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GRUTA DO ESCOURAL


Descoberta em 1963, a gruta do Escoural permanece a única jazida portuguesa em gruta com arte parietal paleolítica conhecida até ao momento.

Situada na freguesia de Santiago do Escoural, no concelho de Montemor-o-Novo, a cavidade encontra-se implantada em calcários cristalinos, muito metamorfizados, intercalados com faixas de gneisses e corneanas.

Objecto, logo em 1964, de uma publicação preliminar da autoria do abade A. Glory, a gruta do Escoural haveria, contudo, de aguardar mais de trinta anos para que, finalmente, lhe fosse dedicado um estudo detalhado (1996).

Não obstante as condições estacionais desfavoráveis e a degradação entretanto sofrida por algumas das representações, as pesquisas levadas a cabo nos finais do século passado permitiram, ainda assim, individualizar setenta e oito conjuntos pictóricos, alguns dos quais bastante complexos, perfazendo um total de cento e oito figuras naturalistas e abstractas.

As primeiras, em número de trinta e quatro, reúnem imagens de dezassete equídeos, sete bovídeos e dez elementos figurativos isolados (chifres?). Os equídeos estão representados pelas ilustrações de catorze cabeças, dois quartos traseiros e um quarto dianteiro. Do ponto de vista técnico, nove cabeças foram concretizadas através da gravura e cinco da pintura. As primeiras encontram-se definidas por traços finos, de secção em “U” em oito dos casos e em “V” num outro. Quanto às cinco cabeças de animais pintados, em três delas o pigmento utilizado foi o preto, nas restantes duas o vermelho. Relativamente às ilustrações dos dois quartos traseiros, um foi pintado a preto e o outro gravado. A ilustração do quarto dianteiro foi, também ela, concretizada por gravura. Com excepção das orelhas nas cabeças, a preocupação com a ilustração de detalhes anatómicos é praticamente inexistente em todas as representações.

Quanto aos bovídeos, quatro ocorrem sob a forma de cabeças e três são representações corporais. Uma cabeça e dois corpos foram pintados com um pigmento preto, enquanto que as restantes figuras (uma figura corporal e três cabeças) surgem gravadas com um traçado fino, tanto com a secção em “U” (2), como em “V” (2).

Os dez elementos figurativos isolados que são interpretados hipoteticamente como chifres, ocorrem todos sob a forma de gravuras. Em nove delas o seu traçado é fino e numa muito fino, enquanto que no que respeita à sua secção, esta revela-se em “U” em quatro situações e em “V” nas restantes seis.

As representações de carácter abstracto perfazem sessenta e seis ilustrações. Treze delas correspondem a temas não figurativos isolados, (representados por pontos e linhas simples, rectas ou ligeiramente sinuosas), vinte e nove a situações onde já se observa alguma organização temática dos motivos (linhas paralelas, secantes, convergentes, perpendiculares e agrupamentos de pontos), revelando onze uma organização que poderá qualificar-se já como complexa (bandas rectilíneas ou sinuosas, reticulas organizadas, representações arciformes encaixadas), enquanto que as restantes treze não aparentam possuir qualquer organização formal.

Do ponto de vista técnico, estas representações abstractas socorrem-se tanto da gravura como da pintura, com trinta e três exemplares para cada uma. Dentro da pintura, os motivos a preto (20) dominam claramente em relação aos que utilizam o pigmento vermelho (13). Quanto à gravura e no que concerne à espessura do seu traçado, predomina claramente o traço fino (18), seguido de perto pelo muito fino (13), enquanto que o traço largo e o raspado podem considerar-se vestigiais. Relativamente à morfologia da secção do traçado, a supremacia vai para as formas em “V” (19) em detrimento das em “U” (13).

O conjunto pictórico presente na gruta do Escoural integra, ainda, duas figuras indetermináveis e um conjunto de seis motivos qualificados de vestigiais. As primeiras, ambas pintadas de preto, poderão corresponder, eventualmente, uma, à representação de um ser híbrido e, a outra, a uma representação animal muito estilizada. Porque ambos os traçados se encontram bastante alterados, a leitura interpretativa dos mesmos deverá ser encarada com sérias reservas. As representações adjectivadas de vestigiais correspondem a manchas coloridas, mais ou menos difusas, que, nalguns casos, se prolongam através de pequenas linhas ou pontos igualmente esbatidos. Destes motivos, quatro são vermelhos e dois pretos.

Desde que foi descoberto, o conjunto de arte parietal da gruta do Escoural foi objecto de várias propostas cronológicas. A mais recente, avançada aquando do estudo de detalhe publicado em 1996, propõe, através da análise estilística comparativa com outras jazidas peninsulares (La Griega, La Pileta, Parpalló, Domingo Garcia e o próprio complexo de arte rupestre do vale do Côa) uma cronologia associada ao Solutrense Médio/Superior para a totalidade das representações figurativas, bem como para algumas das ilustrações abstractas complexas.


Para saber mais:
OTTE, Marcel et António Carlos SILVA (1996) - Recherches préhistoriques à la grotte d’Escoural, Portugal, ERAUL, 65, Liège, 362 p. 

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