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GRUTA DE CHAUVET


Localizada no Sudeste da França, na região de Rhône-Alpes, no departamento de Ardèche, a gruta Chauvet integra a Reserva Natural das Gorges de l’Ardèche. Implantada nas falésias calcárias do Cirque d’Estre, a cavidade situa-se num local designado por Combe d’Arc, junto a um meandro abandonado do rio Ardèche em resultado do processo erosivo que esteve na origem da formação do magnífico Pont d’Arc.

A descoberta da gruta teve lugar a 18 de Dezembro de 1994, devendo-se à persistência e tenacidade de três espeleólogos amadores, Jean-Marie Chauvet, Eliete Brunel-Deschamps e Cristian Hillaire. Cientes da importância do achado que acabavam de efectuar, rapidamente comunicaram a sua descoberta às autoridades locais, tendo a Direcção Regional dos Assuntos Culturais de Rhône-Alpes logo solicitado às instâncias superiores a visita de um especialista no estudo da arte paleolítica.

O investigador para o efeito destacado pelo Ministério da Cultura francês, Jean Clottes, efectuaria a sua visita de avaliação logo a 29 de Dezembro, procedendo, de imediato, à autentificação do achado.

A 18 de Janeiro de 1995, ou seja, um mês após a sua descoberta, era organizada uma conferência de impressa, na qual o então Ministro da Cultura de França dava a conhecer ao mundo a gruta Chauvet.

As dramáticas experiências já vividas, nomeadamente, com as grutas de Lascaux e Altamira, prontamente conduziram as autoridades francesas a adoptar medidas de preservação e protecção de carácter excepcional, que passaram, desde logo, pela classificação do sítio como Monumento Histórico, depois, pelo desencadear do processo expropriação dos terrenos abrangidos pela cavidade e, sobretudo, pela decisão de não transformar a gruta Chauvet num local de visita aberto ao público.

Assim e após a realização de alguns trabalhos visando facilitar minimamente o acesso ao local, a entrada da cavidade foi protegida com uma porta blindada, instalado um sofisticado sistema de vigilância vídeo e áudio e no interior colocados equipamentos de monitorização e controlo da temperatura, humidade, actividade bacteriológica e dos próprios fenómenos e processos de concrecionamento.

Actualmente, apenas os membros da equipa multi-disciplinar que realiza o seu estudo, ou investigadores por ela convidados, têm acesso ao interior da cavidade e ainda assim obedecendo a um apertado e limitado protocolo de visita.

Entretanto, encontra-se igualmente em fase de estudo, desta feita por parte das entidades governamentais e regionais, ou a reconstituição virtual integral, ou e à semelhança do ocorrido em Lascaux, a construção de uma réplica parcial da gruta, por forma a proporcionar ao público a partilha e fruição das magníficas representações artísticas presentes em Chauvet.

Ainda que não tenha sido dada por totalmente concluída a sua exploração, a gruta Chauvet desenvolve-se, na actualidade, ao longo de um comprimento de, aproximadamente, 500m, com uma largura máxima que chega a atingir 50m e uma altura que, em determinados locais, quase alcança os 30m.

A sua arquitectura e morfologia foram moldadas, ao longo dos tempos, quer pela circulação das águas no seu interior, quer pelos desabamentos e processos de sucção igualmente verificados, quer ainda pelos concrecionamentos e outras formas e edifícios associados aos fenómenos de precipitação do carbonato de cálcio (estalagmites, estalactites, colunas, etc.). A entrada original da gruta encontra-se, hoje em dia, totalmente obstruída em resultado de um desmoronamento súbito de uma parte da falésia calcária representada pelo próprio Cirque d’Estre. Terá sido esta ocorrência que, ao encerrar repentinamente a cavidade, determinou o estabelecimento de um clima favorável à preservação das pinturas e dos demais testemunhos deixados pela presença dos seus primitivos ocupantes, tanto humanos, como animais. A actual entrada faz-se através de um pequeno divertículo que, em consequência do recuo provocado pela erosão da falésia, acabou por ser recortado, proporcionado, assim, a pequena abertura detectada e utilizada pelos descobridores.

A gruta desenvolve-se através de uma sucessão de salas, galerias e divertículos, tendo sido atribuído um nome a cada um dos espaços onde, até ao momento, foram observadas as mais significativas representações artísticas.

Assim, junto à actual pequena sala de Entrée situam-se, respectivamente, a sala Morel e a sala Brunel, dando esta última passagem para a enorme sala das Bauges. Esta desenvolve-se terminalmente sob a forma de duas galerias paralelas, a da direita apelidada galeria do Cactus e a da esquerda a sala dos Panneaux Rouges que, no seu extremo, dá lugar à sala Rouzaud.

Antes, contudo, de se aceder a esta, localiza-se, do lado esquerdo, uma pequena abertura, que estabelece a ligação com a segunda grande área de desenvolvimento da cavidade.

Este segundo sector da gruta diferencia-se claramente do anterior, quer do ponto de vista topográfico, com um desnível superior a 1,5m a assinalar a separação entre ambos, quer, também e como adiante se verá, no que às próprias representações artísticas respeita.

Ele integra uma ampla galeria central, subdividida em vários espaços, a sala do Cierge e a sala Hilaire, separadas entre si por uma cortina de velhas estalagmites e, numa posição sobrelevada relativamente às duas anteriores, mas no seu alinhamento, a sala do Crânio e a galeria dos Croisillons.

Por último e próximo do limite da parede lateral direita da sala Hilaire, abre-se, ainda em situação sobrelevada, uma segunda galeria de dimensões menores que a anterior. Designada por galeria dos Mégacéros, ela prolonga-se seguidamente pela chamada sala do Fond que, por seu turno, dá acesso a uma galeria terminal lateral mais pequena, apelidada de Sacristie.

À semelhança de muitas outras cavidades, também a temática da arte parietal da gruta Chauvet se apresenta organizada em três grandes categorias: os sinais abstractos e/ou estruturados, as representações humanas e as figuras animais.

Quanto às primeiras, ilustradas por várias centenas de exemplares e presentes sobretudo na primeira parte da gruta, dão mostra de uma reduzida variabilidade, sendo essencialmente representadas por painéis com ponteados, executados quer com o recurso à técnica da pintura (aplicação sucessiva em positivo da palma da mão com pigmento de cor vermelha), quer da gravura (impressão das pontas dos dedos na própria superfície de alteração das paredes da cavidade), por sinais estruturados geométricos apelidados de “insectos” e, ainda, por pequenos bastonetes, segmentos de recta e, porventura, sinais claviformes.

As segundas ocorrem sob a forma de diversas ilustrações vulvares, quer pintadas, quer gravadas, por várias impressões, quer em positivo, quer em negativo, de mãos humanas e, finalmente pela pintura, a carvão, de um ser híbrido, misto de homem e de bisonte, em associação com uma figura feminina, ilustrada pelas pernas e pela zona do baixo ventre, segundo o estereótipo das célebres “Vénus paleolíticas”.

Quanto às representações de carácter zoomórfico, das quais até ao momento foram identificados cerca de 500 exemplares, elas exprimem, para além de uma grande diversidade de espécies, uma temática maioritariamente contrária àquela que, por regra, se costuma verificar na arte paleolítica.

Com efeito, nesta são habitualmente preponderantes as representações de animais que eram objecto de caça por parte do homem paleolítico (ainda que tal ilustração não traduza, directa e rigorosamente, a sua dieta alimentar) e, em contrapartida, raras as figuras de predadores, sendo estas normalmente relegadas ou para locais secundários nas composições, ou para as zonas mais recônditas e de difícil acesso no interior das cavidades.

Na gruta Chauvet, contudo, observa-se exactamente o contrário, ou seja, os animais ditos perigosos, tais como o rinoceronte, o leão, o urso e o mamute constituem mais de 60% das espécies representadas, ocupando, frequentemente, os locais centrais. Em contrapartida, o cavalo, os bovinos (auroques e bisontes), os cervídeos (o veado e a rena) e os caprinos (cabra montesa), ainda que, nalguns casos, surjam, também e individualmente, em número significativo, em conjunto eles são minoritários face aos primeiros. Assinale-se, ainda, a presença de alguns animais raros, senão mesmo únicos, como o grande cervídeo megaceros, o boi almiscarado, a pantera e o mocho.

A justificação para esta evidente diferenciação temática, poderá encontrar-se, segundo o investigador francês Jean Clottes, tanto na cronologia diferenciada das próprias representações, como nas distintas concepções mitológicas básicas que seriam dominantes nos diferentes períodos de realização da arte paleolítica.

Este vasto conjunto iconográfico foi retratado recorrendo a três procedimentos técnicos básicos, utilizados individualmente ou combinados entre si: a raspagem da parede (empregue, quer na construção das próprias figuras, quer na preparação das superfícies para a aplicação das outras técnicas), a gravura (executada, quer através de utensílios líticos ou ósseos, quer mediante o recurso ao simples traçado digital) e, finalmente, a pintura, reconhecendo-se nesta a utilização de três colorações distintas. Uma, o amarelo, com uma ocorrência quase sem significado; as outras duas, o vermelho e o preto, revelando áreas de ocupação preponderante distintas no interior da cavidade.

Com efeito, a análise da distribuição espacial das figuras pintadas conduziu os investigadores à percepção da gruta como dois conjuntos ou entidades com utilizações e significados porventura diferenciados.

A primeira parte, desenvolver-se-ia até ao desnível topográfico que assinala o começo da sala do Cierge, sendo dominada, esmagadoramente, pelas representações a vermelho, tanto de sinais abstractos (painéis com ponteados, sinais geométricos, linhas, bastonetes), como de figuras animais (sobretudo ursos, alguns rinocerontes, raros felinos, caprinos e mamutes) e humanas (mãos pintadas em positivo e em negativo).

A segunda, com o seu início naquela mesma sala, compreenderia, deste modo, a rede mais profunda da cavidade. Dominado inicialmente pelas gravuras e pela raspagem (que introduzem, assim, uma quarta coloração às representações, o branco), este sector será, depois, marcado pela presença de grandes painéis zoomórficos pintados a preto.

Nestes e através de uma elaborada e cuidada utilização da mistura do carvão vegetal com a própria superfície de alteração do calcário branco das paredes da gruta, são conseguidas gradações e sombreados (do castanho muito escuro a várias tonalidades de cinzento) de efeito pictórico notável e único, até ao momento, no quadro da arte parietal paleolítica.

O enorme impacte resultante da descoberta da gruta Chauvet no âmbito dos estudos sobre a arte paleolítica europeia advém, não apenas do extraordinário grau de preservação, qualidade e originalidade das figuras nela presentes, mas também e dada a sua cronologia, pela ruptura e questionamento que as mesmas revelam, ao nível dos formalismos e características de representação, em relação ao modelo de evolução estilística considerado como referencial no quadro daquelas investigações.

A gruta Chauvet constitui, na actualidade, o conjunto de arte parietal que detém um maior número de datações absolutas por radiocarbono (método convencional e AMS). Estas, foram obtidas, quer através de micro-amostras provenientes do próprio carvão vegetal utilizado na realização das pinturas (datações directas), quer mediante outras amostras originárias, desta feita, tanto das manchas de carvão deixadas nas paredes e tectos da cavidade pelos archotes de madeira empregues na sua iluminação, como das várias lareiras encontradas no seu interior (datações indirectas).

As datas alcançadas proporcionaram dois conjuntos coerentes de valores, que apontam, consequentemente, para a existência de dois momentos também distintos para a presença do Homem no interior da cavidade.

O primeiro situar-se-ia no intervalo compreendido entre 32.000 e 30.000 anos antes do presente, identificando-se, assim, com o tecno-complexo Aurinhacense e com o surgimento dos primeiros homens anatomicamente modernos (Homo Sapiens sapiens) no continente europeu. O segundo ter-se-ia verificado entre 27.000 e 25.000 anos antes do presente, associando-se, desta feita e do ponto de vista cronológico-cultural, ao período Gravettense.

Observando a distribuição dos valores numéricos das datações e o modo como os mesmos foram estabelecidos pelos dois momentos acabados de referir, constata-se que as datas mais antigas reúnem todas as datações directas, enquanto que as mais recentes são todas provenientes de datações indirectas.

No plano estritamente artístico verifica-se que os principais painéis presentes em Chauvet, apesar de terem conhecido vários momentos de realização, revelam, no entanto, um número limitado de sobreposições.

Por outro lado e não obstante algumas diferenças de carácter geral assinaladas [utilização e representação preferencial e/ou exclusiva de um pigmento ou de determinada(s) espécie(s) animal(ais) em certa zona da gruta], estas não se sobrepõem à aparente uniformidade verificada, quer ao nível das características e convenções de representação, quer no modo como se processa o aproveitamento da topografia e da morfologia das paredes e dos tectos da cavidade para produzir efeitos de encenação, ou conferir volumetria às figuras.

Este conjunto de constatações leva a equipa de investigadores encarregue do estudo da gruta Chauvet a admitir a hipótese, que a grande maioria das suas representações, pela grande coerência formal que possuem, terá sido obra de um número limitado de autores/artistas que, partilhando de uma mesma mundivivência e ideologia, as terão executado no decorrer de um intervalo de tempo relativamente limitado.

Face aos resultados, natureza e conclusões extraídas das datações numéricas estabelecidas, esse intervalo é associado à etapa que atesta a primeira presença humana na cavidade, ou seja, ao período compreendido entre 32.000 e 30.000 anos antes do presente, traduzindo a segunda ocupação (27.000 a 25.000 anos antes do presente) simples episódios de visita à gruta, porventura com o intuito de, justamente, proceder à observação as figuras nela representadas.

Ora, é precisamente ao patentear uma cronologia tão antiga para a realização das suas representações, que a gruta Chauvet coloca em causa o modelo de evolução estilística proposto por A. Leroi-Gourhan, na década de 60 do século passado, desde então admitido pela generalidade da comunidade científica.

Com efeito, de acordo com tal modelo e com a sequência cronológica que o complementa, as representações presentes em Chauvet, pelas características estilísticas que evidenciam, corresponderiam a uma etapa já relativamente evoluída dentro da arte rupestre paleolítica, um período que poderia situar-se, ou na transição entre os denominados estilos III e IV antigo, ou já mesmo no âmbito deste último estilo.

A admitir-se a validade desta presunção/critério e do ponto de vista cronológico, tal significaria que a arte parietal da gruta Chauvet dataria de há, aproximadamente, 16.000 ou 15.000 anos antes do presente, o que, como facilmente se constatará, significaria um assinalável rejuvenescimento da mesma.

Por isso, com a sua descoberta em 1994, a gruta Chauvet não apenas chamou a atenção para a importância que outras regiões, que não as tradicionalmente consideradas, podem assumir no domínio da investigação sobre a arte paleolítica, como permitiu, através do seu estudo, pôr em evidência, em toda a sua verdadeira dimensão, a fragilidade dos modelos evolutivos de vocação generalista ou generalizadora.


Para saber mais:
CLOTTES, Jean (2001), La grotte Chauvet. L’art des origines, Paris, Seuil, 226 p., 206 fig.


Websites:
http://www.culture.gouv.fr/culture/arcnat/chauvet/fr/
http://fr.wikipedia.org/wiki/Grotte_Chauvet
http://www.hominides.com/html/lieux/grotte-chauvet-exposition-pont-arc.htm
http://www.rochambeau.org/galerie/galerie0001/clottes/chauvet/chauvet/chauvet.html
http://www.culture.gouv.fr/culture/arcnat/chauvet/es/pg-actu2.htm
http://www.elpais.com/articulo/arte/cueva/Chauvet/elpbabart/20020928elpbabart_1/Tes

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