Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

ArteImprimirDicionário critico

Iconografia

Ana Rodrigues

A Iconografia é a disciplina que estuda sistematicamente as questões em torno do conteúdo das obras de arte, por oposição à forma. Entre os principais domínios da Iconografia, podem citar-se, por exemplo; a identificação das fontes de inspiração para a imagem, a análise da contaminação das formas e dos significados de imagens provenientes de outros contextos, e o estudo dos significados simbólicos, profundos e intrínsecos da própria imagem (sendo este nível de leitura mais adequadamente denominado de Iconologia). A história da Iconografia, enquanto disciplina e método, é indissociável da da Iconologia, sendo os seus termos muitas vezes usados indiferentemente.

Palavras chave: história da arte, símbolo. representação visual

Desde o Renascimento que estudos realizados sob diferentes perspectivas contribuíram para cimentar esta área de estudos que só se viria a autonomizar no século XIX. O estudo da retratística antiga levado a cabo por Achilles Statius (1569) e, mais tarde, a famosa série de retratística de Anthony van Dyck (1645), intitulada na edição de 1759 como Iconographie ou vie des hommes illustres; a descodificação dos símbolos do Cristianismo Primitivo por Molanus (1570), e por António Bosio (1632) – cuja Roma Sotterranea fora escrita logo após a descoberta das catacumbas (1578) –, por Johann Reiske (1685), por Ciampini (1690-99), e por Gottfried Arnold (1700-01); a preocupação em estudar profundamente os monumentos da Antiguidade para aceder aos seus conteúdos patentes no Recueil de Caylus (1752-67) e nos trabalhos de Wincklemann (1766); e a utilização das fontes literárias como temas para pinturas tendo em vista estabelecer um significado mais profundo e geral da ideia simbólica [símbolo] da obra de arte (Bellori, 1672), são alguns dos trabalhos pioneiros sobre Iconografia realizados durante a Idade Moderna. 

No século XIX, em França, constitui-se a primeira “escola” dedicada ao estudo da Iconografia Medieval. Apesar destes estudos se focarem na investigação do Cristianismo primitivo, a verdade é que vieram a constituir um importante ponto de partida para sucessivos estudos sobre o simbolismo medieval da Iconografia cristã. Entre estes investigadores destacam-se os nomes de Adolphe-Napoléon Didron (1843), de Fernand Cabrol (1855-1937), e de Henri Leclercq (1869-1945) – autores do maior dicionário (1907-53) sobre iconografia cristã e referência incontornável até aos dias de hoje, e ainda o nome de Émile Mâle que descobriu que na arte medieval cada forma contém um conceito, destacando assim o carácter simbólico e didáctico da arte cristã. Sobre a Iconografia dita clássica (a dos deuses e a das alegorias) no primeiro quartel do século XX, destacam-se as escolas alemãs e austríacas. Fora dos meios académicos, a metodologia de Aby Warburg abala as tradicionais fronteiras da História da Arte e faz da Iconografia e  da Iconologia disciplinas que, juntamente com a história dos estilos, e a história  da recepção e dos materiais, mais contribuiram para a compreensão da obra de arte.

Aby Warburg dedica-se então ao estudo sistemático da arte do Renascimento, viajando por todo o mundo e reunindo uma gigantesca biblioteca, cujos 60 000 volumes são exportados em 1933, de Hamburgo para o Warburg Institute em Londres, e mais tarde (em 1944) para a University of London. A pesquisa de Aby Warburg caminhava no sentido oposto à abordagem formalista Wolffliana da História da Arte, que reduzia o tema da obra de arte a um mero pretexto para a pesquisa plástica do artista, porque entendia a obra de arte como sintoma de uma dada cultura, relacionando-a com factores políticos, religiosos, sociais e históricos. Foi com a sistemática investigação dedicada à sobrevivência das formas da Antiguidade (durante a Idade Média e o Renascimento) que Aby Warburg percebeu que por um processo de “contaminação”, por vezes, “re-interpretativa”, as formas das obras de arte ressurgiam aqui e ali, por vezes com novos significados, geralmente associados a alguma mudança cultural e espiritual. Todos estes princípios já estavam presentes na famosa conferência proferida, em Ferrara, em 1912, sobre os frescos do Palazzo Schifanoia, na qual recupera, para descrever a metodologia empregue, o título do famoso manual de Cesare Ripa (1593, 1ª ed. Ilustrada 1603), Iconologia – livro quinhentista, no qual os deuses da Antiguidade Clássica, ou figuras neles inspiradas, são chamados a personificarem conceitos, para os quais o autor fornece vários significados simbólicos. Apesar disso, só em 1931, é que G.J. Hoogewerff definiu “Iconologia”, diferenciando-a do tradicional método de “Iconografia”. 

Sob a influência de Aby Warburg e do filósofo Ernst Cassirer, avulta-se a figura maior de Panofsky. Devedor igualmente das ideias de Dvorak e do conceito de Reigl, Kunstwollen, Panofsky estabelece, com precisão, em Studies in Iconology (1939), aprofundando depois em Meaning in the Visual Arts (1955), a metodologia para aceder à compreensão temática das obras, a qual assentava em três níveis de compreensão construídos uns sobre os outros: um primeiro nível, descritivo, um segundo, de identificação (o da Iconografia) e, um terceiro, o da Iconologia, que pretende aceder a uma compreensão profunda dos significados intrínsecos da obra de arte enquanto sintoma cultural ou enquanto símbolo do inconsciente (Fig.1). Neste sentido, qualquer forma de expressão artística é susceptível de leitura iconológica, mesmo das que não são passíveis de uma leitura iconográfica, como a arte abstracta. No entanto, na prática, a aplicação mais frequente deste método é dirigida para descodificar o significado simbólico e alegórico da obra, ou seja, pela leitura iconográfica da obra.

Os historiadores da arte com um interesse puramente estético na recepção da obra de arte, como Lionello Venturi (1945), consideram o método iconográfico como um obstáculo ao entendimento da obra de arte. No entanto, o estudo dos temas é a chave para revelar as relações da arte com outras expressões culturais, colocando assim o objecto artístico na história da cultura e das mentalidades.

A possibilidade de cada obra significar todo o universo que a produziu apresenta muitas fragilidades (Gilbert, 1952), pois na maior parte dos casos uma obra de arte só se relaciona com parte, ou partes, do contexto que a produziu. Outra das actuais críticas ao método iconológico é que muitas leituras não reconstroem a verdade histórica, tratando-se, sim, de interpretações realizadas a posteriori por especialistas em História da Arte, adicionando à obra, leituras e significados com que a sua recepção a foi cumulando. Otto Pacht (1956) denunciou que a necessidade de descodificar da Iconologia, condicionou a leitura de complexos programas ideológicos disfarçados sob representações realistas, sem qualquer prova que um tal programa tivesse sido previsto por encomendante ou artista para aquele quadro (Fig.2). E, isto, diz Pach, porque o método iconológico desenvolveu-se na direcção de interpretar a consciência em vez do simbolismo inconsciente. 

Ou seja, na prática, a Iconologia desvia-se da sua intenção inicial, mas idealmente seria o método mais abrangente para a histórica interpretação da arte, pelo menos a da arte ocidental até ao início do século XX, cuja erudição e elitismo tem articulações significantes com a filosofia, a religião e a literatura.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved