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DOMINGO GARCIA


O conjunto de gravuras rupestres de Domingo Garcia situa-se na comarca de Santa Maria Real de la Nieva, província de Segóvia, em Espanha, a cerca de 1km de distância da aldeia de Domingo Garcia, localidade que lhe deu o nome.

Do ponto de vista geográfico a sua implantação integra-se na extremidade sul da bacia do Douro na Meseta Norte, sendo limitado a Noroeste a Serra de Guadarrama e tendo por detrás o Maciço de Santa Maria Real de Neva, também conhecido por Campiñas Ondulladas.

O núcleo de gravuras tem por suporte afloramentos de xistos paleozóicos com uma orientação Nordeste-Sudoeste, tendo aquelas sido preferencialmente concretizadas nas faces viradas a Sul ou Sudeste, mais raramente a Oeste e Este. Nos suportes orientados a Norte desconhece-se, até ao momento, a presença de qualquer gravura, talvez em resultado de uma intensa erosão eólica, ou à grande profusão de líquenes que recobrem as superfícies com tal orientação.

As primeiras referências à existência das gravuras de Domingo Garcia datam dos anos vinte do século passado, da autoria de F. Tuñon Mallada. Posteriormente, já na década de 70, Gonzalo Quintanilla e Lucas Pellicer ir-se-ão interessar pelas representações esquemáticas mais significativas aí presentes, atribuindo-as ao período pós-paleolítico. Em 1981, no núcleo do Cerro de San Isidro e junto com outras manifestações esquemáticas, é identificada a figura de um cavalo, com um estilo de figuração paleolítica. Esta descoberta irá motivar a realização de um conjunto de trabalhos de síntese da autoria de vários autores (A. Moure, E. Ripoll e R. de Balbín), nos quais se procura, pela primeira vez, proceder ao inventário de todas as representações, bem como definir as suas diferentes fases de execução. De todos estes estudos deduz-se a existência de quatro momentos de representação em Domingo Garcia, uma primeira, paleolítica, representada unicamente pelo supracitado equídeo e atribuída ao estilo IV do modelo de evolução estilística da autoria de A. Leroi-Gourhan; uma segunda, de natureza exclusivamente esquemática, de cronologia já pós-paleolítica; a terceira, com uma periodização incerta, mas que aqueles autores situam, algures, entre os finais do Neolítico e a Idade do Bronze; e, finalmente, uma quarta e derradeira fase de gravação, de índole narrativa, com representação de cenas pastoris e bélicas, atribuída à Idade do Ferro.

Por último, já na década de 90, durante os trabalhos de levantamento de representações de cronologia recente, vir-se-iam a identificar uma série de gravuras de estilo e cronologia claramente distintas, desde logo atribuídas à época paleolítica. Este seria o início de uma nova era no estudo do conjunto rupestre de Domingo Garcia.

O conjunto de gravuras rupestres paleolíticas de Domingo Garcia compreende um total de 113 figuras, repartidas por 8 núcleos. Entre estes, três deles (Cerro de San Isidro, Canteras e Dehesa de Carbonero) reúnem mais de 95% do total das representações; os restantes cinco congregam, por isso, apenas uma percentagem residual daquelas.

O núcleo de maior extensão e que reúne um maior numero de painéis gravados é o de Cerro de San Isidro, onde estão presentes, sensivelmente, 50% de todas as representações; dando-lhe continuidade, quer no espaço, quer no número de gravuras encontra-se o de Canteras, com cerca de 32%; Dehesa de Carbonero aproxima-se dos 14%; por fim e consequentemente, os restantes núcleos em pouco ultrapassam os 4%.

Quanto à organização e distribuição espacial das gravuras, as mais recentes abordagens realizadas levantam uma problemática interessante, que se exprime através da noção de “zona-espécie”, segundo a qual no conjunto rupestre de Domingo Garcia se registaria uma distribuição preferencial das espécies figuradas aos distintos núcleos individualizados, com particular incidência, claro está, naqueles que reúnem a grande maioria das representações. Com efeito, no núcleo de Canteras estão presentes mais de dois terços de todos os caprinos, encontrando-se os restantes 25% em Cerro de San Isidro.

Quanto aos equídeos, algo semelhante sucede em relação a Dehesa de Carbonero. Com efeito, ainda que este núcleo não seja aquele que reúne um maior número absoluto de animais representados (esse lugar é ocupado por San Isidro), mesmo assim, o cavalo é aqui a espécie largamente dominante, não se registando um único caprino, os cervídeos e bovídeos, em conjunto, não vão além de 6%, enquanto os “indeterminados” quase atingem 19% do total.

Os bovídeos, esses, por seu turno, têm a sua “zona-espécie” em San Isidro, onde se encontram, à excepção de dois (Dehesa de Carbonero), todas as representações deste agrupamento animal.

Por último, os cervídeos e os “indeterminados” parecem, de algum modo, não se adequar totalmente a esta eventual padronização preferencial, ao distribuírem-se sensivelmente de forma equitativa por San Isidro e Canteras, sendo, contudo, raros nos restantes núcleos.

A confirmação da existência de uma eventual relação espécie/zona no conjunto de Diego Garcia está, de momento, carenciada de investigações de pormenor visando a reconstituição paleoambiental da área por ele abrangida.

As gravuras de Domingo Garcia organizam-se em torno de duas temáticas: as representações de natureza zoomórfica, que integram equídeos, cervídeos, caprinos e bovídeos; as figuras de carácter indeterminado, denominação que abrange todas aquelas que não apresentam um traço anatómico distintivo, que possibilite a sua inequívoca identificação.

N
o cômputo global das gravuras, os equídeos constituem o tema dominante, com cerca de 39%; seguem-se as representações indeterminadas, com quase 24%; cervídeos e caprinos ocorrem em percentagens próximas, sensivelmente 15% e 14%, respectivamente; e por último temos os bovídeos, que quase alcançam 8%.

Do ponto de vista técnico, dois procedimentos foram até ao momento identificados: a picotagem e a incisão. Esta última, caracterizada por um traço filiforme muito fino (com excepção de uma gravura de uma cerva realizada por um traço múltiplo) e pouco profundo é esmagadoramente maioritária, já que a picotagem é empregue apenas em duas ocasiões, ambas ao serviço da realização de dois equídeos.

Aquando da descoberta dos principais núcleos de arte paleolítica, as primeiras publicações que se lhe referem caracterizam-na como animalista naturalista, com as representações a ocuparem sempre posições estáticas, não existindo, por isso, cenas animadas ou de movimento. Os animais são sempre apresentados de perfil, muitas vezes incompletos, não sendo necessária a figuração total para a identificação da espécie.

O estudo estilístico também então efectuado permitiu discernir duas fases da realização das gravuras. De acordo com o modelo de evolução estilística proposto por A. Leroi-Gourhan, um primeiro grupo, mais homogéneo e numeroso, revela certas convenções (linha ventral, cabeça do animal definida com um único traço) ao nível da representação que, normalmente, se encontram associadas à etapa final do Solutrense. O segundo, com paralelismos nas representações de Altamira e El Castillo, faz prova de um grande detalhe na figuração anatómica, podendo, por isso, enquadrar-se-ia na arte do Magdalenense inicial (estilo IV antigo).

O conjunto de arte rupestre paleolítica de Domingo Garcia tem de ser enquadrado nos contextos da Meseta Castelhana e da bacia hidrográfica do Vale do Douro onde, juntamente com Siega Verde e o complexo rupestre do Vale do Côa, constitui uma tríade de sítios que exprimem, na sua plenitude, a importância hoje devida à arte paleolítica de ar livre.

A existência destes três conjuntos constitui a clara demonstração de quão longe da realidade andavam as clássicas concepções, quer em relação ausência de conjuntos monumentais de arte paleolítica foram da tradicional zona franco-cantábrica, quer e consequentemente, no que concerne a ausência de ocupação humana nas zonas do interior da Península Ibérica, durante o último período glaciar.

Pelo contrário, a ideia que hoje parece afirmar-se, é a da existência, nos finais do Pleistocénico, de uma unidade cultural na área do Douro, cuja dinâmica em termos populacionais e culturais, bem como a sua articulação com o meio, só agora se começa a perceber, e na qual, segundo alguns autores (Ripoll López et. al., 1992) a zona da bacia do Douro ocuparia um lugar de destaque das ligações entre o litoral atlântico e o interior da Meseta.


Para saber mais:
RIPOLL LÓPEZ, Sergio y MUNICIO GONZÁLEZ, Luciano J. (Dir), 1999: Domingo García. Arte Rupestre Paleolítico al aire libre en la meseta castellana, Junta de Castilla y León, Arqueología en Castilla y León, 8, 278 p., 305 fig.


Websites:
http://www.uned.es/dpto-pha/domingo/domingo.htm
http://www.csarmento.uminho.pt/docs/ndat/rg/RG105_10.pdf
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/TA/folder/17/155.pdf

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