ArteImprimirDicionário critico

Figura Humana

Ana Rodrigues

No âmbito da História da Arte Ocidental, a representação da Figura Humana tem sido um dos temas centrais das Artes Visuais (desde a pré-História até aos nossos dias). A vontade e, ao mesmo tempo, a necessidade do homem de se representar a si mesmo, de se imitar a si mesmo, e de guardar memória de si mesmo, fez com que deixasse de se remeter apenas para a esfera das formas, ultrapassando-as largamente, situando-se assim na questão mais vasta da visão do mundo e da sua representação, devendo esta para tal ser entendida como um processo de reflexão sobre a origem e a evolução da própria humanidade.

Palavras chave: arte da pré-história, representação visual, corpo, .

Este processo é histórico, ou seja, o modo como o homem se representou ao longo dos tempos foi-se alterando de acordo com a visão que tinha de si mesmo e do mundo que o rodeava, constatando-se assim que os artistas da pré-História, do Antigo Egipto, da Antiga Grécia e Roma, da Idade Média, do Renascimento, do Barroco, do Romantismo e dos séculos XX e XXI, representam a Figura Humana com formas diferentes entre si. A representação da Figura Humana na pré-História relaciona-se, provavelmente, com a crença de um carácter mágico do próprio objecto que agiria sobre quem o possuísse. Neste sentido, o artista da pré-História, a partir da observação directa da realidade, concede a si mesmo a liberdade de deformar algumas formas, a fim de lhe conferir significados. Por exemplo, o exagero intencional dos seios e das nádegas da Vénus de Willendorf deve estar relacionado com o culto da fecundidade (Fig.1).

No Antigo Egipto, a representação convencional da Figura Humana, tanto de homens como de mulheres perfeitamente hieráticos, engalanados de atributos, respeitando a lei da frontalidade e o cromatismo diferenciador de ambos os sexos, parece, no fim de contas, traduzir a imutabilidade do próprio império que as produzia, por isso, os seus retratos patenteiam uma tranquilidade imperturbável através dos tempos.
Na Antiga Grécia, por sua vez, a representação da Figura Humana atinge o seu verdadeiro auge, visto que os artistas gregos foram os primeiros a conseguir representar a Figura Humana tal como ela era percepcionada pela vista. E, para o conseguirem, recorreram à perspectiva, a escorços e a um profundo conhecimento da anatomia humana – que observavam em repouso e em movimento nos Gymnasia e nos Jogos Olímpicos – tornando-se exímios na representação do nu (a Nióbida será o primeiro nu feminino da História), e da psicologia, tendo sido assim os primeiros a representar todas as emoções do drama que é a existência humana. Contudo, a busca da perfeição, da harmonia e da proporcionalidade – traduzidas no “cânone” (a regra), condiciona um certo realismo da arte grega pela necessidade da representação de arquétipos perfeitos, no sentido de alcançarem, afinal, o belo ideal. No período actualmente considerado como o da Antiguidade Clássica, podemos ainda destacar o contributo dos artistas da civilização romana na área da retratística, e a sua enorme capacidade para reproduzir com total fidelidade os traços fisionómicos e psicológicos de crianças, homens, mulheres e velhos.
Durante um dos períodos mais longos da História da cultura ocidental – a Idade Média – a representação da figura humana volta novamente a afastar-se da forma tal como era percepcionada pela vista, ganhando assim  uma grande expressividade. Com o objectivo de realçar as intenções simbólicas da tradição cristã, a Figura Humana passará a ser apresentada frontalmente, hierática e com gestos rígidos, chegando-se mesmo a praticar incorrecções anatómicas simplesmente para a adaptar ao espaço que lhe estava destinado. O nu raramente é tratado, mas quando isso acontece, tratam-se, geralmente, de corpos alongados e de estrutura óssea mal marcada, como demonstra a escultura denominada "Adão e Eva", de Canto da Maia (Fig.2).

No Renascimento, a representação da Figura Humana ganhou um novo fôlego. A pesquisa sobre este tema, realizada neste período e estendendo-se até ao século XIX, pode-se entender como a procura do segredo dos antigos ou a tentativa de descoberta do cânone que se pensava que os Antigos utilizavam e que seria uma espécie de receita mágica que, quando devidamente aplicada, resultaria na criação de corpos perfeitos. Neste sentido,  a representação da Figura Humana, seguindo a herança clássica, demonstrou vários níveis de fidelidade visual, quer nos aspectos físicos e anatómicos, quer na expressão dos sentimentos e das emoções, recuperando-se assim os géneros do nu e do retrato. A referência era o Homem enquanto “medida de todas as coisas”, tal como fora imortalizado por Leonardo da Vinci.
A representação da Figura Humana, durante o período do Barroco, continua as conquistas renascentistas, mas conferindo-lhe um ar mais teatral, ou seja, optando assim por tornar as proporções mais esguias, pela composição em serpentinata que lhes dá mais dinamismo, por explorar expressões de forma mais exagerada, e por captar as personagens “em acção”, como uma espécie de instantâneo fotográfico.
No século XIX, as conquistas na Pintura e na Escultura não andaram de braços dados, mas ao nível da representação da Figura Humana, o que é comum em ambas as artes plásticas é que se privilegia a expressão do sentimento individual. Sintomas do tempo, e facetas exasperadas do humano foram pela primeira vez representados de forma verdadeiramente exemplar.
No século XX, podem-se considerar Les Demoiselles d’Avignon de Picasso como o momento de ruptura na maneira como se representa a figura humana antes e depois desse quadro. A total desconstrução ou a construção dos corpos vistos como figuras geométricas, a estilização rude e seca obtida pela prioridade dada à linha recta sobre a linha curva, e o desbastamento da Figura Humana em volumes geométricos abruptos, abriram as portas para uma total liberdade face aos cânones anteriores e ainda face às possibilidades das inúmeras representações futuras.

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