Arte Além CôaImprimir

PARPALLÓ


Situada no maciço de Monduber, nas proximidades da localidade de Gandia, na província de Valência, em Espanha, a gruta de Parpalló foi descoberta por Vilanova y Piera, em 1872.

Objecto de escavação entre 1922 e 1931 por L. Pericot, a gruta de Parpalló revelou um registo estratigráfico que, após recente revisão, traduz uma sequência cronológica de ocupação que se estende desde os finais do período Gravettense, abrange todo o Solutrense e só termina com o Magdalenense Superior mediterrânico, abrangendo um intervalo temporal que poderemos situar, aproximadamente, entre 28.000 e 11.000 anos antes do presente.

Para além da importância do registo artefactual, quer ao nível da utensilagem lítica, quer da indústria óssea, o principal motivo do grande destaque da gruta de Parpalló no domínio da arte paleolítica está representado pela impressionante colecção de arte móvel nela encontrada, da qual se destaca o conjunto formado por mais de 5.000 plaquetas e blocos de calcário decorados, recuperado no decorrer das escavações arqueológicas.

Aquando da sua descoberta, durante os anos vinte do século passado, esta colecção de arte móvel representava um elemento isolado do contexto daquele que, então, era o quadro geográfico por excelência da arte do Paleolítico Superior na Península Ibérica, a costa cantábrica. Na actualidade, e fruto das descobertas efectuadas nas últimas décadas, o panorama é, por certo, completamente distinto e a grande qualidade da arte móvel de Parpalló pode ser entendida no contexto de toda uma área de tradições artísticas regionais bem estabelecidas e consolidadas, que abrange todo o território peninsular localizado a sul da bacia do rio Ebro e na qual o número de sítios arqueológicos com arte paleolítica, tanto parietal, como móvel, tem vindo a aumentar significativamente.

A arte móvel da gruta de Parpalló tem por suporte, não apenas alguns elementos da indústria óssea nela presente (mais de uma centena de objectos), mas, sobretudo, o famoso conjunto de milhares (5034) de plaquetas, blocos de calcário e alguns seixos, onde se inscrevem representações essencialmente de carácter zoomórfico (sobretudo equídeos, caprinos, cervídeos e bovídeos, a que se juntam raríssimos carnívoros e algumas aves), sinais abstractos (definindo formas lineares complexas, tais como formas onduladas, em zigzag, escalifomes quebrados e em forma de meandro, reticulados, etc.) e uma única representação de cariz antropomórfico.

Do ponto de vista técnico, este impressionante conjunto foi produzido através, fundamentalmente, da utilização de técnicas de gravura, registando-se situações em que as figuras foram, posteriormente, preenchidas por pintura, ou pelo recurso à combinatória destes dois procedimentos (gravura e pintura) na própria definição inicial das representações.

A importância da gruta de Parpalló não advém, todavia, unicamente, da natureza inusitada dos suportes empregues para o estabelecimento da sua arte móvel, ou dos quantitativos absolutamente anormais desta, decorrendo, também, da circunstância dessa expressão artística se registar ao longo de uma ampla sequência temporal, cronologicamente bem identificada e balizada, permitindo, assim, acompanhar, de forma concreta e objectiva, a sua progressiva evolução no campo estilístico.

Assim, e de acordo com V. Villaverde Bonilla, investigador responsável pelo estudo e pela última proposta de sistematização da arte móvel de Parpalló, esta terá conhecido várias etapas de desenvolvimento.

O seu início, ainda que tímido do ponto de vista quantitativo, ocorre logo durante a ocupação gravettense (28.000 – 21.000 anos antes do presente), estando representado por um pequeno conjunto de 7 plaquetas com gravuras exclusivamente zoomórficas, algumas delas já objecto de pintura na sua área interior.

O período seguinte, identificado com o Solutrense (21.000 – 16.500 anos antes do presente) traduz o momento tido como o apogeu da arte móvel de Parpalló, a fase em que esta dá provas da sua máxima expressão e originalidade artísticas. Aliás, este fenómeno poder-se-á generalizar a toda a arte paleolítica da região a sul do Ebro, quem sabe devido à concentração de comunidades paleolíticas nesta área, que funcionaria, porventura, como zona refúgio face à degradação climática alcançada aquando do último máximo glaciário.

A comprovar aquela explosão está a possibilidade de, no seio deste segundo período, ter sido possível reconhecer uma série de subdivisões, que, sequencialmente, acompanham a evolução tradicionalmente adoptada para aquele tecno-complexo.

Deste modo, ao Solutrense Inferior (± 21.000 anos antes do presente) foram associadas mais de 150 plaquetas, que, se por um lado traduzem uma certa continuidade nas normas herdadas da fase anterior, não deixam, por outro, de testemunhar, também, novos desenvolvimentos, através, por exemplo, de um maior equilíbrio nas proporções dos animais representados, no cuidado colocado na representação de alguns detalhes anatómicos, na introdução de factores de animação e na composição de cenas.

No Solutrense Médio (± 20.000 – 19.000 anos antes do presente), ao qual foram atribuídas mais de 850 peças decoradas, as tendências esboçadas na fase anterior assumem pleno desenvolvimento (ao nível dos detalhes, do dinamismo das representações, por exemplo), destacando-se, deste modo, o sentido de continuidade já antes patenteado. Saliente-se, contudo, que não deixa de se observar o desenvolvimento de alguns aspectos inovadores, nomeadamente ao nível da variabilidade e complexificação dos motivos geométricos e, sobretudo, do significativo aumento registado na dimensão dos suportes utilizados para a realização das gravuras e pinturas, os quais, aproximando-se nalguns casos do meio metro de comprimento, parecem querer transmitir um cunho parietal à arte de Parpalló.

O Solutrense Evoluído (19.000 – 16.500 anos antes do presente) compreende dois momentos no seu desenvolvimento. Numa fase inicial (Solutrense Superior), que integra 915 peças, constata-se uma redução do tamanho dos suportes, que assim regressam aos cânones habituais, bem como uma acentuada diminuição de alguns elementos pictográficos, designadamente no plano da animação e da representação de cenas. Na sua fase final, designada por Solutreo-gravetense e representada por 558 objectos, os elementos acabados de referir reassumem de novo especial relevo, desta feita pela inversa, atingindo as representações um dinamismo e um detalhe nunca antes verificado.

Quanto à arte móvel atribuída ao tecno-complexo Magdalenense (16.500 – 11.000 anos antes do presente) e à semelhança do registado no período anterior, também aqui se verifica o estabelecimento de algumas subdivisões.

Assim, no Magdalenense Inferior (16.500 – 14.000 anos antes do presente), a sua fase inicial de desenvolvimento (Magdalenense Antigo A) expressa, no domínio artístico, um elo de ligação com algumas das normas e padrões herdados da tradição solutrense anterior, na circunstância traduzida por uma diminuição da riqueza pictográfica (na dinâmica, no detalhe, inclusivamente na nítida regressão da técnica pictórica) e dos próprios quantitativos das representações (323 plaquetas). Na sua fase final (Magdalenense Antigo B) assiste-se a uma nova inversão nos cânones e normas iconográficas, com reflexo, desta vez e desde logo, num novo aumento dos quantitativos das figuras (com 671 peças) e no estabelecimento daquelas que são as características essenciais da arte tardia do Pleistocénico europeu, ou seja: no domínio das representações zoomórficas, o seu realismo, respeito pelas proporções e a atenção prestada aos detalhes anatómicos; no âmbito dos sinais geométricos, o regresso e aumento da sua complexificação e diversidade.

Finalmente, o Magdalenense Superior (14.000 – 11.000 anos antes do presente) está representado por 440 objectos (contabilizando plaquetas e utensilagem óssea gravada), nos quais a tendência observada para o registo naturalista traduz uma continuidade relativamente aos processos iniciados na etapa anterior.

Em conclusão, a arte móvel de Parpalló permitiu, através da vasta janela cronológica que abriu sobre a arte paleolítica, visualizar, com clareza e segurança (porque radiometricamente balizada), a sequência da sua evolução estilística, passando, deste modo, a constituir, pela sua coerência, um referencial de extraordinária importância para todos os estudos sobre a arte dos caçadores-recolectores do Pleistocénico Final peninsular, designadamente a do Vale do Côa.

Com efeito, a forma como sugere a continuidade entre as manifestações artísticas do período Gravettense e a fase inicial do Solutrense, a importância que nela se percebe da expressão artística de todo este último período e o modo como se opera a passagem para a etapa seguinte (Magdalenense), bem como a sua ulterior evolução, fazem da gruta de Parpalló um marco incontornável para o estudo da arte paleolítica.


Para saber mais:
VILLAVERDE BONILLA, Valentín (1994), Arte Paleolítico de la Cueva del Parpalló. Estudio de la colección de plaquetas y cantos grabados y pintados, Diputación de Valencia, Servei d’Investigació Prehistórica, 
2 vols., 404 p., 316 fig., 75 lám.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved