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ArteImprimirDicionário critico

Artes Tecnológicas

Fernando José Pereira

A noção de artes tecnológicas tem servido para designar as novas hipóteses de trabalho que os artistas têm hoje ao seu dispor e que advêm da crescente penetração das tecnologias no seio da sociedade contemporânea e da arte. As tecnologias digitais, sobretudo, têm-se desenvolvido de forma exponencial e com uma rapidez nunca vista. Daí que sejam estas, nas suas mais variadas configurações, que vão da manipulação fotográfica até às propostas especificamente criadas para o universo virtual da internet, que tenham tido um maior desenvolvimento. Uma das características fundamentais da nova paisagem tecnológica da arte é a sua pluralidade medial, a par de noções novas inerentes ao fazer no âmbito do digital, como é o caso paradigmático da interactividade. Assiste-se, hoje, a uma redefinição do território das artes tecnológicas, a um discernimento que contraria o deslumbramento inicial mas, sobretudo, a uma condição comum da produção artística a este nível no âmbito alargado das artes contemporâneas.

Palavras chave: arte e técnica, imagem digital, espectador, fotografia, vídeo, cinema.

A noção contemporânea de artes tecnológicas remete directamente para um relacionamento já antigo do fazer da arte com as tecnologias que lhe estão disponíveis. Contudo, as últimas décadas do século XX assistiram a um incremento exponencial da penetração das tecnologias devido, sobretudo, ao aparecimento do digital.  Uma das alterações mais intensas tem a ver com a compressão temporal que os desenvolvimentos numéricos impõem, inclusive a si próprios, e que determina, desde logo, uma sucessão contínua de inovações e de correspondentes obsolescências. Esta é, aliás, uma condição inerente ao próprio conceito de arte tecnológica. Sempre que assistimos ao aparecimento de uma nova forma tecnológica de fazer artístico é, desde logo, esgrimida uma espécie de ameaça virtual no sentido de aniquilação das restantes formas de intervenção artística. Mais de um século de intensas transformações tecnológicas permitem afirmar sem problemas que o perigo não advém  nunca daí, mas de outras latitudes que já nada têm a ver com a presença tecnológica mas, sobretudo, com a postura conceptual que, por vezes, as acompanham. O que verdadeiramente corporiza a realidade do nosso tempo é a convivência de variadas formas de fazer sem qualquer espécie de preponderância, muito menos de índole tecnológica.

Uma das consequências da intensa experimentação contemporânea ao nível das tecnologias é a consequente multimedialidade que estas produzem. Este é um tópico importante neste domínio, sobretudo, porque existe uma tentação, diríamos quase totalitária, de fechamento em torno do digital. Este todo tecnológico produz uma multitude de hipóteses de aparecer que são inerentes à condição camaleónica das combinações algorítmicas, produzindo desta forma uma situação simulacral de diversidade tecnológica que, de facto, não tem correspondência na realidade. O que parece ser importante é a manutenção de todas as possibilidades tecnológicas em aberto sejam elas digitais ou não. A condição pós-medial (como lhe chama Rosalind Krauss [i]) exige esta diversidade até porque não se centra na especificidade do medium,  mas numa relação muito mais importante que encaminha o pensamento sobre a obra para a totalidade do resultado apresentado. Temos, pois, um largo espectro tecnológico a operar nas artes contemporâneas, contudo, teremos que destacar a contribuição importante dada pela tecnologia digital. Apesar dos problemas que já enumerámos, o que é um facto é que a tecnologia digital permitiu alguns desenvolvimentos inovadores sobretudo numa lógica de aperfeiçoamento e abrangência das experiências artísticas, nomeadamente, ao nível da interactividade tornada quase categoria estética devido à crescente influência que produz nos trabalhos dos chamados artistas new media (Fig.1).

A interactividade posiciona-se, então, como uma das características identitárias das artes tecnológicas digitais e, desde logo, potencia a aproximação a um novo território: a rede. Aqui, em pleno âmbito do virtual vão situar-se algumas das experiências mais estimulantes da produção artística agora desmaterializada, mas amplamente inserida nos mapeamentos da comunicação global permitidas pela internet.
A interactividade é, aliás, uma premissa estruturante das novas artes digitais ao exigir do espectador uma participação até aqui longamente recusada. Uma transformação do
espectador em operador que permite a reivindicação (exagerada) de uma espécie de simetria autoral entre artista e receptor. Contudo, existe algo de inequivocamente atraente nestas novas obras tecnológicas: a sua transparência comunicativa possibilita claramente uma penetração muito forte e ao mesmo tempo uma recepção alargada e positiva. Alguns perigos, porém, podem advir daí. Uma estética de proximidade comunicativa institui objectivos de interacção que, em alguns casos, colocam a intencionalidade artística entre parêntesis para tudo concentrarem na relação pretendida com o receptor, chegando nos casos mais radicais a ser posto em causa o resultado final.
Não se pense que somente no território virtual da rede existem peças de carácter interactivo. Também da construção de objectos reais carregados de intencionalidade interactiva se fazem algumas das experiências artísticas contemporâneas. Aqui, todavia, a relação, por ser tangível, exige uma interacção directa.
As artes tecnológicas fazem parte integrante do panorama artístico da actualidade. Um século e meio depois da fotografia ter introduzido o problema, eis que nos nossos dias deixou de haver problema para se colocar como solução de amplitude alargada para o território da arte. A convivência saudável entre as mais variadas formas do fazer artístico tecnológico que vão da
fotografia à rede, passando pelo vídeo, pelo cinema, pelo som, mas sobretudo, pela existência de objectos tecnológicos impossíveis de classificar, mas que possibilitam uma conclusão clara: as artes tecnológicas são no nosso tempo um sinónimo da experimentação artística amplamente praticada no território aberto e plural das artes contemporâneas. Esta espécie de idade adulta possibilita, também, o discernimento necessário perante o deslumbramento que habitualmente as tecnologias provocam e, desta forma, a conjugação dos esforços em torno daquilo que é verdadeiramente importante no fazer da arte: produzir objectos artísticos.
Assiste-se, então, a uma redefinição do espaço das chamadas artes tecnológicas porque, como muito correctamente refere Andreas Broeckmann[ii], se as primeiras gerações tinham uma relação mais receosa com o computador que com a televisão, nos nossos dias a cultura digital confunde-se com a cultura contemporânea, daí a naturalidade das possibilidades digitais para o trabalho dos artistas. Esta assumpção de uma normalidade tecnológica irá, por certo, potenciar a reflexão mas, também, a produção de objectos artísticos libertos do rótulo tecnológico que hoje carregam. 


[i] Krauss, Rosalind, A Voyage on the North Sea: Art in the Age of the Post-Medium Condition, Thames & Hudson, London, 2000.
[ii] Broeckmann, Andreas, Deep Screen – Art in Digital Culture, Stedelijk Museum, Amsterdam, 2008.

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