado pelo artista ficou reduzido a uma pesquisa espacial, faltaram os outros níveis de investigação que se revelam fundamentais. O problema determinante coloca-se, talvez, numa génese inicial que provoca, mesmo que inconscientemente, o desrespeito pelo espaço público. A uma arte habituada a habitar em "white cubes", no interior do espaço museológico, colocam-se questões de variadíssima ordem quando confrontada com a contaminação exterior do espaço público onde, acima de tudo, não existem as expectativas de sentido que a fazem proporcionar as significações necessárias à sua existência no museu.

Novos parâmetros clamam por novas soluções e novas abordagens dos problemas; a arte nas ruas deve e pode existir mas tenderá a ser completamente redefinida e reordenada. O artista francês
Daniel Buren (Fig.2) habitual frequentador das ruas e do espaço público com as suas peças -  refere que a arte, se quiser vir para a rua tem, no mínimo, que descer do seu pedestal e colocar-se ao mesmo nível das pessoas que a povoam. Uma arte em espaço público tem que contaminar e deixar-se contaminar não só pela íntima relação que mantém com o seu (site specific) mas, também, com as outras grandes componentes desse mesmo espaço. As potencialidades de intervenção são completamente distintas. Privilegiar um contacto directo com o público sem, no entanto, se apresentar como componente de um universo alienígena - o museu e num âmbito mais alargado a arte contemporânea. Este talvez seja o ensinamento mais interessante das intervenções realizadas no exterior: o afrontamento e a imposição reconduzem a arte para o seu domínio específico e aí clama-se consecutivamente a necessidade absolutamente inadiável do contacto com a realidade, ou seja, um paradoxo que, se quisermos, tem logicamente resolução.


3. Sobre a arte no espaço público

O manter de um equívoco de catalogação para uma forma específica da
arte contemporânea: a "arte pública" e da sua validação conceptual potencia, naturalmente reacções diversas. Vimos já que sob este rótulo se produzem intervenções que, mesmo olhadas de diversificados pontos de vista, se afirmam desinteressantes. Evidentemente que outros caminhos de intervenção existem e co-habitam desinteressadamente com estes, talvez de forma paralela e exilada, mas esses não reivindicam o estatuto de "arte pública", provavelmente de forma mais acertada.

A iniciativa dos projectos escultóricos na cidade alemã de Münster (Fig.3) apresenta-se como um caso de sucesso. A sua larga periodicidade (apenas de 10 em 10 anos) permite-lhe antes de mais, um protagonismo raro nos nossos dias; por outro lado e mais importante, aqui a relação que as peças instaladas no espaço público mantêm com a cidade é intensa. A cidade transfigura-se numa espécie de amplo território site specific durante os meses de Verão, uma vez por década, e acolhe as peças com a naturalidade inerente a uma relação que é de intrínseca colaboração. Algumas das peças têm uma vida efémera enquanto outras, como o famoso caso da roulotte de Michael Asher (Fig.4), encontram-se na cidade desde o primeiro evento em 1977. Um outro elemento que deve ser salientado é a qualidade e o grau de experimentação que as peças demonstram em claro contraste com as conservadoras peças da "arte pública" institucional. Mas este é um caso isolado de êxito. Talvez a maior das lições a tirar dele seja o rigor das escolhas bem como o seu acerto com o universo complexo do espaço público. A par destas considerações uma outra fundamental: as expectativas de sentido de quem vai a Münster ou de quem lá está passam, na totalidade, pela relação com as peças instaladas um pouco por toda a cidade e este é por certo o segredo da iniciativa.

Numa vertente mais interventiva devemos salientar as experimentações artísticas levadas a cabo por artistas e grupos colaborativos nas ruas das cidades. Alguns casos paradigmáticos merecem destaque pela força que emanam as suas intervenções. Ao nível individual é obrigatório referir o exemplo do artista polaco Krystoff Wodiszko e das suas intervenções, tanto ao nível da colaboração com os habitantes mais legítimos do espaço público, os homeless vehicles (Fig.5), como as suas projecções em edifícios públicos (Fig.6). E, mais recentemente, as obras de rua produzidas por Thomas Hirschhorn, os altares e os monumentos (Fig.7, e fig.8), bem como as peças colaborativas com populações suburbanas das grandes cidades. Ao nível colaborativo, grande destaque para a obra histórica do Group Material (Fig.9) nas ruas de Nova Iorque durante as últimas décadas do século XX e, nos  nossos dias,  as intervenções de grupos como os Billboard Liberation Front (Fig.10) que actualizam o détournement situacionista nos outdoors das cidades americanas. Alguns conceitos a fixar nestas novas formas de intervenção artística no espaço público contemporâneo: culture jamming, adbusting, subvertising e flash mobs (termos anglo-saxónicos por respeito aos espaços públicos em causa, sobretudo os Estados Unidos).

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[i] GRASSKAMP, Walter, 'Art and the City', in Sculpture Projects in Münster 1997, Verlag Gerd Hatje, Westfälisches Landesmuseum, Münster, 1997.

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